Bernard ou como saber parar o tempo

Jacques-Antoine Malarewicz
O Complexo do Principezinho
Lisboa, Estrela Polar, 2007

(excertos adaptados)

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Bernard ou como saber parar o tempo

Bernard tem 16 anos. É um rapaz alto, solidamente constituído e cujo peso se aproxima dos noventa quilos. Vem acompanhado do pai, que pediu a consulta. Os resultados escolares de Bernard inflectiram sensivelmente nas últimas semanas e os pais são habitualmente mais sensíveis do que as mães a este tipo de problema.

Os professores denunciam um comportamento pueril, assim como ausências cada vez mais numerosas. Coloca-se a questão de ter de repetir o ano, o que é inaceitável para o pai de Bernard, que sente isso como um fracasso pessoal.

TERAPEUTA (dirigindo-se ao pai) — O que o inquieta mais no Bernard?

PAI — Tudo! É como se não vivesse mais lá em casa, salvo com o irmãozinho… aproxima-se dele desde há algumas semanas… mas de qualquer forma têm oito anos de diferença e eu penso que isso é um pouco estranho… Para além do mais, os professores convocaram-nos, eles também estão preocupados porque os resultados são fracos… é possível que repita o ano…

TERAPEUTA — E tu, Bernard, o que te inquieta?

BERNARD — …

PAI — Ora aí está, é sempre assim… nem responde quando lhe fazem uma pergunta… é o que lhe dizia… um verdadeiro túmulo… é assim desde há várias semanas… não se lhe consegue sacar nada…

TERAPEUTA (dirigindo-se a Bernard) — Será que o teu pai pode explicar-me o que se passa?

BERNARD — Não, não quero…

TERAPEUTA — Então, o que propões?

BERNARD — …

TERAPEUTA — Desejas falar a sós comigo?

BERNARD — Sim…

Bernard testa-me. Tem necessidade de saber – o que é totalmente legítimo – de que lado estou: do seu ou do lado do pai. Mas tenho que lhe mostrar que continuo dono do jogo e que ele não pode decidir tudo. Então, proponho-lhe um compromisso.

TERAPEUTA — Concordo, mas antes quero falar com o teu pai em privado… Podes deixar-nos sozinhos durante alguns instantes? (Bernard sai da sala depois de ter hesitado um pouco.)

TERAPEUTA — Tem alguma explicação?

PAI — Sim e… não. De facto, parece-me que ele tem… digamos… problemas desde há alguns meses… sobretudo depois do seu último aniversário, de ter completado dezasseis anos…

TERAPEUTA — Problemas?

PAI — Sim, tenho a impressão de que ele tem medo de tudo… não quer ver ninguém, nem os amigos mais próximos. Evita-os sistematicamente.

TERAPEUTA — Ele pode, sobretudo, ter medo de crescer!?

PAI — Pode explicar melhor?

TERAPEUTA — Medo ou não ter vontade…

PAI — Mas mesmo que seja isso… Não há nenhuma razão… tem tudo o que necessita…

É sempre difícil passar de uma explicação clínica, que o pai vem buscar, à compreensão relacional da atitude de Bernard. Tal não significa que não haja explicação clínica. Só que, enquanto terapeuta familiar, não posso contentar-me em receitar – eventualmente – um ou mais medicamentos. Durante esta consulta com o pai, tentei dar-lhe uma outra perspectiva das dificuldades do seu filho.

TERAPEUTA — Há coisas que possam perturbar o Bernard?

PAI — Não, não vejo quais…

TERAPEUTA — Será que pode estar inquieto pelo senhor ou pela mãe?

PAI — Se a minha mulher estivesse aqui, diria provavelmente que Bernard foi muito afectado por um pequeno problema de saúde que eu tive há alguns meses.

TERAPEUTA — Pequeno problema de saúde?

PAI — Um problema cardíaco… não muito grave, um pequeno alerta. Foi a primeira vez… No fundo, na minha família, o meu pai morreu de enfarte quando tinha quarenta e quatro anos, e o meu avô morreu da mesma causa quando tinha quarenta e sete. (Sorrindo e dando ares de estar descontraído…) — Já passei a idade!

TERAPEUTA — E tem a impressão que a sua mulher está enganada?

PAI — Não sei… e quanto a si?

TERAPEUTA — As crianças sabem esconder frequentemente o que as inquieta…

Em seguida observei Bernard a sós, como ele desejava. Só que a maior parte do tempo ficou entrincheirado no seu silêncio e ficámos pelas banalidades. Não quis falar-lhe demasiado rapidamente das inquietações que ele podia ter em relação ao estado de saúde do pai e da ligação que podia ser feita com os seus problemas. Pareceu-me que cabia aos pais fazê-lo, sobretudo ao pai.

Vi os pais várias vezes para os ajudar a falar de tudo isso, primeiro entre eles, em seguida com os dois filhos. A mãe estava muito angustiada, mas não ousava demonstrar ao marido a sua angústia, com medo de agravar o estado de saúde do coração do marido. Cada um refugiou-se nas suas próprias apreensões em relação ao futuro.

A angústia de Bernard era proporcional à ligeireza do pai. Os aniversários passaram a ser mais importantes para esta família. Consequentemente, ele procurou parar a marcha do tempo, tanto para o pai, como para ele próprio e para o irmão.

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