A arte de dizer NÃO – o caso de Maria José

María Jesús Álava Reyes
A arte de arruinar a sua própria vida
Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007
(excertos adaptados)

O caso de Maria José

Maria José é uma pessoa que decidiu repensar a sua vida, por causa de uma crise depressiva.

Tinha cerca de cinquenta anos quando veio visitar-nos. Estava sob medicação há mais de dois meses e há oito semanas que estava de baixa.

Sentia-se permanentemente esgotada; levantar-se da cama pela manhã era um esforço sobre-humano para ela.

Tinha três filhos e um marido que gostava dela à sua maneira depois de vinte e oito anos de casamento, mas que não sabia como a ajudar.

Sempre tinha sido o suporte da família, mas agora parecia uma sombra de si mesma.

No primeiro dia que veio ver-nos, com um tom de voz muito baixo e uma velocidade extremamente lenta, disse: «Quero saber se há alguma coisa que possa fazer comigo, pois cheguei ao limite das minhas forças; nunca pensei que isto me pudesse acontecer.»

Fisicamente estava «pele e osso»; já era uma pessoa magra, mas tinha perdido oito quilos nos últimos meses e o seu aspecto físico era desolador.

Nas primeiras sessões tivemos de saltar o «protocolo de actuação» que habitualmente seguimos em casos parecidos. Maria José precisava de nos contar o que ela intuía que estava na raiz da sua situação actual e precisava de o fazer «à sua maneira». Além disso, tinha muitas perguntas urgentes que requeriam resposta. Por outro lado, teria sido impossível mandar-lhe fazer os registos dos primeiros dias. Pegar numa folha e num lápis teria significado para ela uma fadiga extrema.

Ao cabo de um mês, parecia, por fim, ter perdido o medo da terapia. Ainda continuava muito cansada, mas já com vontade de praticar o que, pacientemente, tínhamos estado a ver nas sessões anteriores.

A análise que efectuámos demonstrou-nos que Maria José tinha passado toda a sua vida a fazer o que os outros esperavam dela. Primeiro fora com a sua família de origem, depois com o seu trabalho, amigos, marido, filhos… Era uma pessoa tremendamente generosa e muito exigente consigo mesma. Não parava um minuto!

Os últimos anos tinham sido terríveis. O seu pai era já muito idoso e há três anos que tinha Alzheimer; estava numa fase em que já raramente a reconhecia. Depois de muita luta e de graves problemas com os seus irmãos, colocaram-no finalmente num lar. No entanto, isto também não tinha trazido maior tranquilidade para a Maria José, pois esta tinha-se imposto ir visitá-lo umas três ou quatro vezes por semana, já que sentia uma profunda tristeza pela situação em que via o pai.

No trabalho sempre tinha sido uma pessoa muito responsável; não se lembrava de ter ficado de baixa a não ser nos períodos de maternidade. Apesar de existirem no seu departamento vários funcionários administrativos como ela, Maria José acabava por ficar quase sempre com os trabalhos mais pesados, às vezes por decisão dos chefes, mas em muitas ocasiões pelo descaramento de três dos seus colegas que, à mínima oportunidade, acabavam por passar-lhos.

Em casa não tinha praticamente nenhuma ajuda, nem externa nem interna. O seu marido era uma pessoa de muito bom carácter, mas dos que desde o princípio se acomodaram a que em casa a sua «diligente esposa» fizesse tudo. Os seus filhos – dois rapazes e uma rapariga – seguiam o costume familiar e, salvo o mais novo, que de vez em quando levantava a mesa depois do jantar, os outros agiam como se estivessem num hotel de luxo. E no que tocava à comida, os mais velhos eram muito esquisitos, pelo que Maria José fazia três ementas diferentes todos os dias.

Os amigos, especialmente as amigas, também abusavam dela à primeira oportunidade; assim, a nossa heroína tinha acabado por se «esgotar» e deixara-se ir abaixo a um limite difícil de reverter.

O problema fundamental era que Maria José nunca dizia que «não»; ainda que estivesse esgotada, ainda que «não pudesse com uma gata pelo rabo», mostrava-se sempre disposta a fazer o que lhe pediam. O resultado final era a prova mais evidente do seu grande erro. Não se pode viver permanentemente a dizer a tudo que sim.

A tarefa não era simples, mas ao menos aqui contávamos com um facto muito favorável: Maria José tinha-se assustado, tinha chegado a ter ideias autolíticas (pensamentos sobre como se suicidar) e finalmente estava consciente de que ou reagia ou se afundava irremediavelmente.

Desde o princípio começámos a trabalhar a sua assertividade. Era crucial que se sentisse segura de si mesma para enfrentar com garantia de sucesso o longo programa que tínhamos pela frente e que, de forma resumida, consistia em recuperar a sua capacidade de decisão, defender os seus juízos, começar a dizer «não» e fazê-lo com as pessoas que estavam acostumadas a que dissesse sempre que sim a tudo.

Estivemos semanas a ensaiar o disco riscado, o banco de nevoeiro… todas as técnicas assertivas de que necessitava na fase em que se encontrava. Pouco a pouco, ainda que com alguns retrocessos, Maria José começou a sentir-se cómoda a agir assertivamente mas, tal como tínhamos temido, assim que se aperceberam, deu-se uma espécie de motim familiar. Os filhos mais velhos, curiosamente apoiados pelo pai, disseram-lhe «já chega!», tinham sido muito pacientes enquanto a viram mal, mas que já era hora de as coisas voltarem a ser como dantes.

O que incomodava os seus filhos era que a mãe, seguindo as nossas indicações, há duas semanas que não cozinhava três ementas diferentes todos os dias, nem se matava para que tivessem sempre a roupa passada a ferro, nem lhes comprava os caprichos de que se lembravam ou as coisas de que se tinham esquecido, não lhes limpava os quartos… Tinha-se produzido uma autêntica revolução.

Antes de pôr o programa em funcionamento, eu tinha aconselhado a Maria José, pela segunda vez, que dissesse ao marido e aos filhos que viessem ver-me, mas estes tinham-lhe respondido que não entendiam destas coisas da psicologia, que estavam muito ocupados e que, além disso, para quê, se já a viam melhor.

Um dia disse-me: «Excepto o Raul (o filho mais novo) o resto da família declarou-me guerra em casa.» A sorrir respondi-lhe: «Por nós bem podem começar a declarar a paz, mas parece que não lhes fariam mal algumas lições, portanto vamos ajudá-los para que sejam menos egoístas e, já agora, para que aprendam a respeitar os outros.» Maria José olhava-me muito atenta e, quando por fim terminei, disse-me: «Acha que estou preparada?» «Não tenho dúvida», respondi. «Pois então, vamos a isso!» Foi um «vamos a isso» cheio de força e coragem da sua parte que mostrava a convicção interna que possuía.

Preparámos pormenorizadamente uma estratégia para a cena que, sem dúvida, se produziria em sua casa. O principal objectivo seria agir de forma assertiva e dizer «não» nos momentos precisos. Tal como me contaria Maria José na semana seguinte, o diálogo foi mais ou menos assim:

Filho mais velho: Mãe, para amanhã quero esta camisa e estas calças.

Maria José: (Olhando-o com cara de espanto, sem pronunciar uma palavra e continuando com o que estava a fazer.)

Filho mais velho: Posso saber o que é se passa contigo? Disse-te que necessito para amanhã desta camisa e destas calças. (Notemos que aqui o filho passou de «quero para amanhã…» para «necessito para amanhã…». Desta forma trata de pressionar e infundir um sentimento de culpabilidade na sua mãe.)

Maria José: (De novo com um silêncio prévio, que deverá ter parecido eterno ao seu filho, respondeu com uma voz pausada e um tom firme.) Ouvi-te perfeitamente, o estranho é que me digas que amanhã queres levar essa camisa e essas calças, deve ser a primeira vez que pedes autorização para te vestires como queres, mas se do que não te lembras é de onde está a tábua de passar a ferro, não te preocupes, está na…

Pai: Já chega. O rapaz só te está a pedir que lhe passes a ferro uma camisa e umas calças, não é preciso começar com um discurso filosófico; ultimamente andas muito estranha. (De novo Maria José estava a sofrer a pressão e a tentativa por parte do seu marido e do seu filho mais velho de lhe infundirem sentimentos de culpa. Este facto é lógico, devemos pensar que funcionavam de uma forma diferente desde há muitos anos, uma forma muito cómoda para eles, portanto não tinham um interesse excessivo em modificá-la.)

Maria José: (Olhando para eles fixamente – tão fixamente que se notava que os dois estavam nervosos, pai e filho –, depois de um silêncio prolongado, respondeu.) Vocês fazem uma equipa estupenda, absolutamente coordenada, por isso será mais simples ajudarem-se e resolver o problema que aparentemente têm, porque se por acaso ainda não perceberam, NÃO vou passar a ferro nenhuma roupa que não seja minha. (Auto-revelação, resposta assertiva e mensagem clara.)

Pai: Era a última coisa que me faltava ouvir. Cristina! – chamando a sua filha aos gritos –, faz o favor de engomar a camisa e as calças do teu irmão que a tua mãe tornou-se uma marquesa iluminada!

Filha: (Com certa perplexidade, mas no fundo divertida com a atitude da sua mãe.) Não contem comigo – a olhar a sorrir para a sua mãe –, olha para o par de machistas que nos saíram nesta casa!

Pai: Machistas! – gritando – era só o que me faltava; traz a m… da camisa – dirigindo-se para o filho – e se a queimarmos já sabemos de quem é a culpa – olhando para a mulher e para a filha. – Estás a ouvir-me? – a gritar para Maria José (que, na verdade, continuava a fazer outra tarefa, como se o assunto não fosse com ela, o que pareceu deixar o marido e o filho sem recursos).

Filho mais velho: (Vendo que a iniciativa do seu pai podia ser desastrosa para a sua roupa) Deixa estar! Visto outra coisa, mas vejam se resolvem os vossos problemas – olhando para o pai e para a mãe – que ultimamente não se pode viver nesta casa.

Mãe: (Sem dizer uma só palavra, mas olhando fixamente para o filho, com uma expressão que queria dizer mais ou menos «Tens cá um descaramento!» Quando viu que este ficou perturbado e que desviava o olhar, continuou com o olhar fixo por uns segundos para dar consistência ao seu controlo e à tranquilidade que tinha nesse momento. Nesse instante, à frente de todos pegou no telefone, ligou para uma amiga e pôs-se a falar alegremente com ela.)

Não foi esta a única «batalha» que Maria José teve de travar nessa semana, mas ainda que algumas situações tenham sido muito difíceis, conseguiu manter-se firme, e o que é mais importante, transmitir essa firmeza à sua família.

Passadas três semanas desde o início da declaração unilateral de guerra do seu marido e dos seus dois filhos mais velhos, e depois de seis dias, em que o seu marido não lhe tinha dirigido a palavra, uma noite, por fim, Cristina disse: «Bom, é óbvio que temos um problema. Mãe, diz-nos o que se passa porque estou pelos cabelos de ver as vossas más caras. Também não vais pretender que de repente tudo seja ao contrário; além disso já não me resta uma única peça de roupa passada a ferro.» Esta última frase tentou dizê-la com um sorriso. A mãe olhava-a com tranquilidade, mas não parecia ter pressa em responder-lhe, portanto Cristina levantou a voz e gritando disse: «Pode-se saber que raio queres tu?» Novamente, Maria José manifestou um controlo à prova de balas e, sem se alterar, respondeu: «Quando souberem manter uma conversa e estiverem dispostos a escutar-me, então falarei; até lá não tenho qualquer interesse em fazê-lo. Mas caso não se lembrem, a época da escravatura terminou no século XIX.» Ainda não tinham saído do seu estado de assombro, quando o mais novo interveio a favor da mãe e disse: «Já chega. Não vêem que são uns egoístas? A mãe tem razão, a partir de agora é preciso repartir as tarefas.» Maria José olhou para o seu filho a sorrir, fez-lhe uma carícia na cabeça e levantou-se para ir buscar a fruta. Os mais velhos disseram que «só podia ser uma brincadeira» e coisas do género, mas compreenderam que, efectivamente, as coisas em casa não voltariam a ser iguais.

Aproximadamente ao fim de um mês e meio, conseguiram chegar a um acordo viável: cada um trataria do seu quarto; Maria José disse-lhes que não pensava entrar nos seus quartos, que eles sabiam como os tinham. As divisões comuns – casas de banho, sala, cozinha… – repartir-se-iam segundo turnos rigorosos. As compras seriam feitas ao sábado por Maria José e o marido, mas as compras da casa, e não os caprichos de que cada um se lembrasse. Haveria só uma ementa e quem não quisesse poderia preparar outra coisa, sempre que não utilizasse a carne ou o peixe destinados para a semana (as opções eram ovos, fiambre, arroz…). Maria José faria habitualmente as máquinas da roupa, mas cada um passaria a ferro a sua. Todos poderiam trocar alguma tarefa de que não gostassem, mas para isso tinham de chegar a acordo com outra pessoa da casa.

As coisas não são «um mar de rosas» na família de Maria José, mas agora esta dispõe de um pouco mais de tempo para si e, sobretudo, tem a sensação de que amadureceu e se tornou uma pessoa mais segura.

Uma vez treinada com as pessoas de sua casa, começou o seu programa com os de «fora»: colegas de trabalho, amigos, irmãos…

De certeza que Maria José ainda disse algum sim que deveria ter sido um não, mas em geral não lhe custa defender as suas opiniões. Para ela o mais curioso foi que, longe de perder as suas amigas ou de ter um ambiente de trabalho mais sufocante, no geral, as pessoas responderam muito bem. Sente inclusive que às vezes a olham surpreendidas, mas com uma certa admiração. Há muitas maneiras de se dizer «não», o importante é começar a fazê-lo, sempre que seja esta a nossa escolha.

Quando dizer «não» nos exija o mesmo esforço que dizer «sim», nesse momento poderemos pensar que alcançámos um bom equilíbrio, mas mesmo então não devemos relaxar! Se o fizermos, ao fim de um tempo descobriremos que nos custa novamente dizer «não».

Recordemos que quando alguma coisa está instalada há muitos anos, necessitamos de muito tempo de prática intensiva para conseguirmos que esse automatismo perca força e dê espaço a outros hábitos mais salutares. Se não tomarmos essas medidas de precaução, a nossa ingenuidade irá trazer-nos vários desgostos.

Dizer sim, quando queremos dizer não, é um dos principais erros que devemos evitar na comunicação, mas não é o único.

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