Acabaram-se os beijos!

Acabaram-se os beijos!

É fim-de-semana e Tim e o pai estão confortavelmente a tomar o pequeno-almoço. Com toalha de mesa, chocolate, pãezinhos, doce, fiambre e queijo! E como é fim de semana, Tim tem autorização para comer todo o creme de chocolate que quiser.
— Que bom! — exclama, satisfeito.
— Amanhã a tia Zélia vem cá a casa — diz o pai.
— Oh, não! — volta a exclamar Tim, e até deixa cair o pão ao chão. — Vou esconder-me para ela não me encontrar.
Tim rasteja para debaixo da mesa para ver se a toalha o esconde bem. O pai segue-o.
— A tia Zélia é tão simpática!
— Sim, mas enche-me de beijos e eu não gosto. E o baton dela é tão pegajoso!
Tim até sente um arrepio.
— Tens razão, não é nada agradável — diz o pai e volta a sentar-se na cadeira.
— Vou esconder-me e só saio quando a tia Zélia se for embora! — exclama Tim. — Assim, também não tenho de comer o bolo dela. Fico sempre enjoado.
— A tia Zélia não é assim tão má! Ela gosta muito de ti.
Tim volta a rastejar para fora da mesa e reflecte:
— Eu também gosto muito dela. Só não gosto do baton e do bolo.
— Tenho uma ideia — diz então o pai. — E se a tia Zélia nunca mais te beijasse e nunca mais tivesses de comer do bolo dela?
— Então a tia Zélia era a minha tia preferida — responde Tim. — É muito divertido brincar com ela aos bombeiros. Além disso, é a que sabe as melhores histórias.
O pai ri.
— Melhores do que as minhas?
Tim ri e acena com a cabeça.
— O que é que tenho de fazer para que a tia Zélia deixe de me dar beijos?
— Isso não é fácil — diz o pai, deitando mais café.
— Vá lá, papá, diz-me! — insiste Tim.
— Quando a tia Zélia tocar à porta e te quiser dar um beijo — responde o pai — dizes que não.
— Não posso fazer isso. Não quero que a tia Zélia fique triste.
— Fica mais triste se te esconderes — diz o pai. — Tens de tentar dizer não de uma forma simpática. Assim, de certeza que a tia Zélia não fica triste.
Tim senta-se muito quieto na cadeira a pensar. De repente levanta-se e diz:
— Vou fazer isso!
Orgulhoso, o pai dá-lhe uma palmada no ombro.
— Amanhã quero, sem falta, brincar aos bombeiros com a tia Zélia e também quero mostrar-lhe o meu livro de dinossauros.
— Tu és capaz — diz o pai, abrindo o jornal. Tim também acha, e mal pode esperar pelo dia de amanhã.
Assim que Tim acorda na manhã seguinte, pensa logo no “não simpático”. Depois de lavar os dentes, coloca-se em frente do espelho a treinar.
“Não, querida tia Zélia”, diz, tentando sorrir ao mesmo tempo. Nada fácil!
À tarde, tocam à porta.
— Eu abro! — grita Tim, e sai a correr do quarto, enquanto põe rapidamente o capacete de bombeiro e enrola o cachecol grosso de Inverno à volta do pescoço. De certeza que vai ajudar.
— Ti-nó-ni! — grita Tim ao abrir a porta. Com o susto, a tia quase deixa cair o bolo ao chão.
— Olá, Tim queriducho — diz-lhe, ao mesmo tempo que quer dar-lhe um beijo.
— Não, querida tia — atalha Tim muito depressa, acariciando-lhe a mão. — Já não quero beijos. Já não sou nenhum bebé.
— É verdade —responde a tia. — É pena, mas tens razão.
— Anda — diz Tim, puxando a tia pela mão. — Vamos brincar aos bombeiros.
— Mas só se me deixares usar o teu capacete.
A tia Zélia tem de fazer a sirene muitas vezes. É o que sabe fazer melhor. À noite, regressa a casa cansada mas satisfeita. E como Tim tinha de mostrar sem falta o livro de dinossauros, até se esqueceram de comer bolo.
— Ainda bem que não me escondi — diz Tim ao pai.
— Exactamente. Quando se diz não tão bem como tu hoje, não é nada difícil, e ninguém fica triste.

Elisabeth Zöller
Stopp, das will ich nicht
Hamburg, Ellermann, 2007
Tradução e adaptação

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