Nas pedreiras de Abeokuta

Nas pedreiras de Abeokuta

O fenómeno da escravidão e do trabalho infantil persiste em África. No Benim, por exemplo, há tráfico de crianças com destino ao trabalho nas pedreiras de Abeokuta, na Nigéria. A reportagem, bem actual, documenta o drama destas crianças vendidas pelos pais e exploradas pelos traficantes.

 

«Venho para levar as crianças ao “akowé”», disse François à mulher logo após se ter apeado da moto. Na língua fon, falada no Benim, akowé significa “mestre”. A mulher chamou os miúdos pelo nome, Lewidjo e Pierre, e em minutos os dois estavam já em cima da mota. Deu um saco de plástico a cada um: uma T-shirt e umas calças lavadas e pouco mais. Essa era toda a bagagem para uma viagem de quatro ou cinco anos.

«Diz ao “akowé” que cuide bem dos catraios. Se os maltratar, denunciá-lo-ei à polícia, e diz-lhe que os quero em casa uma semana pelo fim de ano e que tragam dinheiro.» A mulher, Plantine, despediu-se dos seus filhos apenas com uma carícia na mão. Ficou a olhar como se ajeitavam na mota sem fazer gesto algum, alheada da mais pequena expressão de tristeza.

As estatísticas da ONU sobre a pobreza mundial dizem que a República do Benim ocupa o décimo quinto lugar da lista. A mais pobre é a Serra Leoa. Dos dez países mais subdesenvolvidos do planeta, cinco estão na África Subsariana, como é o caso do Benim; porém, não é a mesma coisa ter a sorte de nascer na sua emergente capital, Cotonou, ou na paupérrima Zakpoktá. Trata-se do município mais pobre do país, pelo que muitas das suas crianças sobem para as motas dos traficantes.

A miséria é uma condenação, mas se, além disso, se nasceu na rota de passagem para a Nigéria, que é o grande colosso africano, a condenação converte-se em sentença: muitas crianças de Zakpoktá são vendidas pelos próprios pais como escravos aos traficantes locais, que os levam para a Nigéria e os exploram nas pedreiras de Abeokuta.

Lugar no Inferno

Victorin Adeokunté, o “akowé”, é um dos traficantes mais conhecidos da zona. Anda mais perto dos 40 anos do que dos 30, veste-se à maneira fon e tem uma casa nos arredores de Zakpoktá. Comporta com tanta indiferença a designação de “negreiro” que ganhou a pulso um bom lugar no Inferno.

No sábado passado, 9 de Fevereiro, mandou um primo da sua confiança, François, buscar os dois meninos à aldeia de Allahé. Tinha-os comprado uns dias antes aos pais por 25 euros. Ao cair da tarde, o “akowé”, os dois irmãos e eu partimos no seu carro rumo à Nigéria. Lewidjo Adjakpa tem uns 13 anos e não abriu a boca durante a viagem. O seu irmão Pierre não passa dos 10 e adormeceu assim que abalámos.

Victorin não colocou nenhum entrave quando lhe propus que me mostrasse como funciona o tráfico de crianças entre o Benim e a Nigéria. Apenas uma condição. «Obatedo é a última cidade antes da fronteira. Vais sair lá e tratar de arranjar uma mota para passar para a Nigéria. Assim que se passa a fronteira, há uma bomba de gasolina Texaco à direita. Espero aí por ti.»

Victorin não queria arriscar-se a transpor a fronteira com as duas crianças traficadas e um homem branco no seu carro. Uma coisa era ter a polícia comprada e outra chamar a atenção gratuitamente. «Esta noite estão de vigia os meus, por isso viajo aos fins-de-semana. Largarei cinco mil cefas, uns sete euros, em cada controlo policial e não haverá problemas.»

Ao fim de uma hora e meia de viagem, estávamos em Obatedo. Num cruzamento não me foi difícil contratar uma moto-táxi, “zemiján”, como lhe chamam no Benim, e segui Victorin a uma distância prudente até ao posto de controlo beninense. Vi como o seu carro passava sem problemas a barreira, enquanto eu entrava nos escritórios para carimbar o meu passaporte.

Passada meia hora, estava novamente sentado na furgoneta do traficante, com os garotos na parte de trás a comer umas bananas que o Victorin lhes tinha comprado. A estrada até Abeokuta, uns 200 quilómetros, estava infestada de controlos militares. O soldado de turno limitava-se a perpassar as janelas com a sua lanterna e a comprovar com gesto mecânico quantas pessoas iam dentro do carro. Nada de parar a viatura para pedir os papéis ou fazer perguntas. Pelo meio-dia, Victorin deixava-me à porta do Presidential Hotel de Abeokuta. «Amanhã poderás passear pela cidade. Na segunda-feira, às oito, venho buscar-te para ir às pedreiras.»

Pá ao ombro

Abeokuta é a capital histórica dos Yoruba, a etnia principal da Nigéria. Com meio milhão de habitantes, é uma das cidades mais importantes do país. Daqui são o Prémio Nobel da Literatura Wole Soyinka e o ex-presidente do país, Obasanjo. O cimento, os tijolos e a brita são as suas principais indústrias. Vá-se onde se for, há sempre um rapaz com uma pá recém-comprada ao ombro. Vendem-nas em todo o lado: nos mercados, nos semáforos e à beira das estradas. As pedreiras estão perdidas no meio da selva. O território é propriedade dos Yoruba e os beninenses arrendam-no para extrair areia, brita e granito. Aqui só podem entrar os beninenses; é o seu gueto e para o proteger estabeleceram uma rede de controlos que impede o acesso a estranhos. O tráfico e a exploração de crianças é dos Fon, é um assunto entre beninenses; aqui, os Yoruba, os nigerianos, não têm nada que fazer; quando muito, olham para o outro lado.

Na segunda-feira seguinte, 11 de Fevereiro, às oito da manhã, a furgoneta do Victorin estava à porta do meu hotel. Vinha só ele, sem os miúdos. «Levei-os ontem para as pedreiras. Têm de se habituar, quanto antes, à sua nova vida. Há muitas valas para cavar na selva», disse-me com um leve sorriso.

Atravessámos a cidade, semi-deserta a essa hora da manhã, e chegámos ao subúrbio de Sabo. Acabava a estrada asfaltada e continuámos por um caminho de terra em muito mau estado. Percorremos cerca de 15 quilómetros sem encontrar uma única povoação nem ver ninguém, apenas um intenso tráfego de camiões, uns que desciam com o reboque cheio e outros que subiam vazios.

De repente, sem dizer nada, Victorin parou o carro na berma do caminho e disse-me que o seguisse. Eu não via mais do que espessa vegetação, até que ao longe destrincei umas pequenas montanhas de areia. Victorin acenou a um grupo de gente ao longe. «Ali estão as crianças», disse-me. Ao aproximar-me, vi um panorama desolador. À direita e à esquerda havia dezenas de pequenas valas escavadas no solo. Teriam entre um e dois metros de profundidade. Nalgumas, não chegava a aparecer a cabeça de um miúdo alto. Traçavam uma linha curva de uns três metros. A paisagem era lunar: uma multidão de montículos de areia e brita e vários camiões carregando o material.

Jornada dura

Em cada vala estava a trabalhar um grupo de três miúdos. Aproximei-me de uma e pus-me a falar com eles. O mais velho, que não passava dos 13 anos, cavava a encosta com uma picareta. Chamava-se Etienne Montchomi. Vinha de Yohoné, uma aldeia de Zakpoktá. Contava já dois anos nas pedreiras. O seu dia começava com o nascer do Sol, às seis da manhã, e terminava com o pôr-do-sol, doze horas depois. Parava da uma às três para comer e para fugir ao calor sufocante do meio-dia. Reconhecia que as condições de trabalho eram duras, mas não se queixava. «Aqui pelo menos como duas vezes ao dia. Em Zakpoktá passava vários dias sem meter nada na boca», dizia-me resignado.

Ao seu lado, outro menino, Eugène Animanou, atirava pás de terra a um terceiro que estava empoleirado na ladeira. Tinha chegado às pedreiras em 2006, vindo da povoação de Zahla, também em Zakpoktá. Contou-me que foi trazido por um vizinho, de quem não quis dizer o nome, de carro, com outros meninos. «Estão a trabalhar noutras pedreiras longe daqui. Não os vejo há meses. Tenho saudades deles porque eram meus amigos e protegíamo-nos uns aos outros, mas o Etienne trata-me bem», disse-me, enquanto agarrava na pá e me virava as costas.

Cada grupo é formado por seis crianças. Três trabalham na vala, enquanto as outras três se encarregam de carregar o camião e de procurar comida na selva. Em cinco minutos fazem uma fogueira e deitam sobre a grelha o que encontram. Nesse dia tinham como menu quatro ratazanas preparadas para assar. O patrão visita-os cada segunda-feira e traz-lhes farinha de mandioca, um tubérculo africano, pimentos e legumes. Com isso e com o que encontram na selva, têm comida para toda a semana. Os mais sortudos podem ir às aldeias dormir mas muitos têm de se conformar com passar a noite ao pé da vala, sujeitos à intempérie, sobre uns plásticos ou umas esteiras feitas com ramas. Trabalham de segunda a sábado e descansam ao domingo. Nesse dia vão às povoações, se tiverem a sorte de encontrar um carro que os leve; caso contrário, ficam a descansar nas valas.

Os mais novos dos grupos fazem o trabalho menos duro. Bertin Dosson tem 8 anos e encarrega-se de remover a terra que Eugène lhe lança com a pá a partir da vala. Zarandea criva-a com as mãos e deixa que a areia fina lhe caia aos pés, deitando a brita que fica na peneira para o monte que está a formar. Bertin contou-me que o seu pai tinha morrido havia dois meses e que um seu tio o trouxera para as pedreiras. «Aqui tratam-me bem, mas o trabalho é muito duro, por isso quero voltar para casa», disse-me olhando-me nos olhos, como que pedindo-me socorro, enquanto a areia fina cobria os seus pés descalços e levantava uma nuvem de pó que se dissolvia à altura da sua frágil cintura.

Castigos corporais

É um ritual que os Fon trouxeram das suas aldeias, nas margens do rio Quémé. Quando o patrão se irrita, não tem de dizer nada: chega à vala e bate no chão ou numa árvore várias vezes com o seu bastão, e entrega-o de seguida ao encarregado, que normalmente é o mais velho do grupo. Toda a gente nas pedreiras fica a saber que foi dado um castigo. O traficante afasta-se uns metros da vala e o encarregado elege um dos meninos do grupo. Pode ser o mais preguiçoso dessa semana, o mais rebelde ou, simplesmente, o novato. Coloca-o de cabeça para baixo num monte de areia e dá-lhe uma lição até que o patrão mande parar.

À exploração das crianças há que acrescentar uma vasta lista de problemas sanitários. «Barrigas inchadas pela desnutrição, parasitas intestinais de todos os tipos, perda de visão, problemas pulmonares por causa do pó e lesões oculares provocadas por areia que salta», relata de memória Mathieu Shanu, o médico das pedreiras. Vive com a sua família numas cabanas a alguns quilómetros das valas, e quando uma criança adoece levam-lha para que a cure. «O pior de tudo é a falta de água, mas essa é uma questão de difícil solução», conta-me, resignado, ante a situação dos petizes.

À hora do almoço e do descanso dos grupos, perguntei a Victorin pelos irmãos Lewidjo e Pierre, os quais não tinha reconhecido entre os cerca de trinta rapazes que havia contado nessa zona de pedreiras. «Os Adjakpa não estão aqui. Estas pedreiras não são minhas. Eu tenho cinco grupos a trabalhar numas valas, mas não estão nesta zona. Tu pediste-me que te trouxesse às pedreiras de Abeokuta, não às minhas pedreiras», disse-me com uma gargalhada que ecoou em metade da selva. Agora entendia porque é que as crianças das aldeias e das pedreiras lhe chamavam “akowé”. Porque, para eles, Victorin, o mestre, significa a possibilidade de aprender um ofício e ter um trabalho, ainda que seja um trabalho de pá e picareta, pó nos olhos e quatro ratazanas na brasa no meio da selva.

Xaquín López

Além-Mar, Junho 2009

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