A arte de dizer NÃO

María Jesús Álava Reyes
A arte de arruinar a sua própria vida
Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007
(excertos adaptados)

A arte de dizer NÃO

Às vezes pensamos que só há uma maneira de dizer NÃO e muitas pessoas fazem tudo por verbalizar este difícil monossílabo. Também podemos dizer não através da comunicação não verbal: os nossos gestos, expressões, olhares… ser-nos-ão de grande ajuda e além disso vão permitir evitar um desgaste desnecessário com um «não verbal» que pode ser-nos mais difícil. O contacto físico e, neste caso, a ausência do mesmo, também nos servirá para comunicar esse «não» de forma inequívoca. Mas sem dúvida que o «silêncio arrastado», esse silêncio que prolongamos voluntariamente depois de uma pergunta, é um indicador fantástico que antecede, prepara e facilita a negativa posterior, negativa que, às vezes, já não é necessário verbalizar.

Se nos encontrarmos fortes e seguros, inclusivamente um «sorriso mantido» constitui outro recurso de grande valor no nosso catálogo de nãos, especialmente quando esse sorriso é potenciado por uma expressão facial que indique firmeza e uns olhos que se abrem para enfatizar a mensagem.

Podemos dizer «não» com o nosso olhar, com os nossos gestos, os nossos silêncios, os nossos movimentos, os nossos olhos… inclusivamente podemos dizer «não» com as nossas costas, com a nossa falta de contacto visual, a nossa resposta muda, o nosso eloquente desinteresse…

Há muitas formas de dizer «não»; cada uma pode ser adequada num momento e contexto determinados.

Como já tínhamos indicado, a arte de dizer «não» consistirá em saber dizê-lo, de forma clara e inequívoca, mas com o menor custo emocional para quem nos deva escutar.

No entanto, há gente que abusa do «não», então este degrada-se e perde o seu significado. Por pouco que procuremos, de certeza que encontraremos múltiplos exemplos, como o pai que constantemente diz «não» aos seus filhos, o amigo que sempre responde «não» às nossas sugestões, o chefe que invariavelmente diz «não» a qualquer pedido ou ideia do seus colaboradores… Se não aprendermos a dosear os nossos nãos e os repetirmos com demasiada frequência, perderão força e vão voltar-se contra nós.

Mas há um «não» tremendamente doloroso. É um «não» que se nos aferra internamente, que nos persegue sem descanso, que mina a nossa moral e arruína a nossa auto-estima: é o «não» que não fomos capazes de proferir. Esse «não» que ficou abafado dentro de nós, que se sentiu ferido pela nossa insegurança e mutilado pela nossa falta de esperança. É um «não» terrível, porque é o «não» que não dissemos.

Quando não soubermos como sacar de dentro de nós esse «não» que sentimos, o melhor será olhar para o nosso interlocutor e dizer-lhe: «Já sabes que eu gostaria de te dizer que sim, por favor, não insistas!»

Notemos como está construída esta frase; se em vez de o expressarmos desta forma tivéssemos dito: «Não insistas, por favor, já sabes que eu gostaria de te dizer que sim», o impacto causado seria muito diferente. A nossa resposta não pode começar a demonstrar debilidade («Não insistas por favor…» seria sinónimo de: «Se insistires, não saberei negar-me.»). Com esse preâmbulo estamos a dar vantagem à pessoa que nos fez o pedido.

Mas alguns poderão questionar o que ocorrerá se, apesar de termos pronunciado a frase na ordem correcta, a pessoa insistir. Nesses casos, a nossa resposta será contundente: olharemos com um semblante sério para o nosso interlocutor, sem afastar em nenhum momento o olhar e quando terminar a sua nova exposição e esperar a nossa resposta, dir-lhe-emos: «É tudo, Carlos? Ouvi-te perfeitamente, já sabes qual é a minha resposta.» Depois deixaremos de lhe prestar atenção e centrar-nos-emos ostensivamente noutra actividade. Nesse momento é importante que o chamemos pelo seu nome, pois dessa forma a nossa mensagem adquirirá mais força e determinação.

Mas algumas pessoas pensarão que se fizerem isso, inevitavelmente se sentirão culpadas. Como superar esse complexo de culpabilidade por não responder ao que nos pedem ou esperam de nós? A melhor forma é sendo conscientes de que se as pessoas gostam de nós, ou pelo menos se não pretendem manipular-nos, respeitarão a nossa decisão.

Será vital que recordemos que para nós é difícil negar alguma coisa a essas pessoas e que se o fazemos é por coerência e responsabilidade. Se dizemos «não», é porque o entendemos como mais justo. Também nos ajudará saber que nos sentiríamos mais culpados se cedêssemos por comodidade, por medo ou por impotência. Algumas frases poderão ajudar-nos, vamos dizê-las internamente, a nós próprios, com a força do nosso silêncio. Cada um encontrará as suas próprias frases, mas poderão servir-nos as seguintes:

• Seria mais fácil dizer sim, mas depois ia sentir-me muito mal.
• Faço isto porque gosto de vocês!
• Não vou falhar, não cederei.
• Quanto mais insiste, mais me dou conta de que não respeita os meus pensamentos; trata simplesmente de impor a sua opinião.
• Sei que depois vou alegrar-me por ter sido capaz de manter o meu critério.

Um exemplo ajudar-nos-á, como sempre, a ver com mais clareza como podemos dizer «não» sem que o mundo nos caia em cima.

Segue: A arte de dizer NÃO – o caso de Maria José

  • Aprender a dizer NÃO: Temos direito a dizer NÃO
  • A arte de dizer NÃO
  • A arte de dizer NÃO – o caso de Maria José
  • Criticar em vez de comunicar. Fazer juízos de valor ou juízos de intenção
  • A arte de arruinar a sua própria vida – Educar no ressentimento
  • Estratégias para nos salvarmos em situações difíceis: maus salários