A guerra entre as galinholas e as baleias – conto das Ilhas Marshall

A guerra entre as galinholas e as baleias

( conto das Ilhas Marshall)

Todas as manhãs, a pequena galinhola ia à praia tomar o pequeno-almoço. Corria para a água com as suas perninhas altas e slup… slup… engolia um pequeno vairão. Depois corria de novo para a praia e esperava. Voltava de novo à água e slup… slup… engolia um outro pitéu.

A baleia, que vivia nas águas profundas da baía, viu a galinhola a correr para dentro e para fora de água. Ergueu bem a cabeça enorme e chamou-a:

— Ei, passarinho! Não te quero na minha água! O mar pertence às baleias!

A galinhola decidiu ignorá-la.

— O mar também pertence às galinholas. E há muito mais galinholas do que baleias. Vê lá se me deixas em paz!

A baleia encolerizou-se e começou a esguichar. A galinhola tinha-a enfurecido.

— Mais galinholas? Há muito mais baleias no oceano do que galinholas em terra!

— Não há, não! — replicou a pequena galinhola. Há mais galinholas!

A baleia estava furiosa.

— Vou chamar as minhas irmãs. Vais ver!

A baleia veio à superfície e esguichou buuturu… buuturu. Depois voltou a mergulhar bem fundo na baía. Virou-se para leste e chamou:

— Baleias do leste. Baleias do leste. Venham…venham para esta ilha!

Veio de novo à superfície.

Esguichou buuturu… buuturu… e mergulhou em direcção ao oeste.

— Baleias do oeste. Baleias do oeste. Venham… venham para esta ilha!

De novo veio à superfície.

Esguichou buuturu… buuturu… e mergulhou em direcção ao norte.

— Baleias do norte. Baleias do norte. Venham…venham para esta ilha!

Voltou de novo a emergir.

Esguichou buuturu… buuturu… e mergulhou em direcção ao sul.

— Baleias do sul. Baleias do sul. Venham…venham para esta ilha!

A leste, a oeste, a norte e a sul, as suas irmãs baleias ouviram-na. Começaram a nadar em direcção à ilha. Quando já tinham chegado todas, a baía ficou tão cheia de baleias que podíamos caminhar nos seus dorsos! Estavam todas apinhadas naquela baía.

A galinhola ficou alarmada.

— Tens mesmo muitas irmãs! Mas espera, que eu vou chamar as minhas irmãs galinholas!

A pequena galinhola começou a saltar para cima e para baixo e a emitir o seu grito de galinhola:

Kirriri… kirriri… kirriri… kirriri… Galinholas! Galinholas! Leste! Leste! Leste! Leste! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

— Galinholas! Galinholas! Oeste! Oeste! Oeste! Oeste! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

— Galinholas! Galinholas! Norte! Norte! Norte! Norte! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

— Galinholas! Galinholas! Sul! Sul! Sul! Sul! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

E as galinholas vieram a voar! Do leste, do oeste, do norte, do sul. Quando pousaram, cobriram a praia inteira! Cobriram as árvores! Havia tantos pássaros! Havia mais pássaros ou mais baleias? Havia mais baleias ou mais pássaros? Era impossível dizer.

As baleias falavam entre elas.

— Temos de chamar os nossos primos. Nessa altura, haverá mais baleias do que pássaros.

Então, as baleias vieram todas à tona da água e chamaram:

Buuturu… buuturu…

Mergulharam fundo, bem fundo.

Chamaram a leste.

— Primos do leste! Primos do leste! Venham… venham para esta ilha!

Voltaram à superfície e esguicharam.

Buuturu… buuturu…

Mergulharam.

— Primos do oeste! Primos do oeste! Venham… venham para esta ilha!

Voltaram à superfície e esguicharam.

Buuturu… buuturu…

Mergulharam.

— Primos do norte! Primos do norte! Venham… venham para esta ilha!

Voltaram à superfície e esguicharam. Mergulharam uma vez mais.

— Primos do sul! Primos do sul! Venham… venham para esta ilha!

Do leste e do oeste, do norte e do sul, os primos das baleias começaram a nadar em direcção à ilha. Os golfinhos ouviram o chamamento e vieram. As orcas ouviram o chamamento e vieram. Os lobos-marinhos ouviram o chamamento e vieram também. Até os tubarões vieram.

Quando já tinham chegado todas os primos da baleia, os peixes eram tantos que rodeavam completamente a ilha. Até onde a vista alcançava, havia criaturas marinhas a esguichar e a mergulhar.

As galinholas ficaram assustadas.

— Há tantas criaturas do mar. Depressa! Temos de chamar todos os nossos primos!

As galinholas começaram aos pulos e a emitir o seu chamamento:

Kirriri… kirriri… kirriri… kirriri…

— Primos das galinholas! Leste! Leste! Leste! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

— Primos das galinholas! Oeste! Oeste! Oeste! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

— Primos das galinholas! Norte! Norte! Norte! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

— Primos das galinholas! Sul! Sul! Sul! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

Do leste e do oeste, do norte e do sul, os primos das galinholas começaram a chegar. As gaivotas ouviram o chamamento e vieram. As gaivinas ouviram o chamamento e vieram. Os corvos-marinhos ouviram o chamamento e vieram também. Até as garças-reais vieram.

Depois de todas estas aves marinhas terem chegado, cobriram as praias e estenderam-se até às montanhas. Não havia um pedaço de terra naquela ilha que não estivesse coberto por pássaros!

Havia mais pássaros ou mais animais marinhos? Mais primos das baleias ou mais primos das galinholas? Ninguém saberia dizer.

Então as baleias tiveram uma ideia.

— Se as baleias comessem a terra toda… os pássaros afogar-se-iam. Haveria então mais baleias do que galinholas. Vamos a isso!

As baleias começaram a mastigar a terra. Scrunch… scrunch… scrunch… A praia desaparecia gradualmente por entre as suas mandíbulas enormes. Então a galinhola teve uma ideia.

— Se os pássaros bebessem toda a água do mar… as baleias morreriam! Então haveria mais galinholas do que baleias. Vamos a isso!

Os pássaros voaram em direcção ao oceano. Cada um deles enfiou o bico na água e começou a beber. Beberam… beberam… até ficarem com a boca cheia de água… Beberam… beberam… até ficarem com as barrigas cheias de água. Como era mais fácil beber do que mastigar, os pássaros acabaram a sua tarefa primeiro!

Olharam em volta. As baleias estavam a morrer por falta de água. Os peixes também estavam a morrer por falta de água. Os caranguejos minúsculos… as estrelas-do-mar… todas as criaturas marinhas estavam a morrer sob o sol escaldante.

De repente, os pássaros pensaram numa coisa.

— Os caranguejos minúsculos… todas estas criaturas do mar… tudo isto é o nosso alimento. É o que nós comemos. Se elas morrerem, nós morremos também. Isto é uma má ideia! Rápido! Cuspam a água! Cuspam fora o oceano!

Ptooooie… ptoooie… ptoooie… Os pássaros cuspiram fora o oceano todo.

As baleias começaram de novo a mover-se. Os peixes recomeçaram a nadar. Os pequenos caranguejos e as estrelas-do-mar esticaram as suas perninhas e começaram a viver de novo.

— Isto foi uma péssima ideia! — disseram as baleias. — O oceano é a nossa casa. A praia faz parte do oceano. Estamos todos a destruir o nosso próprio lar. Depressa! Cuspam fora a areia toda.

Glurk… glurk… glurk… As baleias cuspiram fora a areia toda.

— Esta guerra foi uma péssima ideia — disse a baleia. — Há mar que chegue para todos partilharmos.

— Tens razão — concordou a galinhola. — Foi uma má ideia. Quase destruímos o nosso lar!

Então, as baleias e os seus primos nadaram em direcção ao mar alto. Em direcção ao leste, ao oeste, ao norte e ao sul. E as galinholas e os seus primos também voaram para longe. Em direcção ao leste, ao oeste, ao norte e ao sul. E até hoje nunca ninguém descobriu se há mais baleias ou mais galinholas. Se há mais galinholas ou mais baleias. Não que isso interesse, realmente. No fundo, é uma razão demasiado insignificante para começar uma guerra…

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas , August House Publishers, Inc., 2005

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