Como estragar um filho – regras básicas 5/6

António Mazzi
<em>Como estragar um filho em dez jogadas</em>
Lisboa, Paulus Editora, 2006

(excertos adaptados)

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5.  Superproteja-o

 

Um pai separado fartou-se de pagar 750 euros por mês ao fi­lho licenciado, com quase trinta anos, titular de uma quota de investimento equivalente a 258 mil euros, que já recusou vários trabalhos porque continua indefinidamente a fazer pós-graduações e especializações. Os juízes deram razão à insatisfação do menino da mamã e, uma vez que o pai é um rico industrial napolitano, deve continu­ar a sustentá-lo. Não discuto a riqueza do pai mas discuto, sim, esta destruidora e louca visão super-protectora da educação dos filhos.

Se se deve punir o pai separado ou compensar e apoiar a mãe, faça-se de outro modo. A lei oferece amplas possibilidades de assistência ao cônjuge abandonado. Tudo isto, porém, soa a sentenças de estilo populista e caseiro. O certo é que os nossos filhos têm que ser educados desde cedo. A maioridade deve ser uma meta em todos os sentidos.

 

6.  Caro pai, seja o mais fraco possível!

 

Há algum tempo que a figura paterna regressou, em boa hora, às honras das crónicas e das reflexões dos iluminados. A paterni­dade, colocada em questão pelo período revolucionário dos anos 60 e pela vontade ideológica de acabar com ela como causa da crise familiar, nacional e internacional (na opinião de alguns inte­lectuais dos anos 60), permaneceu durante algum tempo enfra­quecida e debilitada. O rei, nu e privado do secular pedestal da autoridade, ainda não conseguiu substituí-la por uma liderança autorizada, capaz de o recolocar com dignidade, depois de um banho purificador de vinte anos, no lugar que lhe cabe.

Pelo contrário, com o passar dos anos, não só ficou sem pedes­tal como fez tudo para que a tão invocada verdadeira autoridade não germinasse. É demasiado trabalho, para um rei de brincar, substituir a humildade pelo comando. Colocar-se ao lado dos fi­lhos e da família como companheiro de viagem, grisalho não só na cabeça mas também já no coração por causa das frustrações de um quotidiano difícil, não lhe parece ainda hoje suficiente­mente gratificante.

A reflexão sobre a figura do pai e a sua fraqueza vem-me agora a “talho de foice” para dar voz ao milésimo aviso sobre os distúrbios dos nossos filhos. Nas escolas do ensino básico e preparatório es­tão a tornar-se evidentes três tipos de violência persecutória: fí­sica, preferida pelos rapazes, psico-verbal, que se manifesta mais nas raparigas, e “indirecta” — sob a forma do culto da vulgaridade –, igualmente distribuído entre os dois sexos. Estou cansado de ler estudos sobre esta violência dos nossos filhos e sobre a prepotência que alguns deles exercem sobre os mais fracos, privilegiando a denúncia em detrimento das acções concretas.

Não nos podemos limitar a esperar pela tragédia que eventualmen­te se espalha e ganha raízes, mas urge reforçar cada pormenor que favoreça o bem-estar, os valores, o aprofundamento interior da vida dos nossos jovens. Para isto, a família e a escola não podem ser invocadas retoricamente, apenas quando os filhos já se tor­naram carrascos ou vítimas. A família deve ser recolocada no seu próprio lugar, isto é, lugar de crescimento e de educação das no­vas gerações.

Urge criar uma política não só da família mas de toda a socie­dade, que produza uma rede de sistemas capaz de dar resposta com urgência a quatro necessidades fundamentais: prioridade aos jovens, organização dos serviços, remodelação dos tempos da escola e do trabalho, formação permanente e supressão de inteiros bairros urbanos que nasceram apenas para enriquecer empreiteiros e multiplicar os bandos de energúmenos e os gan­gs de jovens em risco.

É preciso convencer os adultos a fazer de adultos e dar ao tempo livre todo o valor e importância que ele merece. Torne­mos mais acolhedores os espaços onde os jovens possam estar juntos. Tomemos iniciativas significativas no campo da música, do desporto, dos intercâmbios internacionais e das boas aven­turas. O excesso de energia que os nossos jovens acumulam por causa do grande desenvolvimento característico da primeira adolescência, devemos nós, antes de mais, procurar canalizá-lo para actividades desportivas, que tenham como objectivo a har­monia do seu corpo.

Aos doze anos, as suas pequenas “centrais bioquímicas” dispa­ram a uma velocidade supersónica. Por essa razão exigem de nós que os não deixemos simplesmente prisioneiros de uma cadeira da sala de aula durante seis a sete horas por dia ao longo de seis a sete anos. Facilmente acumulam a agressividade que, acompanhada de má educação, dá origem àqueles fenómenos de violência perse­cutória que todos andamos a tentar evitar. Não me cansarei de dizer que os verdadeiros educadores jo­gam sobretudo a carta da prevenção e não a do alarmismo. 

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