Estratégias para nos salvarmos em situações difíceis: maus salários

María Jesús Álava Reyes
A arte de arruinar a sua própria vida
Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007
(excertos adaptados)

A arte de arruinar a sua própria vida

Estratégias para nos salvarmos em situações difíceis: maus salários

O caso de Hugo e Margarida

Hugo e Margarida eram um casal jovem. Matavam-se a trabalhar, mas não conseguiam salários dignos que os ajudassem a viver desafogadamente, e lhes permitissem prescindir da ajuda dos seus pais para chegar ao final do mês.

A situação era tão desesperante que, ao cabo de três anos de vida comum nestas condições, começaram a sentir-se muito atormentados e, como costuma ocorrer nestes casos, a sua relação deteriorava-se na mesma medida em que desapareciam as suas esperanças de alcançar um maior desafogo económico.

Por outro lado, ambos desejavam ter filhos, especialmente Margarida, mas dadas as circunstâncias não se atreviam a dar este passo, pelo que a insatisfação aumentava a cada dia.

Quando vieram à consulta, os dois lutavam para salvar a sua relação já que, apesar de tudo, continuava a existir um grande carinho entre ambos, mas duvidavam que pudessem superar a crise que estavam a viver.

Hugo estava particularmente desanimado, pois sentia que era ele quem mais tinha falhado. Ao fim de cinco anos na mesma empresa, não tinha conseguido ascender de categoria, nem de remuneração. Cada dia que passava estava com um humor pior e sentia-se mal com o mundo, mas não se tinha apercebido de que, sem o pretender, estava a descarregar em Margarida a sua insatisfação. Há muitos meses que se mostrava muito distante e autoritário com ela. Parecia que estava à espera da mínima oportunidade para discutir e provocar situações de forte tensão.

Pelo seu lado, Margarida também não se encontrava muito melhor. Era uma pessoa muito trabalhadora e lutadora, mas sentia que já se lhe tinham acabado as forças e duvidava que Hugo continuasse a amá-la com a intensidade e a afectividade de que ela necessitava.

Como psicóloga, conhecia muito bem o estado emocional em que se encontram as pessoas que vivem situações difíceis como a que acabavam de expor. Eles estavam nessa fase em que já quase não tinham esperanças de poder alterar a sua vida.

A sua história oferece-nos uma magnífica oportunidade para vermos como podemos agir em situações parecidas, quer na primeira pessoa, quer como medida para auxiliar amigos, familiares…

Aprender a viver e governar a nossa vida é, em grande medida, saber o que temos de fazer quando nós ou uma pessoa próxima se encontra numa situação similar à de Hugo e Margarida.

Desde o princípio, dispus-me a ter uma atitude de escuta activa para com os dois. Essa escuta activa permitia-me aproximar ao máximo da problemática que estavam a viver, e ajudava-me a que se sentissem escutados, respeitados e compreendidos.

[A escuta activa é um elemento crucial para a comunicação e o relacionamento com quem nos rodeia. Para já, só comentaremos, à laia de introdução, que quando uma pessoa faz uma boa escuta activa, grande parte das dificuldades da comunicação desaparece. De facto, constitui a primeira ferramenta básica que nos ajuda a romper barreiras e nos aproxima realmente do nosso interlocutor. Entenderemos não só o que ele nos manifesta explicitamente, como também o que está a comunicar-nos a um nível não verbal: com os seus gestos, atitudes, esgares… Outra das vantagens da escuta activa é que a pessoa que está a falar, ao notar que estamos a segui-la com autêntico interesse e proximidade, sente uma predisposição favorável que ajuda todo o processo posterior de comunicação.]

Sem dúvida que Hugo e Margarida se sentiram ouvidos e com isso consegui que se mantivessem na expectativa e atentos face ao que eu iria dizer.

Ambos acabavam de fazer um esforço importante. Nestes casos, não esqueçamos que um bom ponto de partida é reconhecer esse esforço, depois virá o momento de criar as condições para que a pessoa comece a sentir de novo aquilo de que tanto necessita: esperança e sonhos. Recordemos que é difícil viver com pouco dinheiro, e ainda mais com pouca saúde, mas é impossível viver sem sonhos.

Dispus-me a criar essas condições, mas atenção! Mais importante do que o que dizemos é como o fazemos.

Este é um desses momentos em que a nossa voz deve ser muito próxima; o ritmo pausado, articulando bem cada palavra; o volume mais para o baixo, para que nos ajude a criar um clima de intimidade e o olhar absolutamente transparente, limpo e cálido, capaz de transmitir que o que mais nos importa nesse momento é a pessoa que temos à frente, só ela tem toda a nossa atenção e interesse: um olhar que ajude a comunicar com o mais profundo do ser humano que está ao nosso lado.

Uma vez escutado o seu relato, disse-lhes: «Hugo e Margarida, vocês têm muito mérito, obrigada pelo vosso esforço. A maior parte das pessoas fica-se pelas queixas e pelo desconsolo. Com a vossa atitude, vocês demonstram que são duas pessoas lutadoras, que querem salvar a vossa relação e que fizeram o mais difícil: reconheceram que se sentem vencidos e querem ver como podem solucionar o problema! Parabéns pela decisão que tomaram! E força, porque a psicologia existe precisamente para vos ajudar a superar estas dificuldades. Se pusermos mãos à obra, de certeza que o conseguiremos!»

Podemos perguntar-nos porque começo com essa frase. É um mero acaso que comece por pronunciar o seu nome e por animá-los de forma tão expressa?

A resposta é muito clara.

Começo por pronunciar os seus nomes de forma absolutamente deliberada e consciente.

Recordemos que uma das coisas que mais nos faz reagir é ouvir o nosso nome; além disso, ajuda-nos a criar um clima de proximidade com a outra pessoa, especialmente quando se trata de um conhecimento recente.

Também não é um acaso que os anime e os fortaleça nestes momentos. Voltaremos a isto com a importância que o assunto requer, mas curiosamente, quando somos pequenos, sabemos muito bem reforçar, sorrir, reconhecer o que estão a fazer por nós. O bebé olha-nos continuamente e sorri quando lhe falamos, e isso estimula-nos a continuar a falar-lhe, acariciando-o, cuidando-o… Porém, quando crescemos, parece que nos esquecemos desses ensinamentos tão práticos e, sem querer, desaprendemos; agimos como se já não necessitássemos que nos encoragem, que nos animem ou nos felicitem por algo. Este é um dos maiores erros da nossa comunicação e uma das barreiras que aprenderemos a ultrapassar para facilitar a nossa relação com os outros.

Quando agradeci a Hugo e Margarida o seu esforço, eles notaram que o fiz sinceramente e, como pessoas sensíveis que são, sentiram-se bem pelo meu reconhecimento. Desta forma contribuímos para a criação de um clima favorável dentro deles.

Em seguida expliquei-lhes como iríamos tentar superar esta situação, como aplicaríamos os princípios básicos da psicologia, especialmente em relação à comunicação e às relações interpessoais, e pedi-lhes que durante a semana seguinte fizessem registos. Tratava-se de, sempre que se sentissem mal, apontarem onde estavam, com quem e o que faziam nesses momentos; em seguida escreveriam como se sentiam a nível físico e, finalmente, e de forma literal, anotariam os seus pensamentos, isto é, tudo aquilo em que estavam a pensar nesses instantes.

Estes registos permitiram-nos separar as emoções dos acontecimentos e das circunstâncias que ocorriam em cada momento. Os dois viram que o que determinava o seu estado emotivo eram os seus pensamentos, e não tanto o que cada um ou os outros faziam. O Hugo surpreendeu-se ao ver a facilidade com que se irritava com Margarida, não tanto pelo que ele estava a passar, mas pelo que estava a pensar.

Igualmente tomaram consciência da influência negativa de algumas pessoas do seu meio que, longe de se mostrarem positivas, repisavam as más perspectivas que tinham no seu futuro profissional ou pessoal.

Os dois distinguiram perfeitamente o mecanismo das suas emoções e a influência desse relato interno que constantemente fazemos a nós mesmos, das palavras que dizemos e dos pensamentos que nos acompanham.

Quando reaprenderam a encorajar-se, a dizer tudo aquilo de que gostavam em ambos, a desfrutar do que tinham e do que se podiam oferecer mutuamente, chegou o momento de agir sobre as condições que os rodeavam. Trabalhámos incontáveis vezes para isolar os seus sentimentos de contrariedade e as suas insatisfações a respeito do que era a relação de ambos. Em breve souberam aproveitar esse sentimento de profundo carinho que sentiam um pelo outro, esse remanso de paz que era a presença da pessoa querida, o bem-estar que experimentavam ao sentirem-se escutados pelo outro e ao comprovar como podiam controlar as suas preocupações e desfrutar da sua relação. Isso era algo que ninguém podia tirar-lhes, que não lhes exigia nenhum desembolso económico, e que lhes dava todas a força e ânimo para encontrarem as melhores condições para a sua vida em comum.

Uma vez conseguida essa relação harmoniosa, aprenderam a canalizar as suas energias para que não se transformassem em emoções negativas. Neste ponto propusemo-nos ver como podíamos melhorar o meio laboral e os dois fizeram também registos das principais condutas dos seus chefes e colegas de trabalho mais significativos (aqueles que tinham influência sobre o seu futuro profissional). Graças a estes registos, pudemos elaborar uma estratégia de acção, que nos permitisse conseguir melhores rendimentos ou uma maior disponibilidade de tempo.

Concretamente, Hugo conseguiu um compromisso, por parte da sua empresa, de esta lhe dar uma remuneração extra, se ele alcançasse determinados objectivos no seu trabalho. Não era muito, mas sempre era uma ajuda importante.

No caso de Margarida, como grande parte do trabalho que fazia poderia desenvolvê-lo a partir de casa, chegou a um acordo de colaboração com a sua empresa, graças ao qual lhe sobrava mais tempo livre; tempo que podia dedicar a outras coisas.

Ao fim de alguns meses, começaram a pensar numa possível mudança para outra casa, cujas despesas não lhes pesassem tanto. Uns tempos depois, deixaram de necessitar da ajuda extra da família, e foi aí que decidiram que não queriam mais ajuda económica, mas que pediriam às suas famílias que os apoiassem na futura educação dos filhos, uma vez que tinha chegado o momento em que se sentiam muito bem como casal e se encontravam preparados para fazer frente ao desafio de serem pais.

Uma das estratégias que mais utilizámos, sobretudo com Hugo, foi a recuperação do sentido de humor. Deixou de ver quase tudo negro, para passar a analisar as coisas com uma atitude mais positiva e optimista. Pouco depois, as discussões e os lamentos foram substituídos por momentos de afectividade e cumplicidade entre o casal. Recuperaram a esperança e com ela as forças para continuar a lutar e superar as dificuldades.

Ambos tinham realizado um enorme esforço para aprofundar o seu próprio autoconhecimento, o que lhes permitiu melhorar os níveis de autocontrolo. Posteriormente trabalhámos a forma como comunicavam entre si. As suas relações melhoraram de maneira significativa; aprenderam a comandar a sua vida, a resolver os problemas, a desfrutar do máximo de momentos… a saber que as situações mais difíceis encerram grandes aprendizagens.

Actualmente têm um filho muito simpático, que os enche de felicidade. Todos estão envolvidos na sua educação, ambas as famílias os ajudam com a criança, mas, como eles dizem, o melhor foi terem aprendido a ver a vida com mais objectividade e optimismo. Agora comunicam e relacionam-se melhor, não somente entre eles, mas com a maior parte das pessoas do seu meio envolvente.

Estão muito mais treinados do que a «maioria» e, precisamente por isso, solucionam as suas dificuldades com mais facilidade.

Os dois recuperaram a esperança. Algo que também tinha perdido a nossa próxima protagonista.

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