O álcool, as drogas e o sexo entre os jovens – Pedro Afonso (médico psiquiatra)

O álcool, as drogas e o sexo entre os jovens

Um estudo recentemente publicado no BMC Public Health, realizado em nove cidades europeias (entre as quais se encontra Lisboa), englobando 1341 jovens de ambos os sexos frequentadores de locais de diversão nocturna, revela que o álcool e drogas como a cocaína, o ecstasy e a cannabis, estão a ser usadas como facilitadores e intensificadores da actividade sexual. O trabalho concluiu ainda que o uso de algumas destas substâncias está relacionado com uma maior precocidade no início da vida sexual, promiscuidade e relações sexuais desprotegidas.

 

Para além do elevado número de jovens que actualmente recorre ao álcool e drogas para melhorar a sua vida sexual, e das várias consequências que isso acarreta, julgo que este problema tem raízes mais profundas. Este fenómeno teve o seu início nos anos 60 através do movimento de contracultura, no qual o festival de música Woodstock, ocorrido em 1969 nos EUA, acaba por representar o seu apogeu. Mas se nessa altura, juntamente com o álcool, drogas e sexo, havia também uma ideologia de contestação com ideias pacifistas, uma emergência das questões ecológicas, a criação de um novo imaginário de fraternidade «rompendo com uma visão do mundo conservadora e com pouco pensamento crítico», hoje estamos perante uma ideologia vazia de conteúdos, onde prevalece o hedonismo e o individualismo. Este é um sinal inequívoco de decadência de uma sociedade.

Actualmente entre os jovens, em muitos casos, as relações afectivas tornaram-se frívolas e sem vínculos, construindo-se com a mesma facilidade com que se destroem. Além disso, na sociedade actual, propaga-se uma sexualidade epidérmica, superficial, alicerçada apenas em dois conceitos: a busca do prazer e a satisfação pessoal. Mas esta é uma concepção da sexualidade que menospreza o amor na sua dimensão mais profunda uma vez que o outro é instrumentalizado, transformado em fonte de prazer, num objecto de consumo descartável, sem que haja qualquer compromisso. As consequências são óbvias já que esta vivência da sexualidade origina vidas erráticas, insatisfeitas e infelizes.

O caminho da busca do prazer, apenas pelo prazer, é um caminho oposto ao da liberdade uma vez que o indivíduo fica refém dos seus desejos, vive preso no presente, sendo incapaz de planear o seu futuro. Esta é uma das grandes contradições da sociedade de hoje, onde se confunde liberdade com permissividade compulsiva. Neste caso, a pessoa renuncia à inteligência, a sua afectividade perde profundidade, ficando reduzida a meros impulsos. Educar os desejos é um sinal de inteligência, maturidade, e corresponde ao exercício pleno da vontade, não devendo, porém, confundir-se com repressão.

Este estudo mostra-nos que muitos destes jovens «ao optarem por escolher uma sexualidade vazia, ególatra, fácil de consumir e que não exige reflexão nem pensamento» são experientes no sexo, mas «analfabetos no amor». Na realidade, o amor verdadeiro segue um itinerário difícil que vai muito além do prazer físico e do desejo sexual. A sexualidade é positiva, mas deve ser educada para uma relação de amor estável, responsável, e apoiada num projecto de vida.

Em síntese, é falsa a ideia de que uma sexualidade livre é aquela governada pelos impulsos, transformando a pessoa num adicto de sensações. As substâncias psicoactivas acabam por se tornar num acessório desta obsessão pelo prazer imediato. Mas se os jovens portugueses crêem que o álcool e as drogas têm um sentido utilitário, aumentando-lhes a satisfação sexual, o melhor é desenganarem-se depressa porque com o passar do tempo o mais certo é perderem o desejo e ficarem impotentes.

Pedro Afonso
(Médico Psiquiatra)
Revista ORDEM DOS MÉDICOS, Janeiro 2009

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