2. A guerra racial – a deportação (cont.)

Nicholas Stargardt

Testemunhas da guerra – As crianças no regime nazi

Lisboa, Tinta-da-China, 2007

excertos

 

1. A guerra racial – O Lebensraum – Nicholas Stargardt

 

A Deportação

A 1 de Dezembro de 1941, o SS-Sandartenführer Karl Jäger, comandante do einsatzkommando 3 da Polícia de Segurança, apresentava o relatório das actividades da sua unidade na Lituânia. Por esta altura, a «solução final da questão judaica» dos nazis ganhava forma. Jäger relatara um número total de 137 346 «judeus liquidados em pogroms e execuções», apresentando as datas e os locais de cada uma das 117 acções que os seus homens tinham levado a cabo, e, como um bom guarda-livros, especificando o «total a transportar» no final de cada página. Também tornara claro que só tinha poupado as comunidades cujo contributo para o esforço de guerra fora considerado vital para a administração civil e militar alemã. Embora parecesse que a SS tomava a dianteira nos estados bálticos e na União Soviética, no Reich outros pressionavam o führer no sentido de permitir que passassem à acção. Goebbels convencera-o finalmente a introduzir a estrela judaica no Reich a partir de 1 de Setembro de 1941, uma estigmatização pública que fazia com que os judeus ficassem com medo de enfrentar os transeuntes anónimos. Entre os gauleiter, a pressão no sentido de deportarem os seus judeus para o «leste» começara de novo a aumentar: enquanto em 1940 as objecções dos funcionários alemães na Polónia à superlotação dos guetos tinham refreado estes esforços, agora esses argumentos já não tinham qualquer validade. Os guetos de Riga, Minsk e Łodź tinham passado a ser os seus destinos imediatos, e os judeus enviados nos primeiros comboios para Riga e Minsk foram executados no espaço de dias. A 23 de Outubro foi proibida a emigração de judeus em toda a Europa ocupada. Todas as reuniões e discussões mais importantes sobre os assassínios em massa foram secretas, e julgando pela agenda para esse Outono de um dos seus arquitectos principais, Heinrich Himmler, grande parte do trabalho de fornecer instruções a outros detentores de influência, de resolução de conflitos de jurisdição e de formulação de políticas foi realizado em reuniões discretas com duas ou três pessoas.

Depois de ter convocado uma reunião do Reichstag a 11 de Dezembro para declarar guerra aos Estados Unidos, no dia seguinte Hitler emitiu um extenso comunicado aos reichsleiter e gauleiter sobre a situação geral. De acordo com as notas sobre o discurso no diário de Goebbels, o führer regressara à profecia do discurso ao Reichstag de 30 de Janeiro de 1939: «Profetizou que se os judeus fossem novamente a causa de uma guerra mundial seriam exterminados. Não se tratava de retórica. A guerra mundial está aí, e o extermínio dos judeus deve ser a sua consequência necessária.» E estava tudo dito. As palavras tinham assumido o carácter de uma fórmula fixa, repetida nas declarações públicas e privadas de Hitler. A 30 de Janeiro de 1941, relembrava ao Reichstag a sua «profecia», segundo a qual a guerra mundial significava a «destruição da raça judaica na Europa», e posteriormente continuou a reiterar este sinistro aviso em público e em privado até ter escrito o seu testamento político no bunker de Berlim.

Na conferência de Dezembro com os gauleiter tinha ficado claro que a metáfora do «extermínio» tornar-se-ia agora realidade. Depois de ter consultado o Gabinete Central de Segurança do Reich a propósito de medidas efectivas, Hans Frank deu instruções aos seus funcionários em Cracóvia sobre o que fazer com «estes 3,5 milhões de judeus» no Governo-geral. «Não os podemos executar, não os podemos envenenar», admitia, «mas vamos ter de os destruir de alguma maneira, acima de tudo no que diz respeito às medidas que serão discutidas no Reich.» Em Berlim tinham-lhe dito: «Liquidem-nos vocês!» Em Bełżec, no Governo-geral, já estavam a ser construídas instalações de gaseamento fixas sob a direcção do impiedosamente ambicioso Odilo Globočnik, um nazi vienense e chefe da polícia do distrito de Lublin. Fazendo uso dos conhecimentos da equipa agora sem trabalho que dirigira a «acção T-4» para matar os doentes psiquiátricos alemães, em Novembro, a SS aprendeu a construir e a colocar em funcionamento as suas primeiras câmaras de gás em Bełżec. Comparado com os campos da morte que construiu nos meses que se seguiram em Sobibór e Treblinka, o de Bełżec era relativamente pequeno. Porém, quando comparado com o pequeno balneário no asilo de Hadamar, com a sua capacidade para 20 a 30 doentes psiquiátricos de cada vez, Bełżec estava a ser projectado a uma escala muito maior, pelo menos suficientemente grande para o assassínio das centenas de milhares de judeus de Lublin. Mas não eram só os burocratas da SS que pensavam nestes termos. Já antes da construção do campo de Bełżec, o responsável pelas questões raciais do novo Ministério do Leste de Alfred Rosenberg escrevera ao comissário do Reich para Ostland, Hinrich Lohse, estabelecendo a mesma ligação: segundo ele, a antiga equipa da «eutanásia» podia-lhes ensinar como construir instalações de gaseamento para eliminar os judeus «inaptos» para o trabalho.

A 20 de Janeiro de 1942, Heydrich convocara uma reunião de ministros para reforçar o carácter dominante da autoridade do Gabinete Central de Segurança do Reich na «solução final». Tornava explícito o seu âmbito europeu, ao ponto de apresentar um quadro com a estimativa do número de judeus em cada país controlado pela Alemanha. Eram «mais de 11 milhões». Até as actas desta conferência no lago de Wannsee, por duas vezes reescritas e onde se falava do assassínio e do extermínio em termos de «deportação» e «repovoamento», convenceram os ministros de que nenhum judeu poderia esperar sobreviver a estas medidas, e que para os judeus «mestiços» a esterilização forçada representaria uma excepção privilegiada.

Quando, na Primavera de 1942, os comboios das deportações começaram a circular a partir da Europa Central e Ocidental directamente para os campos da morte, a escala real da operação tornar-se-ia conhecida através de muitas acções bem menos eloquentes nos locais mais recônditos do império nazi. A Polónia ocupada tornara-se no centro deste novo assassínio industrial, em parte devido à dimensão dos guetos judaicos de Łódź e de Varsóvia, em parte devido às boas ligações ferroviárias ao Ocidente e em parte porque desde o início da guerra a Polónia tinha claramente servido de laboratório assassino para a demografia racial.

Nas pequenas cidades e no campo, as crianças judias que tinham fugido à destruição dos guetos colocavam-se à mercê dos agricultores locais. Alguns tinham demasiado medo de serem descobertos e afastavam-nas, enquanto outros as acolhiam como sobrinhas ou sobrinhos, ou as exploravam como mão-de-obra barata. Outros ainda escondiam-nas, apesar do risco de serem denunciados por vizinhos ou mesmo por familiares, escavando esconderijos dentro dos seus celeiros. Nesses locais húmidos e fechados, os olhos das crianças desabituavam-se da claridade, os seus músculos atrofiavam e, pouco a pouco, sucumbiam a doenças respiratórias, se tivessem a sorte de sobreviver sem serem descobertas. De cada vez que Dawid Wulf e a mãe eram obrigados a mudar de esconderijo, ela tentava preparar o filho de sete anos para a eventualidade de serem apanhados e alvejados pelos alemães. Depois de lhe ter perguntado se doía muito, Dawid disse-lhe que queria que fossem atingidos pela mesma bala. Alguns agricultores locais e um grupo de guerrilheiros polacos tinham-se juntado para perseguir estes judeus que fugiam do gueto de Cracóvia, pelo que os novos abrigos se tornaram ainda mais escuros e secretos. Quando a mãe de Dawid lhe sugeriu que desenhasse a sua casa e o seu jardim com o céu e o Sol por cima, ele confessou-lhe que se tinha esquecido «de como eram o céu e o Sol». Em vez disso, construía abrigos, tanques, canhões e navios de guerra com o barro que encontrava à sua volta. Dawid também aprendeu a ler alemão sozinho, decorando os poemas de Heinrich Heine.

Permanecer no exterior implicava, porém, um grande risco. No distrito de Zamośč, na Polónia Central, a destruição dos guetos desencadeara aquilo que o Dr. Zygmunt Klukowski, director do hospital de Szczebrzeszyn, descrevia como uma «terrível desmoralização». Ficara horrorizado ao ver os camponeses a entregarem os judeus que se tinham tentado esconder nas aldeolas. «Uma psicose apoderou-se deles», escrevia no seu diário a 4 de Novembro de 1942, «pois imitam os alemães ao não tomarem os judeus como seres humanos, mas apenas como uma espécie de animal pernicioso que de alguma maneira tem de ser destruído, como cães com raiva ou ratazanas.» Em Bełżec, até Irena Schnitzer, de quatro anos, tinha ouvido dizer que os judeus estavam a ser mortos numa banheira cheia de gás. Pouco depois, quando a SS começou a esvaziar as aldeias polacas do distrito, os camponeses locais ficaram apavorados, pensando que também eles seriam enviados para as câmaras de gás do campo de Bełżec, mas ainda assim muitos levaram as suas carroças para as praças, bebendo enquanto esperavam pelo momento de se apoderarem das propriedades dos judeus embarcados nos comboios.

As crianças não eram alheias a estas cenas. A 1 de Agosto, Wanda Przybylska encontrava-se novamente de férias em Anin quando ouviu o som de tiros à distância. Dando seguimento ao seu diário antes de se voltar a debruçar sobre os dois poemas acerca do Outono e da nostalgia em que trabalhava, a menina de 12 anos registara que o som provinha dos comboios de deportação dos judeus. Tudo parecia longínquo. Contudo, duas semanas mais tarde, Wanda e a família tiveram de mudar de comboio em Falenica quando voltavam de Świder, um local de férias popular entre os varsovianos, para onde tinham ido nadar. No dia seguinte, destroçada com o que vira, debatia-se com as palavras para descrever as «multidões sentadas sem se mexerem, ao sol», «todos os cadáveres», «as mães a abraçar os seus bebés». Sentada na varanda da casa de campo em Anin, não conseguia olhar para as estrelas. «Tudo está morto dentro de mim», escrevia. De cada vez que ouvia uma rajada de metralhadora ao longe imaginava um corpo a tombar. Todas as florestas, campos de trigo e cantos de aves que lhe tinham parecido expressar aquela vitalidade que sentia no seu íntimo aparentavam agora ter-se perdido completamente perante a barbaridade e o poder do inimigo. Durante as noites que se seguiram, ficara deitada a chorar, incapaz de explicar a si própria por que razão aquilo estava a acontecer: «Só porque são desta ou daquela nacionalidade? Porque são judeus? Porque não se parecem com eles?»

Com pouco mais com que se entreter, algumas crianças ansiavam por desempenhar um papel activo no processo. Quando um grupo de rapazes avistou Izak Klajman, de dez anos, a caminhar ao longo da margem do rio nas proximidades de Będzin, três deles agarraram-no, tiraram-lhe as calças para ver se era circuncidado e começaram a gritar: «Judeu! Judeu! Judeu!» Em seguida torceram-lhe os braços atrás das costas e começaram a deliberar se o deviam afogar ou entregar à polícia alemã. Izak teve sorte. Conseguiu libertar-se e uma mulher que conhecera o seu pai acolheu-o. Depois de ela se ter queixado aos pais dos rapazes e de estes lhes terem batido pelo que tinham feito, deixaram-no em paz. Neste emaranhado de vizinhos polacos generosos e maus, corajosos e assustados, solidários e anti-semitas, as crianças estavam menos ligadas aos judeus que a geração dos seus pais. Tinham crescido durante a ocupação alemã, e tanto no campo como na cidade também tinham, aparentemente, aprendido mais depressa as novas regras de perseguir, atormentar e denunciar as crianças judias.

Logo pela manhã do dia 8 de Março, 3732 sobreviventes do transporte original de Setembro foram levados para o recinto vedado com arame farpado do campo de quarentena próximo, onde foram mantidos à espera, até à noite. Otto Dov Kulka, que tinha cantado no coro da Branca de Neve, foi um dos doentes que a SS deixou para trás, para manter a ilusão de que o transporte se destinava aos campos de trabalho. Das janelas da enfermaria dos doentes, Kulka vira as centenas de camiões que tinham chegado naquela noite para recolher o resto do transporte. Sob uma chuva de pancadaria da SS, os homens e as mulheres foram separados e subiram para os camiões ainda agarrados às rações especiais de comida que lhes tinham sido fornecidas para a viagem. As portas traseiras foram fechadas e baixaram-se as lonas para que as pessoas não vissem para onde iam.

Na manha seguinte, os que tinham permanecido no «campo das famílias» souberam o que tinha acontecido durante a noite. Os electricistas e outros prisioneiros cujas competências lhes permitiam deslocar-se pelos subcampos de Birkenau trouxeram a mensagem proveniente do sonderkommando, uma vez que alguns membros deste sentiam afinidade pelo «campo das famílias». Filip Müller, um judeu eslovaco de Sered, chegou a deixar o seu posto, na sala de cremação por cima da câmara de gás subterrânea, para se introduzir nela e se juntar às mulheres. Sentira-se atraído pelo som do seu canto enquanto esperavam, durante um período de tempo que parecia uma eternidade, que todos os camiões fossem descarregados e as portas fechadas.

Enquanto tentava não ser visto perto de um pilar de cimento, Müller foi confrontado com uma criança que procurava pela mãe naquele lugar apinhado e mal iluminado. «Sabe onde é que o meu papá e a minha mamã estão escondidos?», perguntava o menino com timidez. O canto deixou de se ouvir durante algum tempo. Estando a sala ainda a ser cheia, um grupo de raparigas checoslovacas reconheceram Müller pelo uniforme do sonderkommando que ainda usava. Müller recordou que foram ter com ele e lhe disseram para não ficar ali. Uma delas, de longos cabelos negros e olhos brilhantes, suplicou-lhe que contasse o que tinha acontecido aos que tinham ficado no «campo das famílias», para que pudessem lutar contra a SS. Também lhe pediu que depois de morrer levasse o fio de ouro que tinha ao pescoço ao seu namorado Sasha, da padaria. «Diga-lhe: “Com muito amor, da Jana”. Quando tudo acabar estarei aqui», concluía, apontando para o pilar onde Müller se encontrava. Quando foi lançado para fora da câmara de gás, Müller foi derrubado e agredido por um dos oficiais da SS para quem trabalhava antes de ser reenviado para o seu posto de trabalho nos fornos.

Depois de tudo acabar e de terem sido ligados os ventiladores, Müller teve de voltar à câmara de gás e arrastar os cadáveres para o elevador, para poderem ser queimados no crematório acima. Como as portas não estavam trancadas, a camada superior dos cadáveres empilhados contra elas tombava para o corredor. Filip Müller tinha assistido muitas vezes a esta cena durante os 23 meses anteriores. Através dos óculos da máscara de gás que usava para proteger os olhos e os pulmões das bolsas de gás concentrado por entre as pilhas de corpos, pudera ver o que acontecia quando as luzes eram apagadas e o gás libertado. As pessoas precipitavam-se para um lado e para o outro como se estivessem num «labirinto subterrâneo», derrubando-se umas às outras e tropeçando umas nas outras enquanto tentavam desesperadamente sugar o último oxigénio no tecto da sala. Por baixo das saídas de gás do tecto, porém, o pavimento estava praticamente vazio. As pessoas tinham-se afastado do cheiro a metaldeído queimado, evitando o gosto enjoativamente adocicado que arranhava as suas gargantas e induzia uma pressão intensa nas suas cabeças. Com as bocas cobertas de saliva e as pernas de excrementos e urina, os corpos emaranhavam-se uns nos outros em pilhas irregulares. No fundo estavam aqueles cujos pulmões tinham cedido primeiro, as crianças. Müller descobrira que os grupos eram praticamente impossíveis de desembaraçar de tão entrelaçados que estavam. Vinte anos mais tarde, recordou como alguns jaziam «abraçados, outros de mãos dadas; havia grupos de pessoas encostadas às paredes apertadas umas contra as outras como colunas de basalto». Encontrara Jana perto do pilar para onde ela tinha apontado, e colocara discretamente o seu fio de ouro no bolso. No dia seguinte deslocou-se à loja do pão e deu-o a Sasha, um sargento do Exército Vermelho de Odessa que tinha sido um dos primeiros prisioneiros de guerra soviéticos a chegar a Auschwitz, em 1941. Por ele, Filip Müller soube que Jana tinha sido enfermeira pediátrica em Praga.

 

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