Causa e efeito – João Melo

Causa e efeito

É confrangedor constatar que muito frequentemente, a uma sólida formação técnica e científica – paradoxalmente cada vez mais incapaz de fazer verdadeiramente felizes as pessoas – não se alia uma igualmente sólida formação ética/humana.

Crise. Crise do subprime, crise financeira, crise económica, crise social, crise global. Parece que no espaço de poucos meses o mundo começou a colapsar: falências, desemprego, burlas de proporções planetárias perpretadas por “respeitáveis” especialistas financeiros.

E perguntamo-nos: como é que estas coisas podem ser? Estas coisas não acontecem nem de repente nem por acaso. Instalada a crise, aventam-se soluções: mais (ou menos) investimento público, mais empreendedorismo, mais combate ao desemprego. Sem prejuízo da bondade destas medidas, creio que não se está exactamente a combater a verdadeira causa das coisas mas sim os seus efeitos.

Foram comportamentos, atitudes, decisões eminentemente pessoais – radicadas no facilitismo, irresponsabilidade e ganância – que, em crescendo e de uma forma tentacular, arrastaram tudo e todos a um cenário que pensávamos impossível.

Fala-se agora de mais inovação, mais exportação, mais regulação: muito bem. Arrisco a sugerir: mais formação humana, mais formação para valores.

Podem-se – com o fito nobre de sugerir modelos de sociedade que promovam o progresso das nações – ter ou não crenças religiosas, defender uns modelos políticos e rejeitarem-se outros (ou o inverso), mas há que convir que nem umas nem outros subsistem se quem os apregoa não se pautar por valores como a honradez, sinceridade, justiça, verdade e muita mas… muita humildade.

Uma sólida formação humana não torna ninguém automaticamente irrepreensível. Erramos (mais vezes do que desejaríamos), mas um homem com um ideal tem uma bússola na cabeça. E uma genuína humildade facilita a rectificação da trajectória pessoal aos primeiros sinais de desvio. Como alguém me dizia “formar, educar é chegar antes que”.

Numa época em que o progresso material e os avanços da ciência tocam níveis nunca antes alcançados, é confrangedor constatar que muito frequentemente a uma sólida formação técnica e científica – paradoxalmente cada vez mais incapaz de fazer verdadeiramente felizes as pessoas – não se alia uma igualmente sólida formação ética/humana, e assim as sociedades são inundadas com elementos claramente muito capazes de um ponto de vista estritamente profissional, mas com lacunas graves nas atitudes. E o resultado aí está. As coisas não acontecem nem de repente nem por acaso. Muita coisa boa, grande e nobre depende de que todos e cada um – a começar por mim – façam nobremente também a sua pequena parte.

João Melo

Aposta 71 – CTT
Março, 2009

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