O violoncelo do Senhor O

O violoncelo do Senhor O

O violoncelo do sr. O

Estamos cercados e sob fogo inimigo.

O meu pai, como a maioria dos pais, irmãos mais velhos, e alguns avós, foi combater. As crianças e as mulheres, os velhos e os doentes, ficaram em casa, aguentando-se o melhor que podem.

Estou sempre com medo.

À noite, da minha janela, consigo ver o rasto branco do fogo no céu e o brilho laranja dos morteiros. E faço de conta que estou a ver estrelas cadentes e meteoros. As ruas da nossa cidade estão pejadas de tijolos, pó, e vidros partidos. Não temos querosene para nos aquecermos. No Inverno passado, dormimos vestidos na cozinha, junto de uma placa de metal a fazer de fogão, que o meu pai montou antes de ir embora.

Já gastámos a madeira toda. Se nada mudar até ao Inverno que vem, teremos de queimar mobília e livros para nos aquecermos. A comida escasseia, obviamente. E a água. Juntamos água da chuva em bacias e baldes, ou vamos a centros de distribuição e trazemos água para casa. Algumas pessoas transportam contentores pesados em carroças, outras fazem-no em carrinhos de mão. No Inverno, muitos usam trenós. Na semana passada, a minha mãe e eu vimos uma senhora a transportar água numa cadeira de rodas.

Todas as quartas-feiras, às quatro horas, o camião de ajuda humanitária estaciona numa rua perto da nossa zona, e fazemos fila para receber sabão, óleo, conservas e farinha. Tudo está diferente: as lojas, os carros, e os apartamentos foram destruídos. As escolas estão fechadas, quase não há electricidade e gás. Os telefones também não funcionam.

Muitas pessoas foram embora. Algumas, como a Marya, a amiga da minha mãe, ficam porque não têm para onde ir. Outras, como a minha mãe, decidiram ficar, custe o que custar. A minha mãe não suporta a ideia de o meu pai voltar e não encontrar ninguém. Quer que fiquemos aqui à espera dele.

Às vezes, suspira e diz:

— Sabes, não é a primeira vez na história que isto acontece.

Pode não ser a primeira vez que acontece, mas é a primeira vez que me acontece, a mim! Estou quase sempre zangada.

Costumo brincar com os meus amigos, debaixo da grande escadaria do nosso prédio. Às vezes, jogamos cartas, fazemos jogos de palavras, lemos livros, desenhamos, falamos. Ou imaginamo-nos a comer as coisas de que mais gostamos.

Outras vezes, não conseguimos ficar quietos e corremos pelos corredores, rindo e fazendo barulho.

É então que o Senhor O abre a porta e grita:

— Estejam calados, miúdos!

Como se os miúdos fossem uma coisa má…

Quando o camião da ajuda humanitária chega às quartas-feiras, às quatro horas, todos saem de casa. Parece uma festa, estar na rua com tanta gente ao mesmo tempo. Até o Senhor O está na fila. Contudo, nunca conversa com ninguém. Espera, tal como os outros, mas sem olhar para ninguém.

— Deve ser um filósofo — diz a minha mãe, baixinho, acenando na direcção dele.

— Um filósofo — repete a Marya, num tom trocista.

A Marya não concorda com a minha mãe e eu também não. O Senhor O não está a reflectir! Está apenas a ser desagradável. Os miúdos não gostam dele. Sempre que encontram um saco de papel vazio, rebentam-no mesmo à porta dele. Parece uma granada a explodir.

Depois rimo-nos e fugimos, imaginando o medo que ele deve sentir. Quando não está connosco na fila para o camião da ajuda humanitária, o Senhor O está a tocar violoncelo. É um violoncelo maravilhoso, um dos melhores. O meu pai, que adora música e toca harmónica, contou-me o seguinte acerca do violoncelo do Senhor O:

— O tampo e o fundo do instrumento foram fabricadas com ácer alemão, e polidos com um verniz especial feito em França. O braço do violoncelo é feito de mogno das Honduras e a escala é de ébano do Ceilão. Quanto ao arco, foi talhado numa madeira muito macia que existe no Brasil. A peça em marfim da ponta veio de África. Cooperaram pessoas de todo o mundo para fazer o violoncelo do Senhor O — disse o meu pai.

Também me contou algumas coisas sobre o músico:

— Quando era jovem, o Senhor O viajou por todo o lado e tocou nas maiores salas do mundo para centenas de pessoas. Era muito aplaudido.

Se o meu pai soubesse dos sacos de papel, ficava zangado. Mas o meu pai está longe, a lutar nas montanhas. Levou consigo roupas quentes e a harmónica. Não se sabe quando voltaremos a vê-lo!

Numa quarta-feira de tarde, a Elena e eu estávamos a brincar debaixo das escadas quando ouvimos o camião da ajuda humanitária a chegar… Mas não corremos ao seu encontro… Entretanto, ouvimos o som das pessoas a deixarem as suas casas, bem como o murmúrio de conversas e risadas. E… ouvimos o rocket a cair!

O camião ficou destruído e algumas das pessoas ficaram gravemente feridas. Mesmo que limpemos os destroços, não virá mais nenhum camião trazer-nos mantimentos: somos um alvo demasiado fácil! Teremos de andar quilómetros para conseguir arranjar alguma coisa e nada mais tornará os nossos dias diferentes uns dos outros.

Porém, na primeira quarta-feira depois do sucedido, o Senhor O, trajado a rigor, instalou-se na praça com uma cadeira e o seu violoncelo. Apertou o arco, esfregou-o com resina, e começou a tocar.

— É uma música de Bach — disse a minha mãe, com os olhos a brilhar.

É, de certeza, uma peça de música difícil, cheia de notas fortes e tranquilizadoras.

O Senhor O tocou como se estivesse no palco grandioso de uma sala de concertos, a tocar para pessoas que lhe vão atirar flores quando terminar. Tocou como se não estivesse sozinho, numa cidade sitiada, no meio de uma praça deserta, na qual nenhum camião de ajuda humanitária voltará a estacionar.

— Vão matá-lo! — exclamou a Marya, aflita.

— Não se darão ao trabalho de matar um velhote que toca violoncelo — a minha mãe tranquilizou-a.

Mas eu não estou tão certa disso, porque a música do violoncelo faz-nos sentir menos zangados e a coragem do violoncelista torna-nos menos medrosos. Se eles soubessem, quereriam acabar com esta música, que nos alimenta tanto como o camião fazia.

A partir desse dia, o senhor O passou a tocar todos os dias na praça, às quatro horas em ponto. Um dia, depois de ter começado a tocar, teve uma cãibra. Encostou o violoncelo à cadeira e abanou a perna. Ouvimos uma descarga de granadas e vimos nuvens de fumo preto. Quando este se dissipou, vimos que o músico não foi ferido. Mas tudo o que restou do violoncelo foi madeira lascada e cordas emaranhadas. “O que irá alimentar-nos agora?”, perguntei a mim própria.

No dia seguinte, encontrei um saco de papel castanho. Pequeno e amarrotado. Alisei-o o melhor que pude e coloquei-o debaixo do dicionário grande do meu pai. Ficou lá toda a noite.

Na manhã seguinte, peguei nos meus lápis de cor, que guardo numa caixa de charutos vazia. A maioria está muito gasta, mas tenho muitas cores. Devagar, para não rasgar o papel, desenhei o Senhor O, vestido de cerimónia, sentado numa cadeira a tocar violoncelo. Depois desenhei flores coloridas a caírem sobre ele.

Mal acabei, fui ao apartamento do músico. Encostei o ouvido à porta: estava tudo silencioso. Fiz deslizar o saco por debaixo da porta e desatei a correr.

Nessa mesma tarde, para surpresa de todos, o Senhor O saiu do apartamento todo aperaltado. Viu-me à janela e inclinou a cabeça num cumprimento. Do bolso do casaco tirou uma harmónica e começou a tocar, sentado na cadeira.

E todos os dias, a partir dessa data, às quatro horas da tarde, o Senhor O toca harmónica na praça. As melodias são tristes, breves e doces, em tudo diferentes das músicas grandiosas que ele tocava no violoncelo.

— Mas não deixa de ser Bach, na mesma — diz a minha mãe.

A música dá-nos alegria e a coragem do tocador de harmónica faz-nos sentir menos medrosos.

Jane Cutler; Greg Couch
The Cello of Mr. O
New York, Puffin Books, 2004
(Tradução)

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