Vida de urso

Vida de urso

Era um ursinho de pelúcia, acomodado no fundo de uma velha caixa de sapatos.

Não sabia há quanto tempo estava fechado, nem sabia onde se encontrava a caixa. Estaria no fundo de um armário? Estaria metido no gavetão de uma cómoda? Na cave? No sótão? Quem é que ainda se lembraria dele? O ursinho não via nada. É verdade que já só tinha um olho, mas, se não via nada, era só porque naquela caixa estava escuro como dentro de um forno.

Dentro da caixa, o ursinho também não ouvia quase nada, mesmo que esticasse ao máximo a sua única orelha. É preciso dizer que já só tinha uma orelha.

Achava que cheirava muito mal ali dentro, um cheiro esquisito, a bafio e a mofo. Em resumo, o ursinho estava muito apertado. Não podia esticar-se nem sentar-se sem que batesse nos lados ou na tampa da sua prisão de cartão. Bem tinha tentado escapar-se dali, mas não havia nada a fazer: a caixa estava muito bem atada. Tinha pedido socorro, mas ninguém o ouvia. Por isso, o ursinho de pelúcia passava a maior parte do tempo a dormir. Que outra coisa poderia ele fazer? E gostava de dormir porque sonhava muito. Sonhava frequentemente com um velho salgueiro que o tocava ao de leve com os seus ramos finos e leves como longos dedos verdes. Ou então com um esquilo que vinha buscá-lo para construírem uma cabana na floresta, uma verdadeira cabana de urso. Sonhava também com a grande sacola de um carteiro, que o levava a fazer uma grande viagem. Às vezes, também tinha sonhos maus, autênticos pesadelos: aquele da marmita amolgada ou o do porta-moedas perdido.

Para lhes escapar, tratava de acordar depressa.

Quando já não tinha vontade de dormir nem de sonhar e se aborrecia a valer na velha caixa escura, estreita e bafienta, o ursinho contava a si mesmo uma história.

Uma história que começava sempre da mesma maneira:

Era uma vez um ursinho de pelúcia prisioneiro de um rapaz muito maroto. Um dia, uma menina veio libertá-lo. Levou-o para casa, para o seu quarto. Todas as noites, depois do banho, a cheirar a sabonete de criança, a menina instalava confortavelmente o ursinho na sua almofada. Depois, pegava num grande livro de imagens e começava a ler-lhe uma história.

Era para o urso um momento de tanta felicidade que depressa adormecia, mesmo sem esperar pelo fim da história.

O ursinho gostava tanto de contar a si próprio aquela história, que já a sabia de cor. Bem gostaria de estar deitado na almofada fofinha de uma menina a cheirar a sabonete de bebé, mas nada mais podia fazer do que lamentar-se por estar encerrado naquela velha caixa de sapatos e de suspirar tristemente.

O mauzinho da história tinha mesmo existido; chamava-se Matias.

Quando conheceu Matias, o ursinho estava pousado em cima de uma mesa, no meio de toda a espécie de brinquedos novinhos em folha: havia livros, um comboio de madeira, uma bola de futebol, um caderno de imagens para pintar e um jogo de micado. O ursinho também era novo. Os olhos piscavam de malícia, levantava orgulhosamente as duas orelhas e, no pescoço, tinha uma linda fita. Matias entrara na sala como uma flecha. Tinha cabelos castanhos claros, rosto sorridente e um nariz arrebitado. O ursinho lembrava-se que trazia vestida uma camisola cor de tília. De entre todos os brinquedos que estavam em cima da mesa, escolheu logo o ursinho de pelúcia, que notara à primeira vista. Mostrou-o com entusiasmo aos amigos, convidados naquele dia para festejarem o seu quinto aniversário:

— Este é o meu amigo preferido!

Os outros perguntaram-lhe que nome iria pôr-lhe. Matias não respondeu logo. Ficou a pensar um pouco enquanto apertava ao peito, com ternura, o urso novinho em folha. Depois decidiu:

— Vai chamar-se Leo, como o meu avô.

À noite, Matias acomodou confortavelmente o ursinho na sua cama. Leo teve direito a uma almofada e a uma colcha, uma colcha que a mamã de Matias tricotara expressamente para ele. Antes de adormecer, Matias gostava muito de contar a Leo tudo o que lhe tinha acontecido naquele dia e confiava-lhe, sobretudo, todos os seus receios e medos.

Sussurrava-lhe ao ouvido, por exemplo, que tinha muito medo do fogo que ardia no fogão do quarto. No Inverno, a mãe de Matias metia tanta lenha e carvão, que o fogão que ficava vermelho. Debaixo dos cobertores, Matias e Leo transpiravam muito por causa do calor, mas também porque tinham medo de que o fogão explodisse.

Naqueles tempos, Matias e Leo eram inseparáveis. A mãe de Matias tinha de fazer para Leo as mesmas roupas que fazia para o filho, em tecido igual. Leo tinha um sabre para se defender dos assaltantes ou dos brigões que podiam atacá-lo enquanto Matias estava na escola.

Ao sábado, Matias e Leo iam muitas vezes brincar para a beira do lago. Tinham um esconderijo secreto, no meio dos juncos, num sítio onde só as libelinhas podiam vê-los. Leo deitava-se de costas com os braços cruzados debaixo da cabeça, e deixava o seu olhar perder-se no azul do céu.

Nada fazia prever que aquela felicidade tranquila iria acabar tão depressa.

Veio o sexto aniversário de Matias.

Nesse dia, ofereceram-lhe um cão. Não era um cão de pelúcia, mas um cão verdadeiro, com pêlos russos e grandes orelhas pendentes. Dava pelo nome de Nestor.

A partir daquele dia, Matias não fez mais caso de Leo. Brincava todo o dia com o palerma do cão.

— Sentado, Nestor! Dá a pata, Nestor! Ladra, agarra, vai buscar, traz cá, Nestor!

Nestor, sempre Nestor, nada mais existia para ele! Debaixo do cobertor, o ursinho tinha ciúmes e sofria.

Quando Matias estava na escola, Nestor vinha muitas vezes remexer no quarto. Claro que há muito que tinha farejado o ursinho!

Ainda bem que era demasiado pesado para saltar para cima da cama: aquele idiota tropeçava sempre nas suas próprias orelhas compridas. Uma noite, Matias convidou Nestor a dormir com ele na cama! Ao ver Leo, o cão pôs-se a rosnar e a ladrar tão alto, que o ursinho, amedrontado, quase pegava no sabre.

Para acalmar o cão, Matias atirou Leo para o fundo do armário do quarto. Ficou lá muito, muito tempo, meses, talvez.

O ursinho ouvia Nestor rosnar e ladrar, cada dia um pouco mais forte. Bem tinha entendido que o cão estava a crescer. Mas estava longe de imaginar que também Matias mudava.

Um dia, a porta do armário abriu-se bruscamente e a luz do dia quase cegou Leo:

— Olha! Então tu estás aqui? — exclamou Matias admirado, como se o ursinho se tivesse escondido ali de propósito. E, sem mais nem quê, foi puxado de baixo de um monte de camisolas e atirado ao ar, apanhado e voltado a atirar cada vez mais alto. Até teve vertigens! Acabou por aterrar no chão do corredor, perto da sapateira.

Leo, ainda um pouco tonto, ouviu os latidos furiosos de Nestor e ao mesmo tempo sentia as garras aguçadas do cão enterrarem-se-lhe na pele.

— Aqui, Nestor, traz cá o Leo! — gritou Matias. Mas Nestor não estava em dia de obedecer.

Atravessou o salão numa correria louca, precipitou-se para o terraço, depois foi para o jardim e escapou-se por entre as flores, direito à sebe coberta de espinhos.

Era demasiado para o Leo, que achou por bem desmaiar.

Quando voltou a si, uma agulha muito comprida dançava-lhe diante dos olhos e viu-se deitado no regaço da mãe de Matias.

— Matias, se voltas a fazer o que fizeste, vou castigar-te e ficas dois dias fechado no quarto! E o Nestor fica na cave. Ora vê, quase rasgou a barriga ao pobre ursinho. Eu já te tinha proibido de deixares o cão entrar no quarto!

Leo ficou muito contente ao ver que ralhavam com Matias e com o cão.

Quando ficou consertado, Matias levou-o para o quarto e pousou-o com cuidado em cima da almofada. O ursinho consolou-se por ter a cama só para ele. Para se fazer perdoar, Matias deu-lhe um grande copo de limonada que beberam os dois, mas mais o Matias…À noite, Matias confiou a Leo o seu projecto de construir uma cabana na floresta.

— Estamos combinados, podes ajudar-me, mas é segredo — murmurou-lhe Matias ao ouvido. – Um segredo que não se pode revelar a ninguém. Sobretudo ao Gilberto ou a qualquer outro do seu grupo!

Vieram as férias de Verão. Logo no primeiro dia, Matias meteu Leo na mochila e foram para a floresta. Pensara em tudo: um serrote, um machado, um martelo, uma caixa de pregos, um rolo de fio, uma garrafa de limonada e dois pãezinhos bem recheados e a cabeça de Leo a espreitar no alto da mochila. Era a primeira vez que Leo ia à floresta e ficou impressionado com os enormes troncos das árvores que pareciam subir até ao céu e com os estalidos das folhas secas debaixo dos pés de Matias.

Pelo caminho, Matias contou a Leo muitas histórias, quase todas de Índios. O ursinho já conhecia muitas delas. Eram as que lhe contava, à noite, a mãe de Matias. Estas histórias falavam de um rapazinho índio que se esforçava por se transformar num verdadeiro caçador e que tomou a peito que havia de aprender tudo: como apanhar peixes à mão, ler as pegadas no chão, caminhar sem fazer barulho e fazer fogo sem fumo. Era preciso ser sempre astuto e corajoso e nunca fazer batota.

— Mesmo perante o pior dos inimigos — concluiu Matias.

Leo ia perguntar-lhe se Gilberto e o seu grupo eram inimigos, mas a atenção dirigiu-se-lhe para o novo caminho que Matias seguia. Pairava no ar um cheiro esquisito, um cheiro a lenha cortada de fresco para queimar no Inverno. As folhas já não estalavam debaixo dos pés de Matias e as folhas das árvores em que tocavam agora eram finas e picavam como agulhas. Matias escolheu finalmente o local onde assentar arraiais. Pousou a mochila e tirou o ursinho. Atou-lhe um fio à volta da cabeça e prendeu uma pluma. Depois sentou-o em cima de um tronco e disse:

— Pareces mesmo um Índio! Tu ficas de vigia enquanto eu monto a cabana. Se o Gilberto vier, avisas-me. Não tenhas medo de gritar bem alto, percebeste?

Matias e Leo iam todos os dias brincar para a floresta; às vezes Nestor também os acompanhava. Leo já não tinha medo dele, porque era um verdadeiro Índio e os Índios não têm medo dos cães! Todos os dias ficava de guarda a vigiar Matias pelo canto do olho. É que ele dizia que queria cortar ramos muito grossos, mas Leo depressa se apercebeu de que Matias só amontoava uns ramitos pequenos e que a cabana, construída no chão, não era nem muito grande, nem muito alta. Quando a deu por acabada, Matias ficou tão contente que arrastou Leo numa desenfreada dança dos machados à volta da cabana.

No dia seguinte, Matias decidira fazer uma fogueira diante da cabana e cozinhar uma refeição. Para isso, tinha metido na mochila uma pequena marmita, alguns cubos de caldo e fósforos.

— Vamos buscar a água ao ribeiro e há plantas boas para comer por todo o lado: pinhas, framboesas, cogumelos. Vais ver que sopa deliciosa te vou preparar! — prometeu a Leo.

Este já conhecia muito bem o caminho que levava à cabana. Mantinha sempre fora da mochila a cabeça enfeitada com uma pluma de Índio, para escutar o chilrear dos pássaros e os mil pequenos ruídos da floresta.

Um estalido estranho fê-lo de repente ficar alerta. Pensou num cabrito-montês e pareceu-lhe ver sombras esconderem-se atrás das árvores.

Cabritos-monteses, é impossível — pensou ele. — Têm quatro patas e aqueles que nos seguem só têm duas.

Além disso, Matias tinha-lhe explicado que os cabritos-monteses fogem quando vêem seres humanos ou ursos. Então, quem é que estaria a segui-los ou quem é que os espiava?

Gilberto e o seu grupo, naturalmente! Leo bem tentou alertar Matias, gritando e agitando as pernas, mas ele não ouviu nada, porque estava a imaginar uma deliciosa receita de sopa de pinhas. Mal chegou à cabana, Matias sentou o ursinho num tronco e foi buscar água.

Quando Leo se viu sozinho, os seus receios confirmaram-se. Ouvia não só um leve roçar e estalidos, mas também vozes. Quando Matias regressou, trazendo com muito cuidado a marmita cheia de água, não fez caso daqueles ruídos e pôs-se imediatamente a preparar a fogueira. Leo quis preveni-lo com um grito: “Cuidado! Gilberto e o seu grupo vêm aí!”

Mas, demasiado tarde, Gilberto e o grupo já lá estavam…

— Olha, parece o Matias! — exclamou Gilberto. — O que estás a fazer? Estás a brincar aos jantarinhos? — Matias ficou tão assustado que não foi capaz de articular uma única palavra.

— Olha que bonita, a tua cabana! – continuou Gilberto. – Podemos vê-la?

Sem ter o cuidado de se baixar para entrar, Gilberto estragou-lhe alguns ramos.

Os outros três rapazes fizeram como ele e, num instante, a casa ficou reduzida a um monte de ramos partidos. Verteram a água da sopa, espalharam as pedras e calcaram a fogueira. Confiscaram o machado, o serrote, a faca e o cordel. Antes de irem embora, divertiram-se a dar pontapés na marmita.

Quando desapareceram da floresta, Matias sentou-se no chão e desatou a chorar. A SUA querida cabana! E como explicar aos pais o desaparecimento do machado, da faca, do serrote e da marmita? Leo tinha presenciado a cena com os olhos arregalados de medo. Estava tão desesperado como Matias: um dos rapazes até lhe arrancara a pluma.

De repente, Matias pôs-se de pé, pegou na mochila e partiu sem dizer palavra. Leo ouvia os passos a afastarem-se, aterrorizado com a ideia de ficar assim abandonado.

Fez-se um silêncio absoluto, depois ouviu alguém correr e Matias agarrou-o.

Leo não teve tempo de se rejubilar com o seu regresso, porque Matias disse-lhe num tom ameaçador:

— Foste tu o culpado! Não estiveste atento! Agora vais pagar-mas!

De regresso a casa, o ursinho não teve direito a pôr a cabeça fora da mochila. Matias atirara com ele lá para dentro, à mistura com tudo o que lá tinha: os fósforos, os cubos de carne e o testo da marmita. Em casa, Matias teve de ouvir os gritos da mãe, que queria saber para onde tinha ido a marmita, e os do pai, que precisava do seu material. A soluçar, acabou por contar a história da cabana e o ataque de Gilberto e do seu grupo.

— São uns vadios! — exclamou o pai que, furioso, foi buscar os objectos a casa dos pais de Gilberto.

Matias foi castigado e mandado para a cama. Sem uma palavra, atirou com o ursinho para debaixo da almofada.

Leo levou muito tempo a adormecer. A luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira acordou-o, e viu Matias escapar-se furtivamente do quarto e voltar pouco depois com a caixa de farmácia da mãe debaixo do braço. Sentou-se na cama em pijama e tirou um grande estojo do fundo da caixa.

Leo teve um mau pressentimento. Porquê aquele aparato todo?

Estaria ele ferido? Apalpou com cuidado a barriga. Não, estava tudo em ordem. Será que algum dos rapazes da quadrilha de Gilberto o ferira na cabeça ao arrancar-lhe a pluma? Mas Matias agarrou-o com brusquidão e esticou-o em cima dos joelhos:

— É a tua vez de seres castigado! — disse entre dentes. Com apreensão, Leo viu Matias abrir lentamente o estojo de farmácia. Ouviu um barulho de papel a rasgar, depois os dedos do rapazinho carregaram-lhe com toda a força no focinho. Matias estava a colar-lhe a boca com um grande pedaço de adesivo.

Matias foi arrumar o estojo de farmácia e apagou a luz. O ursinho quis gritar, mas só conseguiu lançar um pequeno grunhido. Tentou arrancar o adesivo que lhe repuxava os pêlos, mas sem sucesso, porque as patas não tinham garras. Resignado a suportar com paciência aquele mal-estar, estava quase a adormecer, quando ouviu Matias desfazer-se em lágrimas.

Está com remorsos do que fez — pensou ele. — Amanhã vai tirar-me este penso horroroso.

O dia seguinte era o primeiro dia de aulas. Matias apressou-se a ir para a escola e esqueceu-se do urso, que a mãe descobriu quando foi fazer a cama.

— Em que estado voltou a pôr o urso! — disse indignada.

Libertou Leo do adesivo e levou-o para o quarto dela. Pô-lo em cima da mesa-de-cabeceira, sempre a protestar:

— Um pouco de descanso vai fazer-te bem. Só vais voltar para aquele maroto quando ele tiver mais juízo!

A princípio, Leo sentiu-se agradecido à mãe de Matias por lhe ter dirigido a palavra. Só lamentava não ter ninguém com quem falar. Os pais de Matias vinham deitar-se tarde e apagavam logo a luz.

Saíam de manhã cedo e, até à noite, nada mais vinha perturbar o silêncio do quarto. O ursinho pensava em Matias. Dizia para consigo que teria preferido servir-lhe de bola de futebol, ou até deixar que lhe pusesse fita-cola na boca, do que continuar a aborrecer-se de morte ali no quarto dos pais. Uma noite, foi arrancado ao sono: era Matias que o levava para a cama dele.

— Quero que venhas dormir comigo — murmurava ele, encostando a cara à cabeça de Leo. — Tenho uma coisa muito importante para te contar. O ursinho ficou então a saber que Matias se tinha feito amigo de Gilberto e que agora fazia parte da sua banda.

— Vê só! — disse Matias. — No próximo Verão, vamos todos juntos construir uma nova cabana, mas agora vai ser nas árvores. Tu vais connosco para ficares de vigia. Espero que prestes mais atenção do que da outra vez.

Leo estava doido de alegria. Matias e ele ficaram acordados uma boa parte da noite a arquitectar juntos maravilhosos projectos. No dia seguinte de manhã nem ouviram o despertador. Quando a mãe veio chamar Matias, ficou muito enternecida por ver o filho a dormir, abraçado ao ursinho. A partir daquela noite, Leo ansiava pela chegada do Verão. Mas antes, foi a Páscoa. Nessa altura Matias conheceu um castor que vivia no salgueiro, atrás da casa. Todas as manhãs, o rapazinho colocava no terraço um pires cheio de avelãs onde o castor podia vir servir-se, sempre que quisesse. Um dia, este deixou de aparecer.

— Se ele te vir, talvez volte, porque tu também és um animal — disse Matias a Leo, sentando-o ao lado do pires e incumbindo-o de ficar de vigia enquanto ele estivesse na escola.

O pequeno castor continuava a não aparecer. Porém, um dia, mal Leo se sentou, uma pancadinha no ombro sobressaltou-o. Era o castor!

— Pareces um urso muito cansado! Porque não vens comigo para a floresta, em vez de ficares aqui sentado, feito palerma? És um animal do bosque como eu. Sempre que posso, volto para lá, sabes? Anda, vamos!

Leo sabia bem que os ursos vivem na floresta, Matias tinha-lhe dito, mas hesitava.

— Tenho lá muitos amigos e brincamos todos juntos – continuou o castor enquanto surripiava uma avelã. — Aqui aborrecemo-nos a valer, não achas?

Leo ficou a pensar: o castor tinha razão, ele aborrecia-se mesmo. Quando Matias acabava os deveres, ia imediatamente para casa do Gilberto, sem o levar com ele, evidentemente. O castor poderia ajudá-lo a encontrar uma árvore onde, sem esperar pelo Verão, podia começar a construir uma cabana, uma cabana de urso dos bosques a sério.

— Está bem, vou já…

Nestor, que rebolava no terraço e ladrava como um tolo, impediu Leo de acabar a frase.

— Não tenhas medo! — ia ainda acrescentar.

Tarde demais. Com um salto, o castor já tinha escapado para longe do alcance do cão. E nunca mais voltou.

Com o chegar do Verão, a tia Gertrudes, que era também a madrinha de Matias, veio passar um dia com ele. Leo gostava muito dela porque lhe falava da grande cidade onde vivia, porque usava lindos vestidos e tinha uma maneira engraçada de falar: brincava com a inversão de sílabas e palavras. Dizia, por exemplo, “nhadrima” em vez de madrinha, ou “ferro de panela” em vez de panela de ferro, ou “telacocho” em vez de chocolate. Naquele dia, ela trazia um grande chapéu de palha e um vestido às flores.

— As flores pintadas são as minhas preferidas, porque não precisam de ser regadas e nunca murcham — disse ela a rir ao Matias, que queria ver se as flores do vestido eram parecidas com as do jardim. Antes de partir, ofereceu-lhe um porta-moedas com uma nota:

— Podes comprar o que quiseres com esta nota! Agora já és uma pessoa crescida!

Matias, que até ali tinha apenas recebido umas moeditas, mostrou a nota com orgulho a Leo:

— Com isto, posso ir dez vezes ao cinema ou comprar um arco de flechas a sério! Depois vens caçar ratos comigo?

Caçar ratos! Leo até se arrepiou. Desde que Matias fazia parte do grupo de Gilberto, só falava em tiros aos pardais, caçar ratos ou brincar a meter medo às pessoas. Leo não sabia lá muito bem do que se tratava.

Em contrapartida, sabia muito bem o que Matias queria dizer quando falava em amarrar os inimigos de pés e mãos: era nele que se exercitava porque todos os rapazes têm de saber amarrar os inimigos!

De tarde, feitos os deveres, e se chovia tanto que a caça aos ratos ou o tiro aos pardais ia por água abaixo, Matias ia buscar uma corda e amarrava o urso. Atava-lhe as pernas e os braços, depois prendia-o às pernas de uma cadeira ou de uma mesa, treinando-se a dar todo o tipo de nós. Às vezes, até brincava a apanhá-lo com o laço. Claro que Matias fazia aquilo às escondidas da mãe. Mas, uma vez em que ele tinha enfaixado o pobre Leo, ela apareceu de surpresa. Atirou a toda a pressa o ursinho para cima da prateleira dos chapéus, por cima do cabide, no corredor.

Leo passou lá alguns dias, enrolado e atado ao lado das écharpes e das luvas.

Um dia, sem querer, o carteiro libertou-o. Ao entregar uma carta à mãe de Matias, prenderam-se-lhe os pés no tapete. Tropeçou e foi embater no cabide. Aquele choque projectou Leo, sempre amarrado como um chouriço, para dentro do grande saco entreaberto do carteiro. Este despediu-se sem se ter apercebido de nada. E foi assim que o ursinho foi parar aos correios. Depois do giro, quando o carteiro foi esvaziar a sacola, ficou muito surpreendido por encontrar ali um urso todo atado!

— Donde é que tu vieste? — perguntou ele intrigado. — Como é que vieste cá parar? E quem é que teve a ideia de te atar desta maneira?

Felizmente pegou logo numa tesoura e cortou as ataduras de Leo.

No dia seguinte, levou-o consigo e perguntava em todas as casas por onde passava:

— Por acaso este urso será seu? Caiu para dentro do meu saco e eu pergunto-me como é que isso poderá ter acontecido!

Naturalmente, a mãe de Matias reconheceu de imediato o ursinho do filho e ficou tão contente como espantada de o encontrar no saco do carteiro.

— Para mim, é um enigma — disse o carteiro, que lhe contou como estava atado o pobre urso quando o encontrou dentro do saco.

Esta história deixou perplexa a mãe de Matias.

Deitou o ursinho na cama do Matias, aconchegou-lhe a roupa e voltou a fechar a porta devagarinho.

Esta foi uma das últimas aventuras insólitas de Leo. Houve ainda aquele triste episódio de que guardava uma viva recordação. Aconteceu no dia em que Matias tinha perdido o porta-moedas da tia Gertrudes. Para acalmar a fúria, agarrou em Leo e arrancou-lhe uma orelha!

Entretanto, o olho que tinha sido cosido caíra porque o fio que o segurava estava puído.

O projecto da cabana em cima da árvore fora esquecido. Matias preferiu passar as férias de Verão numa colónia de férias à beira-mar. Não levou consigo o seu ursinho. O Verão custou a passar ao pobre Leo. O regresso às aulas trouxe-lhe mais uma decepção. Matias tinha agora uma nova amiga, Gabriela. Quando Matias lhe apresentou Leo, ela exclamou com ar de desdém:

— Mas, falta um olho e uma orelha ao teu velho boneco!

Matias tratou de o arrumar numa prateleira do armário, ao lado de uma série de álbuns de selos que já não lhe interessavam. Leo passou longas horas a folheá-los. Lembrava-se do carteiro e dos correios, e sonhava que a mãe de Matias decidia colar-lhe alguns selos nas costas e que despachava para longe; gostaria de ir para o país dos Índios. O seu desejo não foi atendido. Alguém deu de prenda a Matias um par de sapatos de futebol. Um dia, ao arrumar o armário, guardou Leo na caixa dos sapatos que estava vazia.

A tampa fechou sem que Leo pudesse adivinhar onde é que Matias colocava a caixa. A partir daí, o ursinho perdeu a noção do tempo.

Na caixa de calçado, o tempo parecia uma eternidade. Leo tinha apenas como ponto de referência o cheiro dos sapatos de futebol que, a pouco e pouco, se tinha transformado num cheiro a ranço e a mofo. Como todos os ursos, ele era sensível aos cheiros. Bem ouvia alguns ruídos, mesmo tendo só uma orelha, mas as vozes vinham de muito longe. Às vezes tinha a sensação de que a caixa se mexia. Não passava de um sonho mau que o arrancava ao sono; na escuridão, virava-se para o outro lado para melhor voltar a adormecer.

Um dia, as vozes tornaram-se mais próximas. Leo ouviu-as com tanta nitidez que não teve dúvida: não era um sonho, era a voz de Matias.

O ursinho ficou tão surpreendido que, ao erguer-se, bateu com a cabeça na tampa da caixa.

— Matias! — era a voz da mãe de Matias.

— Então, encontraste-o? — perguntou Matias com uma voz muito mais grave do que a de outros tempos.

— Não! Aquele maroto deve estar muito bem escondido!

A caixa dos sapatos foi levantada de repente e o ursinho foi sacudido e virado da direita para a esquerda. Um remexer de coisas e um resmungar chegaram-lhe aos ouvidos. Era a voz de Matias, agora muito próxima, que dizia:

— Se calhar, deitaste-o fora!

— Não, estou aqui, dentro desta caixa de cartão dos teus sapatos! — quis gritar o ursinho.

O cartão foi mais uma vez sacudido como por um tremor de terra. De repente, o ursinho ficou ofuscado por uma luz muito forte.

— Encontrei-o, mamã! — ouviu ele Matias a gritar.

Umas mãos fortes agarraram-no, sentiu que o atiravam ao ar, que o faziam girar sobre si, que o faziam depois descer mais devagarinho antes de o sentarem com cuidado. Lentamente, habituou-se à luz.

— Então? — disse-lhe Matias a sorrir. — Como estás? Há tanto tempo que não nos víamos. Que fizeste durante todo este tempo dentro da caixa? Dormiste? Eu bem me lembrava que te faltava um olho e uma orelha. Quando estiveres arranjadinho, tenho a certeza de que ela vai gostar de ti.

Matias olhava para o ursinho com ternura.

Leo estava admirado de ver como ele crescera. Estava um homem, agora. Quando Matias o levou para a sala de visitas, Leo perguntava-se a quem é que ele se referiria quando dizia “ela”. Devia tratar-se de uma menina.

Leo estava demasiado agitado por todas aquelas emoções para poder fazer-lhe a pergunta.

— Achas mesmo que lhe vai agradar? — perguntou Matias à mãe.

— E porque não? Tu gostaste tanto dele. Basta mandá-lo por uns dias ao restaurador de brinquedos. — Os olhos ternos de Matias e da mãe reconfortavam Leo.

De pernas bem esticadas, apreciava o conforto da posição de sentado, ele que tinha permanecido tanto tempo deitado na caixa de cartão. Sentia-se um pouco cansado, apesar de tudo. Quando Matias se despediu da mãe, levando consigo o ursinho, atravessou o jardim onde Leo reconheceu o velho salgueiro. Chegados ao carro, acomodou Leo no banco traseiro e sentou-se ao volante. O ursinho lançava olhares de espanto pelo pára-brisas ao ver os ramos das grandes árvores a voar a toda a velocidade, acima da sua cabeça.

— Se me não engano, é a primeira vez que entras num carro. Desculpa, esqueci-me de te apresentar a Sara — disse Matias, mostrando a Leo a fotografia de uma linda menina loura sorridente.

— Eu conheço-a — quis dizer Leo, mas o espanto deixara-o mudo. Sara era a rapariga da sua história, aquela com quem ele sonhara tantas vezes dentro da triste caixa do calçado.

— Sara é a minha filha — explicou Matias. — Vai fazer cinco anos dentro de um mês e tu vais ser o seu presente de aniversário!

Através dos vidros do carro, o ursinho via as nuvens a fugir cada vez mais rapidamente. Inspirou várias vezes para recordar o suave perfume de um sabonete de criança.

Martin Grzimek
Une vie d’ours tout simplement
Arles, Actes sud Junior, 1996
Texto traduzido

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