O Gatinho Ximi – Albertina Pinela

O Gatinho Ximi

  

Certo dia o gatinho Ximi, aborrecido da casa e do quintal, resolveu conhecer terras distantes.

Então, depois de ter escrito um bilhete de despedida, deu brilho ao pêlo, bebeu água, blá, blá para aqui, blá, blá para acolá, e saiu sorrateiramente.

À frente da casa apanhou o transporte dos gatos. Nesse transporte viajavam outros gatos, mas não deu conversa, ocupado a saborear as ideias e o conforto do assento. Não era por natureza egoísta, porém acabava de tomar uma decisão importante e só ela o ocupava.

A viagem foi longa até à grande floresta escolhida. Lá tinha a certeza de encontrar bichos de muitas famílias e fazer amigos entre os linces de quem esperava saudações amigáveis. O seu maior desejo era conhecer o território dos linces e viver como um deles.

Havia árvores gigantes e os pequenos arbustos dificultavam-lhe a passagem. Habituado a todos os mimos, sentia que não era fácil penetrar na natureza profunda e fazer, de repente, amigos.

A certa altura, perto de um riacho, sentou-se para descansar. Alguém o picou e fez reagir:

— O que vem a ser isso? — disse.

Então uma pequena lagartixa, com olhos muito abertos, cumprimentou-o.

— Sou eu, não quis incomodar-te, foi sem querer. Vais ter de te habituar a estas pequenas surpresas.

— Não te vi. Onde estavas quando cheguei?

— Estava a tomar o meu banho de sol entretida com o canto variável dos pássaros.

— Já reparei. De onde eu venho ouvia discos sucessivos, diferentes. Era só escolher e ligar a música.

— Aqui não precisamos de fazer isso. Numa floresta murmura a folhagem, o vento, o sol, a chuva, os troncos, tudo é música distinta e harmoniosa — respondeu a lagartixa.

— Tenho vindo a observar isso mesmo. Mas onde estão as famílias dos animais? Devo andar muito distraído para quase só ter visto a passarada.

— Não estás, não. É normal numa floresta densa ser assim. Muitos estão camuflados, ficam quietinhos, da cor natural do meio, e só lentamente se reconhecem.

A lagartixa fez um pequeno gesto e logo ali apareceu um camaleão, um coelhinho anão, uma raposinha infantil, um gafanhoto, um grilo, uma joaninha, uma salamandra.

— Realmente! Mas na minha aventura existiam apenas animais nobres, ágeis, possantes, junto dos quais a minha vida seria de perfeita liberdade e sonho.

— Disseste animais nobres? Na minha opinião todos os animais são nobres.

— Queria dizer grandes. Não leves a mal.

— Estás a dar os primeiros passos neste lugar imenso. Se caminhares mais um pouco ouvirás urros e guinchos, às vezes também há tempestades.

— Ai sim? — miou o gato. — Estou no começo da aventura e a ideia treme. Alguma coisa parece querer voltar ao princípio.

— Mais à frente moram os linces. Verás como são parecidos contigo — interrompeu a lagartixa.

— Sabes, há qualquer coisa que vou ter de corrigir.

E o gatinho Ximi contou que, apesar de muito estimado, se sentia prisioneiro. A dúvida de entrar assim sem mais nem menos numa família selvagem, livre, livre, livre, não correspondia muito ao que tinha imaginado.

— Dá-me ideia que dessa maneira não vai ser fácil. Deves esforçar-te por conseguir o que desejas, apesar de, a meu ver, teres começado mal. Devias ter feito projectos sérios, pedir conselho e só depois tomarias a decisão da partida.

— Agora o feito, feito. Vou tentar remediar, ser determinado, e decidir.

— Podes contar comigo — disse a lagartixa.

E lá foram para a zona dos linces, que ficaram todos alvoroçados. Um deles aproximou-se e disse:

— Tu não és um gato montês. Se fosses já estarias num lugar mais alto, fugidio, desconfiado. Pareces manso e dócil. De onde vens?

— Venho da cidade, de uma vida luxuosa onde me serviam comida comprada especialmente para mim.

— E deixaste tudo isso?

— Deixei. O meu sonho de todas as noites era a liberdade.

Com ele trepava de árvore em árvore, corria sem ter medo de chocarem muros.

— Pois é. Por aqui podes não encontrar muros, podes até encontrar coisas maravilhosas, deslumbramentos. Por exemplo, eu fico quietinho a ouvir nascer as flores — disse o lince.

— Que bonito! Deves ser muito sensível à beleza.

— Sim, é verdade. A alma leva-me num sonho lindo. E agora, regressando à realidade, deste conta que aqui funciona a lei da selva?

— Quase me assustas!

— Aqui, animais comem outros animais e tu és presa fácil, indefesa. Vai tomando os teus cuidados porque as coisas muitas vezes não são o que parecem.

— Quase me assustas — repetiu o gato ainda mais amedrontado e olhando bem nos olhos do lince.

— Vem, descansa nesse tapete fofo enquanto conversamos.

— Eu sou o gato Ximi.

— Eu sou o lince Amarílis. O meu nome veio de uma flor. Por isso acho que sou protegido por elas. Há quem diga ser protegido por estrelas ou por anjos do céu.

— A minha dona, a Luciana, dizia que era um anjo ou a Lua e que na Lua via Deus.

— Por falares nisso. Queres um conselho de amigo? Regressa. A Luciana deve ser amorosa e está à tua espera. Trepa à árvore alta do quintal, ouve os pardais, sempre mais que muitos na cidade, aos bandos, as flores do jardim e de vez em quando faz uma viagem nem que seja imaginária.

— Tens razão. Porém, tenho encontrado bons amigos e esta será, tenho a certeza, uma aventura inesquecível.

— Conta comigo — disse o lince.

— E comigo, e comigo, e comigo — responderam em coro outros animais.

O lince Amarílis visitou com o gatinho Ximi os lugares mágicos da floresta.

Tudo correu bem porque o lince Amarílis e os animais seus amigos conheciam tudo, palmo a palmo, eram cautelosos e conheciam os melhores esconderijos, quer nas árvores, onde Ximi entretanto tinha aprendido a trepar, quer nas fendas da terra. À hora da partida a lagartixa, a raposinha inocente, o gafanhoto, os papagaios, um javali com os filhos todos, a coruja quase de olhos fechados, apareceram emocionados de alegria e amizade. No dorso do lince, joaninhas partiam e chegavam.

— Dá beijinhos à Luciana. Pergunta-lhe se quer mais animais de estimação.

— Ximi, Ximi, ó meu gatinho Ximi! Vens para ficar? — perguntava Luciana correndo em direcção à paragem.

— Obrigada, Luciana. És meiga, amiga e generosa!

— Sê bem-vindo. Desejo que sejas feliz e principalmente que te sintas livre onde quer que estejas.

 

Albertina Pinela
Às vezes a ternura vem assim…
Lisboa, Petrus Editores, 2006

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