O rapaz que ouvia as estrelas (sugestão de leitura)

Tim Bowler
O rapaz que ouvia as estrelas
Lisboa, Editorial Presença, 2007

Luke é um rapaz de catorze anos, que tem o dom extraordinário de ouvir a música do universo. Cada ser, cada pessoa, cada árvore, cada pedra, entoam a sua melodia própria e única, e Luke sabe ouvi-las. O seu talento para a música, para o piano, toca a genialidade, como acontecia com o pai, mas o vazio e a revolta que o súbito desaparecimento deste lhe deixou são difíceis de ultrapassar e quase o levam a percorrer os caminhos da marginalidade. Para conseguir sobreviver à imensa pressão que o líder do bando delinquente a que se juntou exerce sobre ele, Luke vê-se forçado a assaltar a mansão de uma viúva rica, mas o que vem a descobrir no interior daquela casa misteriosa é algo de profundamente aterrador e belo, algo que mudará para sempre a sua vida.

Excerto

A mãe entrou apressadamente no hall de entrada, logo assim que ele chegou.
— Luke, chegaste tão tarde. Onde é que é…? — mas deteve-se subitamente, percorrendo-o com o olhar. — Andaste à luta!
— Não quero falar sobre isso.
— Luke…
— Não quero falar sobre isso.
Ela deu um passo em frente; ele recuou. Ela parou, ainda a olhá-lo de alto a baixo.
— Luke, o que é que aconteceu?
— Não quero discutir outra vez.
— Nem eu.
— Óptimo.
— Mas o que é que aconteceu?
Ele olhou em direcção às escadas. Tudo o que queria era a sua cama, dormir, esquecer. Não aquilo, naquele momento. Talvez mais tarde, mas não naquele momento.
— Quem é que te bateu? — perguntou a mãe.
Mas ele continuou a não responder. Ela aproximou-se, e pegou-lhe na mão.
— Bom, deixa-me ao menos limpar-te um pouco essa cara.
Ele deixou-a guiá-lo até à cozinha, e sentá-lo à mesa. A mãe agarrou em dois sacos de gelo, envolveu-os em panos da loiça, e estendeu-lhos.
— Põe isto de cada lado da cara. Mesmo debaixo dos olhos. Já está a começar a inchar.
Ele comprimiu os sacos contra a pele, ajeitando-os nos sítios doridos. Sabia bem, depois da dor quente que o atormentara. A mãe olhou para ele, franzindo o sobrolho, percorrendo-lhe o resto da cara cuidadosamente com os dedos. Ele moveu-se impacientemente na cadeira.
— Não há nada partido — disse ele. — Não precisas de fazer esse estardalhaço todo comigo.
— Não estou a fazer estardalhaço. Estou apenas a certificar-me de que estás bem — corrigiu ela, continuando a verificar. — Há sangue em volta do nariz e em volta da boca. Isso lava-se. E tens umas nódoas negras feias à volta do olho esquerdo. Tens a cabeça a latejar?
— Sim.
— Bom, vou dar-te um analgésico.
— Eu estou bem. Não é preciso.
— Estou só a tentar ajudar.
— Eu sei, mas não preciso de analgésicos.
— Queres que te leve ao Banco?
— Não.
— Eu não me importo de te levar.
— Não quero ir. Não preciso. Já te disse. Estou bem.
— Muito bem. Se insistes — rematou ela. Abriu o armário dos medicamentos, retirou um pedaço de algodão, e depois encheu uma tigela com água quente, mergulhou o algodão nela e começou a limpar o sangue à volta do nariz.
— Então Luke, quem é que te fez isto?
— Já te disse… não quero falar disso.
— E por que não?
— Porque ficas histérica, e acabamos por ter outra discussão.
— Não, se dissermos a nós mesmos que não vamos discutir — disse ela, e arrancou outro pedaço de algodão, mergulhou-o na água e continuou a limpar o sangue. — De qualquer maneira, não devíamos discutir, lá porque passámos por dois anos maus. Devíamos permanecer juntos. Não é o que os ingleses costumam fazer?
— Como é que hás-de saber? És norueguesa.
— Luke! — exclamou ela, dando um passo para trás e fitando-o. — Estou a esforçar-me… a tentar fazer com que as coisas funcionem. Não podes dar-me uma ajuda?
Ele olhou para baixo, incapaz de responder. A mãe continuou com o algodão, fazendo «tss tss» enquanto lhe limpava a cara. — Isto está horroroso, Luke. Deram-te uma grande carga de pancada.
— Parece pior do que é.
— Já olhaste para ti nos últimos tempos?
Ele deu uma olhadela ao espelho e franziu o sobrolho diante do seu reflexo. O Skin tinha feito mesmo um bom trabalho, especialmente na face esquerda. As marcas iam provavelmente estar negras na manhã seguinte. A mãe continuou a limpar com o algodão.
— Então, com quem é que estiveste no clube recreativo?
Ele não respondeu. A sua mente tinha voltado novamente à menina: a sua cara, a sua voz, a sua dor… e aos assuntos por terminar na Granja. E ao Skin.
— Luke?
A voz da mãe fez com que a sua mente regressasse ao presente.
— Com quem é que estavas no clube? — perguntou. Ele conseguia ver o sentimento de suspeita a crescer-lhe nos olhos, enquanto ela lhe perscrutava o rosto. — Luke, esta noite tu estiveste no clube, não estiveste?
— Sim — respondeu ele, e depois, apercebendo-se como seria fácil ela ir verificar, disse entre dentes:
— Não.
— Não estiveste lá?
— Não.
— Então onde é que foste?
— A nenhum sítio em especial.
— À floresta?
— Não.
— Tens a certeza? Não foste trepar às árvores outra vez?
— Não.
— Porque prometeste-me que não irias mais. Especialmente àquele carvalho. É demasiado perigoso.
— Eu não fui à floresta.
— Então onde é que foste?
— Acabei de te dizer… a nenhum sítio em especial.
— Deves ter ido a algum lado.
Ele cruzou os braços e não disse nada, A mãe franziu-lhe o sobrolho.
— Não sei por que é que não me dizes onde foste. Ou quem te bateu — disse ela, afastando-se novamente por uns instantes, e olhando para ele. — Diz-me só que não estiveste outra vez com o Jason Skinner — pediu ela, perscrutando-lhe o rosto durante uns momentos, e depois deu um suspiro. — Tu estiveste com o Jason Skinner.
— Talvez.
— Vou tomar isso como um «sim». E consigo adivinhar quem mais estava lá. O Darren Fisher?
— Talvez.
— O Bobby Speedwell?
— Talvez.
— Três casos perdidos — disse a mãe, fazendo cara de zangada. — Como tu bem sabes. E qual deles é que te bateu?
— Isso não é problema nenhum.
— Qual deles foi?
— Pelo amor dos céus, mãe! — exclamou ele, fitando-a. — Foi o Skin, está bem?
— Tens de lhe chamar assim?
— Mas por que raio é que é importante o que as pessoas lhe chamam? — Estava agora a berrar, sem se conseguir conter. — Skin, Daz, Speed! São só alcunhas! Vocês não têm alcunhas na Noruega? — Ficou logo com remorsos por aquela explosão, e tentou suavizar a voz. — Mãe, deixa-me só em paz, pode ser? Tive uma discussão com o Skin… está bem? Fui um pouco maltratado, mas agora está tudo resolvido. E não quero que andes a fazer-lhe perguntas ou à família dele, ou algo do género. Especialmente ao pai dele, está bem?
Ela não respondeu nada, e virou a cara. Ele lembrou-se dos dias em que os dois eram amigos, quando ele tinha tanto orgulho da sua natureza calorosa, da sua mente brilhante, da sua beleza nórdica, e do facto de tantos homens a acharem atraente. Mas isso tinha sido nos tempos em que tudo era seguro, nos tempos antes do pai morrer e da luz da sua existência se ter apagado, antes de Roger Gilmore ter vindo para a povoação e para a vida da mãe, antes da raiva e da revolta e do ódio se terem apossado dele como um veneno. Os dias antes dos velhos amigos evitarem a criatura sombria em que se tinha transformado, e ele ter procurando refúgio num grupo que agora tinha demasiado medo de abandonar.
— Luke, o que é que te está a acontecer? — perguntou a mãe. Ele não respondeu.
— Luke?
— O que é?
— O que é que te está a acontecer?
— Não sei o que queres dizer.
— Sais todas as noites. Chegas a casa sabe-se lá quando. Não me queres dizer o que estiveste a fazer, ou com quem é que estiveste. Se te pergunto, sobes às paredes ou ficas simplesmente sentado, sem dizer nada. Eu não me importava tanto se fosse só comigo. Quero dizer, não gostaria, mas conseguiria lidar melhor com isso. Mas tu és malcriado com as pessoas na aldeia, és malcriado com as pessoas na escola, não fazes os trabalhos de casa, não te esforças nas aulas…
— Esforço-me em Música.
— Isso não conta.
— E por que não?
— Tu sabes por que não.
— Não, não sei — mentiu ele.
— Não conta porque não precisas de te esforçar. Já és brilhante em Música. Está-te no sangue. Podias fazer tudo o que quisesses, na música. É o que Mr. Harding diz. É o que Mrs. Parry diz. O teu pai também dizia. Podias ser compositor, maestro, pianista, como o pai. Na semana passada, Mr. Harding disse-me que és um dos jovens músicos mais talentosos que ele alguma vez conheceu, e isto é uma declaração e pêras, quando se pensa na quantidade de pessoas com quem ele deve ter trabalhado, ao longo da sua vida. Luke, tu tens qualquer coisa de verdadeiramente especial. E uma coisa para valorizar e tirar partido — disse ela, olhando para ele. — A música é a maior prenda que o teu pai alguma vez te deu.
— A maior prenda que o pai alguma vez me deu foi ele próprio — retorquiu Luke, olhando fixamente para o chão, visualizando mentalmente a cara do pai. Sentiu a mão da mãe no seu braço.
— Luke, eu sei que isto é doloroso, acredita que sei. Mas o que eu te disse é verdade… a tua música é um talento. O teu pai tinha-o, e tu também o tens. Não deves desperdiçá-lo.
— Não estou a desperdiçá-lo.
— Estás, sim. Paraste de ir a audições. Mal fazes exercícios ao piano. Nem queres pensar sobre uma maneira de avançar com a tua carreira musical. Deixaste de fazer todas as coisas que costumavas fazer, quando o pai estava…
— Não quero falar nisso — cortou ele, olhando novamente para ela. —- Está bem? E não parei de ir a audições. Ainda toco piano.
— Ocasionalmente,
— Faço todos os exercícios que Mrs. Parry me dá para fazer na escola, mesmo sendo tão fáceis que quase adormeço de aborrecimento. Continuo a ir às minhas aulas de piano com Mr. Harding. Por estupidez, aceitei tocar no seu concerto de despedida, antes de se reformar.
— Eu sei, Luke. Fico contente. Fico mesmo contente.
— Então, qual é o problema?
— Ambos sabemos qual é o problema.
— Bom, eu não sei.
Porém, estava a mentir novamente, e podia ver pela cara da mãe que ela o sabia tão bem quanto ele.
— Luke, alguma vez na vida vais ter de arranjar coragem para conversar comigo sobre o pai.
— Não quero.
— Mas, Luke..,
— Não quero, está bem? — disse ele, sustendo o olhar dela. — Tu disseste que não me ias forçar a falar até que eu estivesse pronto.
— Mas isso foi há dois anos.
— E então? — perguntou ele, novamente descontrolado e aos gritos. — O que é que isso tem a ver com tudo o resto?
Arrependeu-se novamente da sua explosão. Tentou pensar em qualquer coisa para dizer, mas ela falou primeiro, numa voz baixa e quase assustada.
— É óbvio que tu pensas que eu não presto para nada, neste momento. Bom, eu… — começou ela, inspirando fundo. — Estou apenas a fazer o que é melhor para os dois. E… Luke, por favor, deixa-me dizer isto… eu acho que nalguma altura da vida vais ter de falar comigo sobre o pai. Se continuares a reprimir tudo, nós nunca ultrapassaremos isto.
— Nós?
— Sim, nós — repetiu ela. Desta vez, ele percebeu um laivo de raiva na sua voz. A mãe semicerrou os olhos. — Achas mesmo que és a única pessoa que sofreu com a morte do teu pai?
— Não — disse ele relutantemente. — Não acho.
— Sabes, eu também tenho achado as coisas bastante difíceis.
— Não parecia lá muito há bocado, no alpendre.
Ela fitou-o durante uns instantes, e depois virou-se subitamente, foi até à janela e descerrou as cortinas. Atrás do vidro, ele conseguia ver o céu nocturno, brilhante de estrelas. A mãe ficou a olhar para lá para fora um bocado, respirando lentamente como se estivesse a tentar acalmar-se. Depois falou.
— Disse a mim mesma que não ia envolver-me noutra discussão, esta noite. Especialmente por ser esta noite.
— O que é que queres dizer com isso?
— Não importa. — Continuou a olhar através da janela. — Está tudo tão bonito, lá fora. Lembro-me de que, quando era rapariguinha, costumava ter um lugar especial quando vivíamos no Norte da Noruega. Era uma colina, muito acima do fiorde, e a minha avó inglesa costumava levar-me até lá para ver as estrelas. Mesmo hoje, consigo lembrar-me daquelas noites. E da cara da minha avó, quando mas apontava — rematou, ficando a olhar para as estrelas em silêncio, durante uns momentos; depois prosseguiu: — Sabes, eu senti-me verdadeiramente feliz há pouco. Antes de reparar como era tarde e de começar a preocupar-me contigo. Nem conseguia acreditar… pela primeira vez em séculos, eu estava um poucochinho feliz. Durante uns minutos, pelo menos.
— Ele pediu-te em casamento, não pediu?
— Isso é uma pergunta ou uma acusação?
— Que diferença é que faz? — atirou-lhe ele, fitando-a e desejando (sem saber bem porquê) que não se virasse e olhasse para ele; mas ela continuou simplesmente a olhar pela janela.
— Então, pediu ou não? — insistiu ele.
— Sim.
— E o que é que tu disseste?
— Disse que precisava de pensar nisso.
Luke continuou a olhar para a mãe; mas esta não tirou os olhos da janela. Atrás dela, através das vidraças, conseguia ver formas recortadas contra a escuridão; a silhueta da cabana de arrumos, o moinho de vento, a bétula prateada do fundo do jardim. Pensou no grande carvalho (a sua árvore, a sua amiga) e desejou estar lá em cima naquele momento, aninhado nos seus ramos, ouvindo as canções nocturnas da floresta. E, no entanto, a sua cama chamava por si mais do que nunca. Bocejou.
— Não precisas de pensar. Já sabes que queres casar com ele.
— Detestavas que eu o fizesse?
— O que é que isso tem a ver comigo?
— Tem tudo a ver contigo.
— Não, não tem. Não tenho nada com isso.
Ela virou-se subitamente e olhou para ele.
— Luke, tem sim senhor a ver contigo. Nunca daria um passo tão grande como este sem a tua aprovação. Não conseguiria. Tu és tudo o que eu tenho.
— Não, não sou. Tu tens Mr. Gilmore.
— O Roger. Ele tem nome. Não precisas de ser tão formal.
De repente, Luke endireitou-se. O som do choro da menina tinha rompido outra vez através do silêncio. Ele escutou, novamente sem saber se era uma voz verdadeira ou apenas a sua imaginação.
— O que é? — perguntou a mãe. — Ficaste tenso.
— Nada.
— Mas, Luke…
— Não é nada, está bem? — cortou ele, afastando a voz chorosa da sua cabeça. — Não te preocupes com isso. Casa com o Roger Gilmore, se é isso que queres.
A mãe voltou para perto dele, e pôs-lhe uma mão no ombro.
— Por que é que não gostas dele? É porque achas que ele me vai afastar de ti? Ou é apenas porque ele não é o pai?
— Quem é que disse que eu não gostava dele?
— Disseste tu.
— Eu nunca disse tal coisa.
— Não disseste preto no branco. Mas deixaste perfeitamente claro, acredita-me.
Ele deu um safanão, libertando o ombro da mão dela, e levantou-se. Tinha de sair da cozinha. Estava exausto e irritado e cheio de dores; sabia que estava prestes a explodir novamente; e desta vez iria fazê-la chorar e acabaria por se detestar, como sempre acontecia. Agora parecia que a maior parte das suas conversas acabavam daquela maneira.
— Vou para a cama — disse ele.
— Gosto muito de ti, Luke.
— Pois, pois.
Saiu da cozinha e fechou a porta atrás dele, e depois encostou-se à parede. Não estava a correr bem. Já conseguia ouvir o som da mãe a fungar por detrás da porta. Virou-se e abriu novamente a porta da cozinha de par em par. Ela estava sentada à mesa, com os olhos rasos de lágrimas.
— Olha, mãe… — começou ele, e transferiu o peso de um pé para o outro. — De momento não consigo lidar com esta coisa do casamento, está bem? Tenho demasiadas coisas na minha cabeça.
— Está bem, Luke — disse ela, puxando de um lenço e começando a limpar os olhos. — É porque achas que eu estou a ser desleal ao pai?
— Acabámos de concordar que não íamos falar mais nisso.
— Está bem — assentiu ela, num tom de voz quase inaudível. — Está bem. Não falamos sobre o Roger e não falamos sobre o pai, É isso que tu queres?
— Sim.
— Muito bem — concordou ela. Limpou os olhos novamente, e forçou-se a sorrir. — Obrigada por seres franco.
— Pois, bom… — começou ele e depois encolheu os ombros. — Boa noite.
— Boa noite, Luke.
Fechou a porta atrás de si, e desta vez subiu as escadas e foi para o quarto; e o som do choro seguiu cada um dos seus passos. O choro da mãe e (novamente) o choro da menina. Estava a viver num mundo de lágrimas. Por que é que não conseguiria chorar com elas? Mas há muito que os seus olhos haviam secado, e agora o seu coração também se sentia seco, tão seco e estéril como toda a sua vida. Chegou ao quarto e abriu a porta, e depois parou e fechou os olhos, encostando-se a uma parede, a escutar. Um som novo tinha rompido através do silêncio, mas não era de choro.
Era o som do piano, lá em baixo na sala de música. Escutou, continuando com os olhos fechados. Há muito tempo que a mãe não tocava, mas ele reconheceu logo aquela peça. Ele próprio tinha-a tocado muitas vezes cerca de dois anos antes: «Paz da Floresta», de Grieg, o compositor favorito da mãe. Era bom ouvi-la novamente. Os dois primeiros compassos recordavam-lhe sinos longínquos, e depois vinha a com a mão esquerda a percorrer o teclado para cima e para baixo com um baixo ritmado lento, enquanto a mão direita fazia a melodia; e de repente tudo eram sinos, sinos a tocar numa floresta. Luke viu imagens inundarem-lhe a mente enquanto ela tocava, imagens da floresta de Buckland, de copas de um verde luxuriante, de folhas a escorre¬rem orvalho, de luz a coar-se através das copas das árvores, e depois (para seu espanto) a cara da menina, com o seu cabelo escuro iluminado pelo sol; e não estava assustada: estava a rir-se, até a cantar, e ele estava com ela, na floresta, na música.
A melodia parou durante uns momentos, enquanto a mãe virava a página, depois continuou com os mesmos dois acordes distantes que tinham iniciado a peça. A melodia principal voltou e as imagens regressaram, das árvores na floresta e do sol na cara da menina; e ele deu por si a sonhar com o carvalho alto e com a casa na árvore a ser percorrida pela brisa. A música continuou, animada durante um momento, e depois mais suave, à medida que se aproximava do final. A cara da menina esvaiu-se da sua mente, mas as imagens da floresta permaneceram nos tranquilos compassos finais. Os acordes tornaram-se cada vez mais suaves, cada um deles mais ténue que o anterior; e depois ficou o silêncio.
Esgueirou-se para o quarto e fechou a porta atrás de si, depois despiu-se, deixou-se cair na cama, fechou a luz e ficou ali deitado, a olhar para o tecto. Uma coruja piou algures, por cima da quinta de Bill Foley, e depois quedou-se silenciosa. Não havia mais música lá de baixo. Em vez disso, ouviu passos nas escadas. Chegaram ao corredor, aproximaram-se do seu quarto e pararam lá fora. Fechou os olhos e esperou que a porta se abrisse, ou que a mãe o chamasse; mas os passos continuaram pelo corredor, e um momento mais tarde ouviu o som da porta da mãe; e depois foi o silêncio, uma vez mais. Uma imagem do velho carvalho flutuou-lhe na mente enquanto adormecia.

 

Durante a noite sonhou que estava novamente a voar. Era uma experiência que tinha tido diversas vezes desde que o pai morrera, e apesar de pensar sempre que era um sonho, ainda não tinha a certeza absoluta de que o era. Parecia-lhe tão real, e estava tão consciente de si, que às vezes tinha a certeza de que estava acordado; porém, toda a experiência lhe parecia muito estranha. Começara como sempre começava, com ele deitado de costas no solo da floresta, junto do velho carvalho, a olhar através da folhagem para um céu azul límpido; e depois, subitamente, era como se tivesse começado a sentir-se mais leve, tão leve na verdade que esticava simplesmente os braços e, com um arrepio leve do corpo, começava a flutuar no ar.
Pelo menos, parecia-lhe um arrepio, apesar de rapidamente ter percebido que a sua parte mais pesada já não estava ali. Estava por detrás dele no chão, como uma pele abandonada, e agora a sua parte mais leve, uma parte feita de ar e no entanto mais real do que alguma vez poderia ter imaginado, estava a mover-se em direcção à base da árvore, tentando alcançar a casca do tronco; e, de repente, por qualquer efeito da luz, as raízes e a base do tronco pareceram abrir-se e ele flutuou no túnel quente e negro da árvore, para chegar à copa; e depois estava dentro dela, afastando as folhas e voando para ainda mais longe, para longe da floresta, longe do solo, longe de tudo o que tinha sido alguma vez, à procura da estrela que ele sabia que estaria à espera dele, Estava sempre ali, neste estranho sonho-acordado, ainda que fosse dia claro, e ali estava ela novamente, tão brilhante que parecia ofuscar o próprio sol. E agora não estava sozinho. O pai estava a voar com ele, e outras presenças que ele não podia ver mas sentia em seu redor, presenças familiares, apesar de não se conseguir lembrar de quem eram, e elas voavam juntas, mais alto, mais alto, mais alto, em direcção à estrela, até que esta ficava tão brilhante que eles se dissolviam na luz.
Ouviu um som retumbante e cavo, e abriu os olhos. Encontrava-se na cama e a escuridão rodeava-o. Estava ofegante e a tremer, e sentia uma dor aguda nas costelas e nas partes da cara onde o Skin tinha feito o seu trabalho. Ficou deitado e imóvel, e olhou para o tecto, e depois de um bocado a sua respiração acalmou, e a dor abrandou um pouco. O som cavo envolveu-o todo. Isso não era nenhuma novidade, mas simplesmente um de muitos sons que o invadiram de dia e de noite, desde que se conseguia lembrar, mas especialmente desde que o pai morrera. Ficou a ouvi-lo e tentou perceber de onde é que vinha, mas como era habitual, a sua fonte iludiu-o. Parecia vir de todo o lado e de lado nenhum, e mudava constantemente. Às vezes era um bramido, às vezes um gemido, às vezes era como um murmúrio suave, como o quebrar do oceano muito ao longe. Ouviu-o durante alguns minutos, e depois também ele se apagou na noite, e o silêncio regressou.
Pensou no dia que tinha pela frente. Queria desesperadamente algum tempo para si próprio. Precisava de pensar. Precisava de se organizar de alguma maneira. Não conseguia enfrentar novamente o Skin, tão cedo depois de ter sido espancado; e não estava particularmente ansioso com a perspectiva de ver a mãe a sofrer mais, à mesa do pequeno-almoço. Decidiu que se iria levantar cedo, antes da mãe acordar, meter uns pãezinhos no bolso e sair de casa sozinho durante umas duas horas, para algures bem longe da Granja. Tinha uma aula de piano com Mr. Harding às dez, mas se se escapasse suficientemente cedo, pelo menos poderia ter algum tempo para si. Passaria pela olaria de Frank Meldrum e descobriria um lugar tranquilo ao pé do riacho. Aí, o Skin nunca o encontraria.

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