Canção para Dirceu – António Torrado

António Torrado
O coração das coisas
Porto, Edições Asa, 2004

Canção para Dirceu

Nós morávamos num rés-do-chão com quintal, ali para os lados da Granja das Malvas, à beira da cidade nova. Morávamos, mas já não moramos.

Deram em construir prédios de muitos andares, onde dantes só havia hortas e casinhas baixas, como a nossa, e vai daí a Granja das Malvas, cimentada e alcatroada, ficou irreconhecível. Parece que já nem assim se chama.

A nossa velha casa foi abaixo. A mim custou-me, principalmente por causa do quintal, que tinha um tanque ao fundo, meia dúzia de árvores de fruto e uma latada ferrugenta. Não andaria muito estimado o nosso quintal, confesso, mas sinto-lhe a falta.

Viemos estrear um desses apartamentos, que anunciam nos jornais. Para mudar de ares, nós, que sempre tínhamos vivido rente ao chão, escolhemos um sétimo andar com vista para o rio. É o que nos vale.
A mesma opinião não terá o Dirceu. Descontando a Marília, coitada, que nem tempo teve para se habituar às alcatifas da casa nova, o Dirceu foi o que mais se ressentiu com a troca.

Dirceu e Marília, o nosso casal de cágados, que o infortúnio separou, acompanharam com indiferença os preparativos da mudança, supondo talvez que todos podiam abandonar o rés-do-chão do quintal menos eles. Sempre se tinham arrastado por ali, sobre as velhas tábuas e o musgo dos canteiros, e nem sequer imaginavam que o mundo pudesse ser maior do que um quintal sombrio.

Quando os meteram num caixote, juntamente com sapatos fora de uso, embrulhados em papéis velhos, devem ter ficado chocados com a desconsideração, o que se entende.

Um par de cágados de nodosa casca, um nobre casal, sempre muito juntinhos ambos, obrigados a ter por companhia botas velhas e sapatões estalados era uma vergonha irreparável. Se as primas tartarugas, de casta e casca seculares soubessem da desfeita, não perdoariam. Por nós nunca o saberão. É que nos sentimos culpados…

Depois de muitos solavancos, foram desencaixotados numa das divisões por arrumar. Os dois cágados demoraram a pôr a cabeça de fora. Estranhavam os cheiros, o piso e a balbúrdia daquilo tudo. Para que lado ficaria o quintal?

A Marília, mais afoita, pôs-se à procura. Chegou-se até à varanda, onde já tínhamos poisado uns vasos com hortênsias, sobrantes da outra casa. A paisagem pareceu-lhe familiar. Sendo assim, o quintal não estaria longe. Muito a custo, enfiou a carapaça pelo intervalo entre o chão da varanda e a grade do parapeito. As patas da frente nadaram no vazio, e o peso mais a pressa que trazia impeliram-na para a frente, sem remédio…

Foi para nós um grande desgosto. Haverá quem diga que os cágados são pouco sociáveis. Engana-se. O Dirceu e a Marília davam pelo nome. Estendiam o pescoço, como se quisessem alçar-se até à nossa altura, e, olhando-nos de esguelha, por pouco que não perguntavam: “Vocês, aí em cima, o que querem?” As mais das vezes, eles é que queriam. Comida, por exemplo, de preferência saboreada dentro de água, em intermináveis sessões de natação no tanque do quintal.

Se não andavam na vida deles, talvez a jogar às escondidas pelo meio dos vasos, seguiam os nossos passos pela casa, cloc-cloc-cloc, como tamancos chineleiros.

Desta feita, ficou o tamanco sem par. Não havia meio de fazer entender ao Dirceu o que sucedera. Pusemos umas tábuas de resguardo na varanda e procurámos ocupar-nos com as nossas tarefas. Ajeitar o recheio de uma casa antiga numa casa moderna dá muito trabalho.

Para o Dirceu eram alterações a mais. Desaparecera-Ihe a companheira, tudo se transformara à sua volta. Andava estonteado, a escarafunchar por entre os papéis amarrotados, as roupas a monte, as pilhas de livros. Desta vez a Marília abusara do jogo das escondidas, julgaria o Dirceu.

Assistíamos ao desespero dele sem saber como ajudá-lo. Cobríamo-lo de mimos. Banhos de banheira, carne da melhor… Mas tudo o que interrompesse as suas pesquisas era tempo perdido. O Dirceu enfastiava-se dentro de água e perdia o apetite.

— Está a preparar-se para hibernar — calculámos.

A nossa experiência dos outros anos ditava-nos este supor. De facto, quando as árvores do quintal se punham a tiritar, por culpa do vento que lhes arrancava as folhas, os dois cágados sumiam-se. Em que esconderijo se isolavam para resistir ao Inverno, de que forma conseguiam sobreviver sem sustento, meses a fio, era para nós um mistério.

Ao primeiro despontar da Primavera nos ramos das árvores do quintal, apareciam-nos, fazendo de conta que tinham andado em viagem esse tempo todo. Ainda um pouco zonzos, mas esfomeados, devoravam tudo o que lhes trazíamos. Pudera!

Pois neste último ano, já eu tinha andado à procura das botas para a chuva, aliás, sem as encontrar, já o meu pai tinha arrumado a ventoinha na caixa donde tirara o calorífero, já a minha mãe desdobrara os cobertores para arejar, e o Dirceu naquela azáfama sem nexo, de uma divisão para a outra, batendo com a carapaça nas esquinas do corredor, tão desnorteado e ansioso que metia aflição.

— Ele hiberna e passa-lhe o desgosto — dizia o meu pai, não sei se muito convencido.

Mas não havia maneira do nosso Dirceu hibernar. De olhitos espantados por trás das pregas da pele, parecia um velho dolorido, inconsolável.

— Mais dia, menos dia, ele hiberna — dizíamos uns para os outros, para nos tranquilizarmos.

Preparámos-lhe refúgios confortáveis, na despensa, num armário do corredor, debaixo do fogão da cozinha. Tudo inútil. O Dirceu não se cansava de correr ao retardador pela casa toda.

— Isto é uma maluquice minha, mas se uma canção de embalar o acalmasse, palavra que era capaz de cantar-lhe aquela que te punha muito mansinho ao meu colo, quando andavas com as birras dos primeiros dentes — dizia a minha mãe.

Enterneci-me. E fiquei a magicar.

Garanto-vos que passei uma noite de insónia às voltas com uma cantiga que, de propósito, distraísse, acalentasse o Dirceu. Tenho pouco jeito para versos, hão-de desculpar-me.

No dia seguinte, trouxe-o para a sala, estendi-me no chão e cantei-lhe baixinho esta lengalenga:

Uma velha tartaruga
muito velha
toda às rugas
diz que a casa
onde ela mora
não se vende
nem se aluga.
Ela é velha
e é casmurra.
Tem uma casca
muito dura,
tem uma casa
muito escura,
mas é dela
onde ela mora
onde dorme
bem segura
ao comprido
e à largura.
Haja frio,
haja neve,
haja vento
lá por fora,
que na casa
onde ela mora
a botija
que ela adora
é o calor
que ela evapora,
haja frio,
haja neve,
haja vento
lá por fora…

Fosse a fugir da cantilena ou fosse do que fosse, a verdade é que Dirceu se libertou das minhas mãos e, no seu andar cambaleante e pensativo, saiu da sala. Não voltámos a vê-lo neste Inverno.

Ou melhor: vi-o eu, há dias, quando, finalmente, encontrei as minhas botas. Estavam esquecidas na arrecadação da marquise, dentro do caixote tombado, que derramara para o meio do chão sapatos fora de uso e papéis velhos. Ia arrumar aquela tralha, quando avistei, na zona obscura do caixote, a casca imóvel do Dirceu.

Parecia uma pedra, mas uma pedra onde latejasse um minúsculo coração entorpecido. Entorpecido? Vai-se lá saber como funciona o coração de um cágado…

 

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