Como estragar um filho em dez jogadas

António Mazzi
Como estragar um filho em dez jogadas
Lisboa, Paulus Editora, 2006

(excertos adaptados)
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Ofereça-lhe um caderninho de sonhos ou, se for maior, um diário…

Gerou-se um debate interessante depois da sentença de um juiz dando razão a um pai que, muito preocupado com o comportamento do filho menor, correu, sem demasiados escrúpulos, a desfolhar o seu diário. Sou partidário do respeito pela privacidade e do direito de cada um de nós (seja pequeno ou grande) a proteger espaços de intimidade e de reserva, inteiramente seus. Ponho-me também no lugar do pai em causa. Não quero ser hipócrita e devo dizer-vos que, 99 em 100 vezes, também eu correria o risco de comportamentos semelhantes.

Há momentos em que nós, os adultos, temos o dever de escolher entre uma regra de boa educação e o risco de perder um filho ou um jovem que, arrastado numa fase delicadíssima da sua existência, parece naufragar, incapaz até de lançar um SOS. Há alguns anos atrás inventei, também eu, um diário escolar. Dei-lhe o título de Tremenda. Tinha dado conta que muitos rapazes se estavam a isolar, cortando drasticamente todas as vias de comunicação com os adultos, sobretudo com os pais. Permanecia, como tábua de salvação, a vontade de escrever e de de­sabafar com aquele pequeno utensílio.

No meu tempo, usava-o para assinalar os testes e os trabalhos de casa. Hoje, feliz ou infelizmente, parece permanecer o único amigo, o confidente, o outro canal, depois da televisão (?), a quem se confiam os problemas. Várias pesquisas vieram a demonstrar que 33% dos jovens entre os 13 e os 18 anos falam apenas com os seus Tremenda e os seus blocos de apontamentos. Há algum tempo salvei dois jovens de dezasseis anos de um provável suicídio porque as suas namoradas tinham intuído, através de umas mensagens rabiscadas no diário, que alguma coisa não andava bem… Fico contente por ter sido um pai a “cair nesta ratoeira”. No passado eram as mães a “mexer-se” em casos como este, a ter curiosidade, a meter o nariz…

Bem-vindos sejam os pais! As figuras parentais têm que ser resgatadas, reabilitadas, reinventadas, de preferência, sem incomodar os Tribunais. Será possível que hoje já não se encontrem espaços, momentos, diálogos em que se possam exprimir, com sinceridade e transparência, as dúvidas e as perplexidades dos pais diante da conduta incompreensível do filho adolescente?

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