Como estragar um filho – regras básicas 3/4

António Mazzi
Como estragar um filho em dez jogadas
Lisboa, Paulus Editora, 2006

(excertos adaptados)

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3. Repita-lhe mil vezes ao dia…

1.«Nunca deves cansar-te com um problema sério.»
2.«Deixa que os outros tomem a iniciativa. Tu, prepa­ra-te para os aldrabar.»
3.«Lembra-te sempre que o esforço cheira a suor e anda de fato-macaco.»
4.«Deixa sempre para depois de amanhã o que deve­rias fazer hoje.»
5.«Nunca te ofereças como voluntário.»
6.«Os melhores só ficam bem nas finais dos campeo­natos desportivos de série a.»
7.«O exercício é uma coisa boa para os outros.»

8-9-10. As últimas regras exigem demasiado esforço físico e psíquico e por isso são deixadas à esper­teza de cada um.

4. Coloque a família sempre depois do trabalho

Li há tempos num jornal inglês uma coluna digna de atenção. Dizia a notícia que o director do colégio frequentado pelos dois filhos de Tony Blair lhes tinha marcado falta injustificada porque tinham regressado um dia mais tarde das férias de Natal. Não contente com isso, o director convocou ad limina tão augus­to pai. Grande surpresa e ocasião de espanto, creio eu, é, para nós, italianos, e talvez também para qualquer outro cidadão de um país europeu, saber que tão destacado pai se prestou a ir à es­cola apanhar uma “ensaboadela das grandes”. Cito entre aspas a expressão porque me parece significativa. Certo é que o primeiro-ministro inglês se comprometeu a não repetir se­melhantes irregularidades.

Se os pais estivessem mais vigilantes e presentes ao longo do ano escolar e colaborassem mais para que professores, directores e alu­nos desempenhassem melhor as suas tarefas, veríamos muito mais normalidade e calma no mundo tão impor­tante da escola. Um estado democrático que não investe o seu melhor no en­sino e na educação dos jovens terá pouco fôlego e uma total in­capacidade de projectar o seu futuro.

Volto à questão dos pais. A sua presença na vida quotidiana dos filhos é muito importante. Tem sido deixado demasiado espaço às mães, que têm que fazer da necessidade, virtude. Recordo aqui uma frase de Hummel, breve e incisiva: «O perigo maior na vida de um adulto é permitir que as coisas urgentes não deixem espaço às importantes». O telefonema para o cliente, a revisão do carro, uma passagem pelo banco para resolver uns assuntos.

Esbracejarmos e multi­plicarmo-nos dia após dia para melhorar o nosso desempenho profissional não nos garante seriedade nem sentido do dever. Os pais deviam compreender que manter em alta o seu desempenho, por vezes, exige reencontrar os pequenos momentos de intimidade com a família, exige ter a coragem de dizer e fazer com os filhos algo que sirva para restituir o sentido e novas perspec­tivas à vida, para além da profissão. A chamada lista de deveres rouba demasiadas vezes o tempo para as coisas importantes que acabam por ir para a lista de espera.

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