Como estragar um filho – regras básicas 9/10

António Mazzi
Como estragar um filho em dez jogadas
Lisboa, Paulus Editora, 2006

(excertos adaptados)

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9.  Tem que ser o mais bonito de todos

Nos Estados Unidos, as mães levam os filhos ainda pequenos à clínica para fazer massagens, manicura e outros tratamentos variados. Hoje em dia está na moda ir à esteticista, não para re­solver os problemas estéticos das mães de quarenta anos mas para prevenir eventuais desarmonias físicas dos filhos, sobretu­do se adolescentes. Este costume, na América, começou depois do terrível 11 de Setembro.

O stress, o medo, a tristeza em muitas crianças, provocado pela falta de auto-estima, já existia antes. Segundo os especia­listas, tudo se precipitou e assumiu grandes proporções com a queda das duas torres. O desespero dos pais encontrou nas lojas de beleza uma porta de saída muito mais simples do que as vias habituais, isto é, a medicina, a ida ao psicanalista, longas esperas nas portarias das clínicas médicas, ou pior, psiquiátricas.

Inicial­mente, a notícia deixou-me surpreendido. Seguida­mente, reflecti um pouco e encontrei motivos que não devem ser menosprezados. Por exemplo: hoje em dia, muitos adolescentes não se aceitam. Conside­ram-se feios, terrivelmente feios. Aliás, hoje, para um jovem, tudo o que não é perfeito é feio. Não creio que os inexplicáveis impulsos dos jovens sejam apenas exibicionismo perverso e vontade de escandalizar a todo o custo. O corpo esteve demasiado tempo sacrificado ao espíri­to, ao trabalho, ao suor, à pátria, à ascese. Com o corpo, porém, todos temos de fazer contas.

Embonecar-se é uma idiotice, mas estar bem consigo próprio é necessário. Penso que, se os jovens se escondem por detrás de óculos de sol, cabelos de várias cores, piercings, pregos, grandes saltos, calças à pata de elefante, ca­misolas com gatafunhos, mini-saias de boneca sem-vergonha, é porque se desprezam.

Creio que vamos rindo demasiado e reflectindo demasiado pouco sobre este fenómeno que de modo algum deveríamos banalizar. Em qualquer rapaz há já os sinais patológicos da não-aceitação de si próprio. E certos factos de mau gosto bem podem ser interpretados neste contexto… O mal-estar é tanto que, se bastasse um banho aromático, massagens bem feitas, um tratamento anti-acne que fizesse bri­lhar a beleza encantadora dos nossos filhos, para acabar com o suicídio, a anorexia, as depressões, não me atreveria a alimentar escrúpulos a respeito de eventuais experiências. Desde que haja equilíbrio, medida e clareza. E que o cuidado do corpo não se torne uma obsessão (manipulações, intervenções cirúrgicas, operações plásticas).

10.  Venda-o ao êxito desde pequenino

É assustadora a triste compra e venda de jovens regularmente aceite diante dos nossos olhos, em nome do desporto. Ver e ouvir pais, treinadores, presidentes de clubes de futebol disputar no mercado filhos e jovens atletas ainda meninos como se fossem animais, permite-nos tomar o pulso ao nível da morali­dade e profundidade de consciência de uma parte da sociedade que considerávamos honesta e decente.

É inútil gritar contra os políticos e a corrupção, quando no nosso pequeno meio tocamos estes cumes da miséria. Não é a primeira vez que assisto, infelizmente para mim, a pressões “indecentes” da parte dos pais para que o filho ou a fi­lha possam entrar em determinado programa de televisão ou em certo tipo de festival da canção. Não posso acusar apenas os pais, não posso deixar de acusar aqueles que, nos bastidores, montam o espectáculo, juntamente com os pais.

Cada vez que, lendo o Evangelho, nos defrontamos com o passo em que Judas vende Cristo por trinta dinheiros, reagimos intensamente no nosso íntimo. Consideramo-nos muito longe deste modo de pensar e, escandalizados, gostaríamos que tal nunca tivesse acontecido. Não nos ocorre que vender os nossos filhos de poucos anos a um clube de futebol é, de certo modo, mais perverso e escandaloso? A história constrói-se ajudando os nossos filhos a sonhar pro­jectos válidos e dignos de serem vividos. São eles o nosso “Cris­to”.

E nós corremos o risco, uma vez mais, de ser aqueles judeus concentrados na praça do templo, irados e reclamando a liberta­ção de Barrabás. Os adultos, vergonhosamente submetidos aos ídolos do dinheiro e do sucesso, fazem recuar a história e relegam-na para o papel de página do crime, de conto policial ou de crónica cor­-de-rosa. Ser a favor da vida não significa apenas lutar contra o aborto e contra a eutanásia. Significa também dar à vida, em cada mo­mento, a profundidade que ela merece. Os trinta dinheiros ainda nos tilintam na cabeça e, não sei porquê, ainda nos fascinam.

Cont. 11/12

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