Rafael diz não a tudo

Rafael diz não a tudo

É sexta-feira. A mãe vai buscar Rafael ao infantário. Lá fora está frio e a chover.

— Olá, Rafael — diz a mãe, e vai buscar a gabardine ao cabide.

— Não — diz Rafael. — Não a visto.

— Mas está a chover — diz a mãe, e vai buscar as galochas.

— Não visto o casaco! — continua Rafael.

— Assim vais ficar todo molhado.

— Não — Rafael bate com o pé no chão. — Quero um guarda-chuva! Se não, fico aqui.

— Então o pai vai ficar triste — responde a mãe. — Hoje, ele queria montar o comboio contigo.

— Não, não visto a gabardine! — grita Rafael.

A mãe nunca o vira assim. Como não quer continuar a discutir, dá-lhe o guarda-chuva dela.

— Vamos — diz.

Satisfeito, Rafael caminha orgulhoso para fora do infantário.

— Adeusinho! — diz aos outros meninos.

Assim que entram no autocarro, a mãe sugere:

— Vamos sentar-nos aqui. Assim podemos olhar pela janela.

— Não — responde Rafael. — Quero ir em pé!

— Mas o motorista faz travagens muito rápidas! Não quero que caias.

— Não. Ir sentado é aborrecido.

A mãe está admirada. O que se passa com o Rafael? Esta manhã também não queria que lhe penteasse o cabelo. E, em vez dos cereais, quis à força pão com doce.

No final da viagem, Rafael tem uma nódoa negra no joelho, mas sente-se satisfeito.

Quando entram em casa, vem um cheiro maravilhoso. A avó de Rafael está a fazer panquecas.

— Olá, Rafael! Hoje é o teu prato preferido — grita alegre da cozinha.

— Não, hoje não como panquecas.

Para ser sincero, até queria comer panquecas, mas ontem decidiu que hoje ia dizer não o dia todo. Ontem a mãe tinha dito não a tudo o que ele queria. Ficou tão zangado!

Pega numa maçã e mastiga-a sem grande vontade.

— Anda lá, Rafael — diz a avó. — Tive tanto trabalho!

— Não — insiste Rafael. Sente a água a crescer-lhe na boca e tem a barriga a dar horas.

— Bom, já chega de dizer não! — declara a mãe. — Estiveste com isso o dia todo. O que é que se passa?

— Estou furioso!

— Então porquê? — pergunta a avó.

— Ontem a mãe disse sempre não — responde Rafael. — Os adultos também passam o tempo todo a dizer não. Queria tanto ver os Simpsons na televisão.

— Agora estás a ser injusto — diz-lhe a mãe. — Já tinhas visto um programa. Tínhamos ambos decidido que escolhias um programa para ver e depois desligávamos a televisão.

— Os outros meninos do infantário têm autorização para ver sempre os Simpsons.

— Os outros são os outros, e tu és tu — diz a mãe.

— Nós antes não tínhamos televisão — conta a avó. — E mesmo assim divertíamo-nos imenso. Além do mais, com a tua idade, eu já sabia fazer panquecas sozinha.

— A sério? — pergunta agora Rafael. — Fazias tudo sozinha?

— Sim — responde a avó satisfeita. — A minha mãe só vigiava ao fritá-las.

— Que fixe!

— Anda — diz a avó. — Hoje podes fazer as tuas panquecas, queres?
E Rafael grita, bem alto:
— Sim!
Elisabeth Zöller
Stopp, das will ich nicht
Hamburg, Ellermann, 2007
Tradução e adaptação

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