A Ginny vai sair de casa – Kathleen Gibson

Virgínia Fisher veio viver connosco em 1966. Não era uma criança como as outras: nascera com a ajuda de um fórceps.

Após aquela violenta saída do ventre da sua mãe adolescente, e quando a cabeça deformada ficou mais próxima da forma que devia ter, foi transferida imediatamente para uma família adoptiva. Nenhum membro da família biológica queria aquela criança, recordação daquilo que deverá ter sido um acidente humilhante. Além disso, as suas capacidades mentais nunca poderiam ir além das de uma criança de 3 anos.

Nesse tempo, as pessoas como a Ginny eram chamadas atrasadas mentais. Mas, para os meus pais, Ben e Agnes Neufeld (que já não era a primeira vez que adoptavam crianças), tratava-se simplesmente de crianças que precisavam de amor. Foram várias as que vieram e mais tarde partiram, todas necessitadas de abrigo por algum tempo. Mas a Ginny ficou.

Chegada à idade de 3 anos, a Ginny corria por toda a parte! O caos colava-se a ela como uma pastilha elástica à sola de um sapato. Mal limpávamos o resultado de mais um desastre, já ela estava a provocar outro. Palrava sem parar e, quando finalmente aprendeu a falar, começou a fazer perguntas que pareciam nunca mais ter fim: «Aonde vais?» «O que estás a fazer?» «Posso ir lá fora?»

«Oh, Ginny, és tão chatinha!», respondíamos, suspirando. E assim lhe demos uma nova alcunha: Gin Chatinha.

No Verão, mal apanhava a minha mãe de costas, corria para o parque contíguo ao jardim de nossa casa, em Port Moody, na Colúmbia Britânica, Canadá. Normalmente, parava na piscina das crianças, mas, a apenas alguns metros dali, ficava o braço de mar de Burrard. A fixação dela pela água era total e, embora não soubesse nadar, não tinha o bom senso de parar sempre que a via. De braços abertos, corria pela água dentro pelo meio de crianças que chapinhavam e mães surpreendidas. A única forma de a fazermos regressar era pormo-la debaixo do braço, como uma bola de futebol, e aguentar-lhe o espernear e os gritos de protesto. Nunca consegui enfrentar os olhares arregalados e fixos das outras pessoas, sempre que me calhava a mim a pouca sorte de ter de ir buscá-la.

Por vezes, fingia que não a conhecia. «Ela não é de facto minha irmã», dizia, revirando os olhos e esperando que as pessoas percebessem que eu não tinha nada a ver com ela. Depois da escola, a minha irmã mais velha, Beverly, mudava-lhe as fraldas, limpava o que ela sujava, ia atrás dela, protegia-a e consolava-a. Ocupada a gerir uma casa cheia, a minha mãe contava com a ajuda da minha irmã mais velha.

Nas fotografias de família tiradas poucos anos depois de a Ginny ter vindo viver connosco, ela está irresistível! Uma densa massa de caracóis cor de areia após a chuva esconde a deformação da cabeça. Um dos olhos, o que tem a pupila em forma de apóstrofo, olha fixamente em frente, mas o outro (vivo e atento) procura claramente uma oportunidade para fazer traquinices. Tenho uma fotografia dela em pijama, que é uma das minhas preferidas: ela está a sorrir.

Mas a Ginny não sorria quando era altura de lavar janelas ou de aprender a tocar piano. Os rangidos do esfregar dos vidros ou o «dó-ré-mi» da escala ascendente punham-na doida de fúria e de agonia: aqueles sons deixavam-lhe os nervos em franja. E quando a nossa professora de piano nos perguntava qual a razão de ainda não termos memorizado a escala de dó, eu e a Beverly encolhíamos os ombros e dávamos as desculpas mais esfarrapadas.

Tanto eu como a Beverly casámos aos 19 anos, embora com três anos de diferença. A Ginny ficou muito triste. Quando começámos a ter bebés, ela pedia-nos para lhes pegar ao colo. Em vez disso, começámos a oferecer-lhe bonecas, e ela tornou-se a mãe mais extremosa de toda a família: dava-lhes comida, mudava-lhes regularmente a roupa, certificava-se de que estavam bem quentinhas e mandava-nos calar sempre que estávamos a fazer demasiado barulho e ela tinha «as bebés a dormir».

O final da adolescência e os primeiros anos da idade adulta da Ginny abateram-se sobre nós como uma onda gigante. Não havia sorrisos. Demasiado velha para as escolas de ensino especial que frequentara até então, passava os dias numa oficina de artes para pessoas com deficiências mentais. Mas ela detestava aquilo e tinha birras frequentes. A sua hiperactividade aumentou e os medicamentos para a controlar também.

As assistentes sociais não a compreendiam, insistindo para que ela deixasse de brincar com bonecas e salientando que agora já era uma rapariga crescida. Essa sugestão partia-lhe o coração e, quando chegava a casa depois dessas sessões de «normalização», encontrava-se sempre irritada e desafiadora. O seu temperamento, sempre imprevisível e incontrolável, tornou-se cada vez mais feio e violento. Certa vez, durante um ataque de fúria, empurrou a minha mãe pela escada abaixo.

Os médicos aumentaram bastante as doses dos medicamentos que ela tomava. Ficou com a língua presa, e as suas palavras, aquela incrível catadupa de palavras com que nos bombardeava desde que, aos 4 anos, começara a falar, tornaram-se pouco claras, distorcidas e imperceptíveis para quem não a conhecesse bem. Foi transferida para outro estabelecimento, mas tinha pânico de sair de casa todas as manhãs. A fúria e as lágrimas faziam frequentemente parte da ementa do pequeno-almoço.

Foram necessários vários anos, mas a Ginny acabou por ir ficando cada vez mais calma, embora a sua língua nunca mais se tenha desprendido completamente. A única excepção, curiosamente divertida, era quando sentia emoções fortes. Nessas alturas, as palavras saíam-lhe tão claras como a tinta preta numa página branca. «São a minha mãe e o meu pai!», exclamava por vezes quando nos visitávamos. Ou: «Deixa o piano em paz, Kaffeen», sempre que eu acidentalmente tocava uma música que incluía um «dó-ré-mi». Ao telefone, conseguia forçar um perfeito «Como está o Mindy?». O Mindy era o meu terrier de estimação, que era o seu companheiro preferido sempre que ia a minha casa.

Na idade adulta, a Ginny reagia intensamente às emoções dos outros: quando ríamos, ria com o dobro da intensidade, e se estávamos tristes, deixava-se contagiar e levava a tristeza até aos limites da histeria. Tornou-se assim o colector das angústias dos outros, recolhendo-as dentro de si e reflectindo-as para o exterior em fortes pinceladas de cores primárias.

E, por vezes, surpreendia-me: certa vez, fui passar uma temporada a casa dos meus pais para ajudar a tratar da minha mãe, que fora operada às ancas. Um dia, recebi uma chamada do meu marido dizendo-me que uma grande amiga minha morrera de repente. Fiquei de rastos. Éramos mesmo grandes amigas e não tive hipótese de me despedir.

A Ginny captou a minha tristeza com a intuição de quem nasceu para aquele tipo de coisas, e seguia-me pela casa toda. Houve uma noite em que me sentei num degrau alcatifado da sala, escurecida pela ausência de luz. De repente, lá estava a Ginny ao meu lado, colocando o braço à minha volta e encostando a cabeça ao meu ombro. «Vai correr tudo bem, Kaffeen… vai correr tudo bem.» A sua articulação era perfeita. E nessa altura chorei e senti a tentativa dela de retirar aquela dor de dentro de mim, dando-me palmadinhas carinhosas no ombro esquerdo.

Levei vários anos desde que a Ginny entrou para a nossa família até a aceitar como irmã. Mas, a certa altura do meu percurso até à idade adulta, deixei de acrescentar o «adoptiva» sempre que a apresentava como minha irmã. E ela apercebeu-se imediatamente da diferença, lembrando-me várias vezes: «Somos irmãs, não somos, Kaffeen?», ou, por vezes, um abraço, um beijo molhado e um sussurro ao ouvido: «És a minha melhor amiga!»

Uma tarde, a minha mãe telefonou-me, com a voz triste e sumida como uma corda de guitarra puxada sobre uma tábua compacta. «Amanhã, vem cá uma assistente social que quer falar comigo para se arranjar um novo lar para a Ginny.» A agonia que lhe ia na alma vibrou ao longo da distância que nos separava e, a partir do telefone dela, ecoou no meu.

Os Serviços Sociais, cientes da idade (a minha mãe tinha já 81 anos, e o meu pai, 76) e da saúde débil dos meus pais, tinham tomado a difícil decisão de que a Ginny teria de sair de lá de casa para bem de todos.

Reconhecendo que, ao cabo de 35 anos, a Ginny era realmente uma filha da família, as assistentes sociais pediram aos meus pais sugestões sobre locais para onde ela poderia ir e garantiram-lhes que nada iria ser feito precipitadamente. E eles pediram que, se possível, a Ginny fosse viver com uma família cristã, e não para um lar ou instituição.

Miraculosamente, foi encontrada uma casa que cumpria todos os requisitos por eles pedidos, e a Ginny apaixonou-se pelos seus «novos amigos» durante as visitas que lhes ia fazendo. Compreendeu que eles gostavam dela e a aceitavam, além de que tinham um cão muito simpático e enorme. No entanto, ainda não sabia a razão pela qual os via tão frequentemente.

Nesse Verão, o último que passou lá em casa, os meus pais vieram visitar-me a Saskatchewan, atravessando três províncias na sua auto-caravana. Como sempre, a Ginny veio com eles. Ao longo dos últimos nove anos, já me vinha apercebendo da mudança gradual de papéis entre ela e os meus pais: com o tempo, tornara-se uma protectora feroz de ambos e também da auto-caravana. Transformara-se também numa excelente dona de casa, ocupando-se da lavagem da louça e fazendo limpezas constantes, para além de insistir com o meu pai para que dormisse a sesta. Desenvolvera uma nova maturidade, e, nessa última visita, pareceu particularmente preocupada, como se estivesse a pressentir algo e a organizar as coisas no seu íntimo.

Quando regressaram à Colúmbia Britânica, vários meses antes da data marcada para a mudança da Ginny, uma assistente social levou-a um dia ao café e deu-lhe a notícia, garantindo-lhe, no entanto, que iria poder continuar a ir lá a casa visitar os pais sempre que quisesse, tal como nós, as suas irmãs, já fazíamos. Nessa noite, quando telefonei para lá, a Ginny pediu para falar comigo. O meu coração gelou! Sabia que poderia não a compreender. Mas as suas palavras foram claras… e de uma tristeza infinita.

«Vou-me embora, Kaffeen. Vou-me embora…» Depois, passou o telefone à minha mãe, cuja voz estava mais fininha do que a folha de um guardanapo de papel. A Ginny não jantara, coisa que nunca acontecera até então: a comida era uma coisa que a reconfortava, e nunca deixara de comer.

Fiquei preocupada, mas a facilidade com que a transição acabou por ser feita surpreendeu-nos a todos. Por vezes, quando pensava que ninguém estava a ver, a Ginny chorava em silêncio. Embora durante muito tempo tivesse sentido necessidade de informar o universo acerca dos seus sentimentos, aceitou calmamente as decisões tomadas quanto ao seu futuro. Reunindo forças que só lhe poderiam ter sido transmitidas por uma mão divina, mostrou um encanto e uma maturidade que nos surpreendeu a todos.

Antes de partir para a sua nova vida, escolheu as bonecas que queria levar para a nova casa e dispôs arrumadamente na parte superior da cama as cerca de dez que iam ficar. Depois, entrou uma última vez no seu lindo quarto e, debruçando-se sobre a cama, agarrou numa das suas bebés, abraçou-a e prometeu voltar para a ver. Não parou até ter feito o mesmo com todas as outras, dando-lhes beijos molhados na cara, dizendo-lhes que gostava muito delas e voltando a deitá-las confortavelmente para ficarem à espera do seu regresso.

Depois, a minha irmã Virgínia Fisher, uma criança-mulher extraordinária e surpreendente, sobrevivente a alguns dos desafios mais cruéis da vida, cresceu e saiu de casa dos pais. Tal como nós e todas as outras crianças!

Kathleen Gibson

Selecções do Reader’s Digest
Lisboa, Janeiro 2004

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