Emanuel – Albertina Pinela

Emanuel

 

Emanuel era um rapaz belo e aventureiro. Às vezes escutava um turbilhão de asas e, sempre acima delas, conduzido pelo bater do seu coração de rapaz, entre o manto da noite, saía à descoberta de algo que o ajudasse a sonhar. Porém, o reflexo do seu pensamento esbarrava nas pedras e nos montes. Poucas eram as saídas.

Um dia, no lavatório, à frente do espelho, viu a importância dos seus dezassete anos e resolveu fazer o que nunca antes lhe tinha passado pela cabeça.

Há muitos anos, nas regiões frias, os animais dormiam no rés-do-chão, exactamente por baixo do primeiro andar onde os donos moravam. Aqueciam as casas no rigor do Inverno… Isto tem muita importância, porque quando Emanuel olhou para o espelho e deu conta do seu belo aspecto, muitas coisas lhe vieram à ideia: podia continuar a ser o filho mais novo, o irmão mimado, mas as fragas e as montanhas prendiam-lhe os passos e, como já disse, escondiam-lhe as ideias. Também é preciso dizer que não havia estradas, nem automóveis, nem uma enormidade de outras coisas.

De forma que arranjou uns paninhos, enrolou-os nas patas do cavalo, pé ante pé a abrir a porta do animal exactamente por baixo do quarto onde os pais dormiam.

O cavalo não fez barulho na calçada e galopou pela noite, mais veloz que o vento, ao encontro da festa ou do sonho.

Tudo correu como planeado até ao regresso. Ao tirar-lhe o freio, o cavalo resfolega, relincha, os pais acordam e aí é que são elas.

— Estás a chegar de onde? — disse o pai abrindo a janela. — A quem pediste autorização e como te atreves?

Desculpou-se.

— Fui à festa, a Vinhas. Gosto de dançar e não podia faltar ao baile.

— Pode ser que dances, agora! Desde quando sais e levas o cavalo sem qualquer aviso?

— Foi a primeira vez — respondeu.

— Pois que seja a primeira e também a última.

Mas não foi.

A mãe dele, a senhora Maria das Neves, pôs uma campainha atrás da porta para ouvir o sinal. Então, o espertinho, foi buscar os panos escondidos a um canto, encheu, encheu, o espaço vazio da campainha até ficar silenciosa.

Depois seguiram-se outras festas, outras aventuras, naquelas noites  escuras ou  iluminadas pela  luz  da lua. Pelos caminhos, ele,  o cavalo, os lobos, os mochos e indubitavelmente uma feiticeira, esvoaçando, a conduzir-lhe sem orientação nenhuma o cavalo alazão.

É verdade. Há fadas de muitas conversas que nem sempre mostram as verdadeiras feições.

O lugar de uma, antes de lhe inventar o nome, desaparecera leve, muito leve, e leve, muito leve, outro sorriso imenso diante do cavalo alazão, a orientar de uma maneira duvidosa a cavalgada.

As árvores achavam alguma coisa errada nas frequentes saídas nocturnas de Emanuel e queriam avisá-lo. Nunca conseguiam.

Os pais deram com a campainha surda, silenciosa, compacta. Nessa noite não dormiram. O filho regressou ao início da manhã.

— Lá sou um homem, não vêem? Sou responsável. Para quê aborrecimentos? — disse ao vê-los.

— Responsável! Então sair de casa sem avisar ninguém, sozinho por esses caminhos, com um cavalo que não te pertence, é bem feito?

— Não, foi mau, veio-me a tentação. Só quero divertir-me.

— E fazer mal a ti próprio. Nós estamos preocupados contigo, percebes?

— Percebo muito bem, mas estou farto desta rotina insuportável — E calou-se a tempo. O rosto do pai fazia dó.

Ele que dera a melhor educação aos filhos merecia respeito e dignidade. Emanuel nunca mais pôs o selim no cavalo das suas confidências. Felizmente, deixou de aborrecer os pais até que o fenómeno da emigração para o Brasil foi preparando uma nova aventura.

 

— Quero ir para o Brasil. Aqui vivo como num quarto fechado. Dão-me licença e ajudam com o dinheiro?

— Para o Brasil vão os que não têm nada de seu, pelo menos os daqui, o que não é o teu caso. Se quiseres, prometo dar-te o dinheiro correspondente ao teu esforço.

— Obrigado, meu Pai. Deixe-me partir.

Como as patacas caem apenas da árvore a quem trabalha, por lá andou sem nada conseguir.

Veio mais tarde receber a herança dos pais e regressou, disposto a investir a pequena fortuna herdada. Era desta vez que resolvia todos os problemas.

Ao que dizem também a pequena fortuna se perdeu.

Quando velhinho, o Emanuel disse que Deus sempre lhe dera tudo para ser feliz.

Vezes sem conta a felicidade estivera nas suas mãos.

— Olhe — disse ele abrindo-as deixava-a voar. — Esteja atento. Agarre-a bem e distinga-a. Ela traz sempre a verdade quando nos bate à porta ou toca as nossas mãos.

  

Albertina Pinela
Às vezes a ternura vem assim…
Lisboa, Petrus Editores, 2006

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