Pegadas na Areia – Margeret Fishback Powers (sugestão de leitura)

Margeret Fishback Powers
Pegadas na Areia
Alfragilde, Estrela Polar

O poema “Pegadas na Areia” foi escrito em 1964 por Margeret Fishback, uma jovem que procurava orientação numa encruzilhada da sua vida.
A criação do poema, a sua perda subsequente e a sua espantosa redescoberta estão interligados com a história do encontro de Margeret com o seu actual marido Paul e os desafios e alegrias da sua vida em conjunto.

(excerto)

Dificuldades e provações

“… nas horas de provação e de sofrimento. Nunca.
Quando viste na areia apenas um par de pegadas
foi porque Eu te carreguei ao colo.”

A decisão estava tomada. Acabavam-se, para a família Powers, as andanças pelos Estados Unidos a fazer espectáculos de magia em cenários laicos. Há muito tempo que eu rezava por deixarmos a vida tipo Hollywood que levávamos há demasiados anos. Uma batalha verbal, travada numa auto-estrada de Los Angeles, enquanto tentávamos abrir caminho no trânsito de sexta-feira à noite, precipitou a decisão.

Tínhamos sido convidados para jantar com amigos, mas algo explodiu em mim pelo caminho. “Vou deixar-te e levo as meninas comigo!” Paul ficou atordoado, e eu também, com aquela explosão inesperada. De algum modo, aguentámos a hora do jantar e no caminho de regresso a casa de Redd Harper, onde estávamos hospedados, conseguimos conversar sobre a nossa situação. Amávamo-nos, tínhamos filhas preciosas, éramos filhos de Deus e esperava-nos uma grande missão. “Tudo isso devia estar em primeiro lugar, Paul”, recordei-lhe docemente. Nessa noite, rezámos e entregámo-nos e ao nosso futuro a Deus. Também pedimos ao nosso bom amigo Redd que rezasse por nós e pelo caminho que as nossas vidas deviam tomar.

No regresso a Toronto, fomos confrontados com uma pilha enorme de contas. “Por favor trata disso, Margie”, disse Paul. “Sabes que não sou bom nisso.” Sim, eu sabia, mas foi uma luta. Mergulhámos juntos no nosso trabalho de intervenção de Verão, mas foram tempos difíceis – uma época de dificuldades e provações como nunca tínhamos experimentado antes.

A actividade de franchising dos filmes passava por uma fase negativa substancial e vimo-nos coagidos a vender o negócio. Mesmo assim, continuámos, na esperança de uma subida na época festiva, mas, ao avançarmos para o Outono e para a época das festas, ela não se concretizou. O Natal de 1972 parecia sombrio.

Bater no fundo foi algo que nenhum de nós tinha previsto quando dissemos a Deus que O poríamos em primeiro lugar e desistiríamos do outro estilo de vida. Pobreza? Não podia acreditar.

Insisti com Paul para que tentasse receber algum do dinheiro que oito igrejas de Toronto nos deviam de cruzadas infantis de Outono. Ninguém lhe tinha pago na altura em que fizera as palestras. Acabou por ser o dia mais humilhante da sua vida, não chegando a receber quarenta dólares.

Desencorajado, Paul entregou-me o dinheiro quando voltou para eu poder ir comprar artigos de mercearia. “Gasta-o com cuidado, Margie”, avisou, “é tudo o que temos. Pus gasolina no carro para a viagem até à quinta.” Tínhamos planeado visitar os meus pais na manhã seguinte para passar o dia de Natal com a família.

Agasalhámos as crianças e saímos para ir às compras. Regressámos duas horas depois. Eu estava contente com algumas pechinchas que tinha descoberto, mas Paul ficou zangado, especialmente quando Tina lhe mostrou um rolo de papel de embrulho dourado.

A sua frustração ferveu e estoirou enquanto gritava comigo por ser tão esbanjadora. O ambiente ao jantar foi deprimente e depenicámos a comida. Os olhos azuis, cheios de lágrimas, da pequena Tina espelhavam o sofrimento que todos sentíamos.

Paul e eu descemos ao escritório para embrulhar alguns presentes. Tina tentava ajudar. A certa altura Paul disse sarcasticamente: “Tina, vais lá acima buscar aquele papel dourado em que a tua mãe desperdiçou dinheiro?”

Se anteriormente não me tinha sentido reduzida à minha insignificância, certamente que fiquei assim nesse momento. Tina demorou a voltar, por isso Paul subiu as escadas, irritado. Eu fui atrás. Lá estava Tina, numa alcova mesmo ao lado da sala de estar, rodeada de folhas de papel dourado e três tesouras. Havia bocados de fita adesiva por toda a parte em cima dela, bem como no tapete. E o único rolo de papel dourado? Tinha-o gasto todo a tentar embrulhar qualquer coisa que parecia uma caixa de sapatos.

Paul precipitou-se e atravessou a sala, com a ira estampada no rosto, agarrou-a por um braço e sacudiu-a no ar, dando-lhe várias palmadas com força. Os gritos e soluços de Tina fizeram-no perceber o que estava fazer, e parou, soltando-a quando ela caiu no chão, uma menina aterrada e chorosa.

Eu fiquei em estado de choque. Era este o Paul que alegava amar Deus e as crianças?

Para Paul foi uma retrospectiva da sua própria infância, em que tinha sido tão maltratado às mãos do pai enfurecido e alcoolizado. Mais tarde, confessou que, durante o resto da noite, não conseguira pensar em mais nada senão em, “és tal qual o teu pai… és um cobarde que espanca criancinhas… tal qual o teu pai… não prestas para nada, para nada, para nada…”

Deitei Tina na cama, consolando-a o melhor que pude.

Na manhã seguinte, ao prepararmo-nos para ir para a quinta, Paul tropeçou e quase caiu em cima da caixa que Tina tinha embrulhado no papel dourado. Ainda irritado, deu-lhe um pontapé, mas nesse momento Tina correu para a caixa, apanhou-a e voltou a correr para Paul. “Toma, Papá, é para ti”, murmurou.

Paul agarrou-a e abanou-a devagar, mas era muito leve e nada chocalhava lá dentro. A fita adesiva a toda a volta da caixa tornava difícil desembrulhá-la e a sua frustração e impaciência extravasaram mais uma vez. Rasgou-a para a abrir, mas, quando espreitou lá para dentro, não havia nada. Com a sua fúria já descontrolada, disse asperamente: “Christina! Não sabes que deves pôr qualquer coisa numa caixa antes de a embrulhares como presente?”

As lágrimas corriam pelo pequeno rosto de Tina quando disse: “Mas, Papá, eu pus uma coisa lá dentro. Soprei beijos para dentro dela! Está cheia de amor só para ti!”

Uma caixa vazia, mas estranha e maravilhosamente cheia! Era o presente que Paul mais precisava. Ali mesmo, no meio do átrio, caiu de joelhos, abraçou Tina, suplicou o seu perdão e depois abraçou-me a mim e a Paula, pedindo-nos igualmente perdão. Os seus soluços eram profundos, provenientes do mais íntimo do seu ser.

Paul recebeu uma cura interior nesse momento – o inimigo, a sua fúria, morreu. Clamou por Deus, pedindo ajuda, e recebeu-a.

Mas eu também havia errado. Tinha ficado incomodada e resmungava com ele. “Eu ajudei a provocar tudo isto, Paul”, confessei, “mas nós amamo-nos e eu sei que Deus nos vai ajudar.”

Ainda guardamos essa caixa dourada. Uma lembrança de um dos melhores Natais que já tivemos. Foi uma época de dificuldades e provações, mas Deus tinha-nos ajudado a transpô-la.

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