A guerra racial : o Lebensraum – Nicholas Stargardt

Nicholas Stargardt

Testemunhas da guerra – As crianças no regime nazi

Lisboa, Tinta-da-China, 2007

excertos

A Guerra Racial

O Lebensraum

Enquanto os deportados para a União Soviética eram submetidos à provação da sovietização, os alemães ocupavam-se da expulsão dos polacos e judeus, com vista a «limpar» o território para depois o povoar. Invertendo a tendência de décadas de migração para as províncias de leste, os nazis concentravam-se agora em trazer colonos alemães, em especial do território controlado pelos soviéticos, para povoar os seus dois novos reichsgaue de Danzig-Prússia Ocidental, que se estendia da costa do Báltico para sul, até Bromberg e Thorn, e de Wartheland, que incluía Posen, Łódź, Kalisch e Kattowitz. Das suas comunidades com 700 anos, nos estados bálticos, 6o mil pessoas da etnia alemã foram desenraizadas e trazidas «para a sua pátria, o Reich». Outras dezenas de milhares se lhes seguiram, vindas das regiões da Volínia e Galícia, onde se falava maioritariamente polaco. Um ano depois, pessoas de etnia alemã das regiões da Bessarábia, Bukovina e Dobruja foram também trazidas para a «pátria», e muitas delas ficaram esquecidas durante meses em campos temporários alemães, enquanto esperavam que lhes fossem disponibilizadas casas, quintas e ocupações. A ocupação de edifícios existentes foi o recurso mais simples para encontrar habitações de construção sólida para os colonos. Tendo os alemães tornado bem claro que a concordata com a igreja católica só se aplicava às antigas fronteiras do Reich, muitos padres e freiras foram enviados para campos de concentração, ao passo que as unidades da SS que se tinham especializado no assassínio de doentes psiquiátricos esvaziaram os asilos.

A expulsão de polacos e judeus dos territórios anexados não era apenas obra dos homens alemães da SS, da polícia e do exército. Foram ajudados por muitas jovens recrutas das organizações femininas alemãs, por estudantes voluntárias, organizadoras da Liga das Raparigas Alemãs e por raparigas que cumpriam o seu Serviço de Trabalho do Reich obrigatório. A dirigente do Serviço de Trabalho de Danzig-Prússia Ocidental chegou até a publicar um artigo em que dizia que quatro dirigentes e 50 das raparigas sob o seu comando eram sempre recrutadas para acompanhar o mesmo número de homens da SS nas acções de repovoamento. Algumas das raparigas recebiam os colonos alemães nas estações de caminho-de-ferro, outras ajudavam a SS a expulsar polacos e posteriormente superintendiam as mulheres polacas nas operações de limpeza. Num artigo que escreveu em 1942, uma estudante alemã analisava a sua própria reacção à reunião de aldeãos polacos num barracão, levada a cabo pela SS numa dessas limpezas:

 

Simpatia para com tais criaturas? Não, limitei-me a guardar para mim mesma o horror pela existência de pessoas assim, pessoas que na sua essência são tão infinitamente estranhas e incompreensíveis para nós que não há maneira de a elas chegarmos. Pela primeira vez nas nossas vidas, pessoas cuja vida ou morte é uma questão de indiferença.

 

Melita Maschmann chegou a Posen numa noite chuvosa de Novembro de 1939. Acabada de vir de Berlim, onde tinha crescido numa família próspera e conservadora, estava ansiosa por começar a trabalhar para a Liga das Raparigas Alemãs, que se encarregava de reclamar os antigos territórios prussianos e austríacos no leste e de trazer a cultura alemã para os novos. Dominada pelo seu imponente castelo, a cidade era fria, escura e pouco convidativa. Embora lhe tivesse sido atribuído o melhor quarto da pensão onde ficou, não viu mais ninguém a não ser a nervosa e obsequiosa dona do estabelecimento, uma polaca. Ouvindo passos por trás de paredes e portas e murmúrios de vozes, a pouco e pouco foi-se apercebendo de que os outros quartos deveriam estar apinhados de gente que não aparecia. Longe de casa pela primeira vez, a rapariga de 21 anos estava assustada com o mundo que viera reclamar.

Melita recordou como os seus sentidos eram afectados pelo «cheiro muito particular a roupas ensopadas, pão bolorento, crianças sujas e perfume barato». As crianças saíam de pátios fétidos com os pés envoltos em trapos. Muitas eram pedintes. Os seus rostos e corpos visivelmente famintos povoavam os seus sonhos. Como não encontrara polacos da intelligentsia ou de classes mais altas, rapidamente Melita confirmou a sua ideia preconcebida de que os polacos — eles próprios incapazes de produzir uma classe dominante — estavam desde sempre destinados a serem dominados por outros povos. Se tivera conhecimento das execuções em massa da intelligentsia polaca que então decorriam, não o mencionou quando «fez o seu relato», no início dos anos 60. Na rua que seguia para o castelo, parava para observar as crianças que trepavam pelas pilhas de carvão, para o roubarem, nas noites de Inverno. Enquanto elas tentavam encher pequenos baldes e sacos com o precioso combustível, guardas armados procuravam afugentá-las, atirando-lhes coque ou disparando tiros de alarme. Toda a criança que fosse apanhada era devidamente espancada.

Sentindo-se abalada pelo que vira, Melita procurava apoio moral junto das suas colegas da Juventude Hitleriana e da Liga das Raparigas Alemãs. Também recordava as explicações do seu pai, nacionalista, sobre a ameaça demográfica polaca e o mapa demográfico em cores vivas que lhe tinha mostrado durante a sua infância, antes do domínio nazi. Com a sua reduzida taxa de natalidade, a Alemanha era representada por uma mancha azul onde se sentava uma menina assustada. Sobre a mancha amarela imediatamente à direita, um menino com um ar robusto arrastava-se agressivamente, de gatas, em direcção à fronteira alemã. O pai de Melita avisara-a de que um dia o menino polaco iria «passar à frente da menina». O mapa ilustrado ficara presente na sua memória, mantendo vivo «o sentimento de que os polacos eram uma ameaça para a nação alemã». Este tipo de imagens não era apenas material de propaganda nazi. Dava a conhecer um consenso nacionalista e conservador mais vasto, existente na Alemanha após a derrota do país e a perda das suas colónias do ultramar na Primeira Guerra Mundial, e segundo o qual o destino da nação residia na colonização dos territórios de leste. Enquanto Melita se esforçava por dominar as suas emoções, certificar-se-ia sempre de que nem os polacos nem as raparigas alemãs que supervisionava no seu serviço de trabalho obrigatório vislumbrariam o menor sinal de medo por detrás da sua capa de autoridade.

Quando os comboios das deportações chegavam ao outro lado dos postos fronteiriços, entre os novos limites a leste do Reich alemão e o resto da Polónia ocupada pela Alemanha, os polacos e os judeus que eles transportavam já tinham passado vários dias amontoados em vagões para transporte de mercadorias sem aquecimento. Para Zygmunt Gizella, a impressão mais forte fora a vergonha. Quando homens e mulheres eram obrigados a fazer as suas necessidades à frente das outras 38 pessoas, no vagão para transporte de gado onde seguiam, era como se todos os poderosos tabus da infância se desmoronassem à sua frente.

Ao longo do caminho, os deportados eram alojados em antigas fábricas sem aquecimento nem instalações sanitárias. Enquanto os mais aptos para trabalhar eram encaminhados para quintas e fábricas na Alemanha, as crianças eram deixadas sem camas ou cobertas, deitadas sobre pavimentos húmidos de cimento, que eram cobertos com palha durante o Inverno, por vezes durante meses a fio. Nos «campos de repovoamento» de Potulice, Posen, Thorn e Łódź, só os piolhos e as bactérias prosperavam. As crianças eram vítimas de sarampo, escarlatina, tifo e pneumonia. Segundo relatos de testemunhas oculares dirigidos ao governo polaco no exílio, «a tosse e o choro dilacerante das crianças à beira da morte eram a música habitual daqueles campos».

Em Dezembro de 1940 já tinham sido despejados neste território polaco remanescente, a que os alemães chamaram «Governo-geral», 305 mil polacos, dos quais no mil eram judeus. No final da operação, 619 mil cidadãos polacos tinham sido aí «reinstalados» para libertar espaço para os alemães. Na sua grande maioria — cerca de 435 mil — provinham de Wartheland, onde o novo gauleiter, Arthur Greiser, partilhava entusiasticamente da ideia de um povoamento radical das colónias defendida por Himmler.

No Inverno de 1939-40, estes transportes foram particularmente brutais, com os deportados a serem obrigados a entrar em comboios sem comida, água ou vestuário adequado. Um polaco que assistia enquanto as portas de um destes comboios eram finalmente abertas viu como as pessoas que rastejavam para fora caíam sobre os joelhos e começavam a comer neve. Ainda agarradas às trouxas enregeladas que tinham sido os seus filhos, as mulheres saltavam do comboio e eram obrigadas a deixá-los num dos vagões. Em Cracóvia, Dębice e Sandomierz, quando funcionários da estação abriram as portas dos comboios, depararam com toda uma série de vagões de mercadorias atulhados de crianças judias e suas mães, mortas devido ao frio. Em Fevereiro de 1940, o ambicioso Odilo Globočnik, membro da SS e chefe da polícia do distrito de Lublin, já propunha que os deportados judeus «deveriam ser deixados morrer à fome», planeando abrandar o ritmo das viagens, de modo a encorajar a «eliminação natural» durante o Inverno gelado. Enquanto isso, o general Blaskowitz escrevia a Hitler da Polónia, avisando-o de que tais cenas iam transformando a antipatia dos polacos «num imenso ódio».

O número elevadíssimo de polacos «reinstalados» à força só era ultrapassado pelo de polacos enviados para os trabalhos forçados na Alemanha. No final de Janeiro de 1941, já tinham sido enviados para a Alemanha 798 mil polacos, muitos dos quais provenientes dos territórios anexados. Enquanto todos os que eram demasiado novos, os idosos e os física e racialmente «inaptos» continuavam a ser enviados para o Governo-geral no leste, ali, o recrutamento em massa para o trabalho nas quintas e fábricas do Reich também prosseguia. Na Primavera de 1943, o governador-geral Hans Frank festejava o êxito do recrutamento forçado alemão oferecendo ao milionésimo «voluntário» um relógio de ouro antes de o seu comboio partir de Varsóvia. A ideia de Hitler, de que toda a massa de polacos deveria ser mantida no Governo-geral — como se de uma reserva indígena ou de um gigantesco campo de concentração se tratasse — para fornecer trabalho não especializado à economia alemã, estava a ser cumprida à letra.

Para os polacos, a aprendizagem da subserviência teve de ser rápida e intensiva. Embora a violência com que era imposta variasse de gau para gau e consoante se tratasse dos territórios anexados ou do Governo-geral, o objectivo geral era semelhante. Em muitos locais, os polacos e os judeus tinham de abandonar os passeios para dar lugar aos alemães. Em alguns, como em Wartheland e na Pomerânia Oriental, em Outubro de 1940 foi-lhes ordenado que descobrissem a cabeça na presença de todo o alemão fardado. Alguns funcionários passaram a andar pelas ruas equipados com pingalins e chibatas, certificando-se assim de que as novas regras de conduta estavam a ser cumpridas. Sucessivos decretos alemães proibiram que as escolas polacas ensinassem o que quer que fosse de uma maneira apropriada, incluindo gramática alemã, a menos que «os polacos conseguissem fazer-se passar por alemães». O desporto, a geografia, a história e a literatura nacional — os elementos nucleares da educação na Alemanha nazi — foram todos banidos das escolas polacas. Em Wartheland, até o ensino em polaco foi proibido. Entusiasmando-se a executar e a expulsar professores e padres polacos, as autoridades de Wartheland criaram então aulas para turmas enormes, com a duração de apenas uma a duas horas e meia diárias e dirigidas às mulheres dos agricultores e dos sargentos alemães. Para lhes ser inculcado «asseio e ordem, uma conduta respeitosa e obediência aos alemães», como as novas regras estipulavam, as crianças polacas deveriam ser ensinadas a levantar-se, ceder o lugar, sentar-se direitas na aula e em silêncio, a dar respostas rápidas e com bons modos, a manter a roupa, o cabelo, as orelhas, o pescoço e as mãos limpos, e acima de tudo a serem disciplinadas.

Muitos dos professores polacos que foram expulsos para o Governo-geral acabaram por ficar em Varsóvia, ajudando na criação do estado polaco secreto. Os maiores esforços solitários deste foram dedicados a reverter os efeitos da ocupação alemã sobre os mais jovens. Em especial, orgulhava-se de «reforçar os seus sentimentos patrióticos», principalmente por via do ensino clandestino. Em 1942, havia 150 mil alunos envolvidos em aulas suplementares, proibidas, de história nacional e geografia. A pretexto de nelas serem ministrados cursos técnicos, as escolas básicas e secundárias puderam funcionar: durante a ocupação, 65 mil alunos foram formados pelas escolas politécnicas, e milhares pelas universidades. Assistir a aulas ilegais era um motivo de excitação, ao mesmo tempo que os conhecimentos ilegais de história nacional facilitavam o acesso dos alunos às Fileiras Cinzentas dos escuteiros polacos. Os rapazes iniciavam-se na instrução militar secreta, ao passo que raparigas como Janina aprendiam rudimentos de enfermagem. Entretanto, todos se viam envolvidos numa série de tarefas de beneficência semelhantes às desempenhadas pelos seus pares alemães da Juventude Hitleriana e da Liga das Raparigas Alemãs, com a diferença crucial de que se arriscavam a ser castigados pelos alemães por as fazerem: recolher roupas e alimentos para os órfãos de 1939, fazer roupa para os bebés nascidos nas prisões e ajudar a encontrar alojamento para os que tinham sido «reinstalados» à força.

Relativamente à sociedade como um todo, as escolas polacas secretas não conseguiam minorar os danos infligidos pela ocupação alemã. Desde logo, o seu número era demasiado reduzido: a maior parte das crianças, mesmo na Varsóvia «ariana», não ia de todo à escola. Observando as crianças polacas que andavam pelas ruas, os funcionários alemães dos novos gaue ficavam preocupados com a maneira como as poderiam controlar. Em Julho de 1942, uma activista da Liga das Raparigas Alemãs escrevia à família dizendo que as crianças eram «atrevidas como tudo, ficam a olhar para nós como se nunca tivessem visto uma coisa assim». Uma das soluções que propunha era que fossem postas a trabalhar. Efectivamente, a partir de Outubro de 1941, as crianças a partir dos 12 anos foram obrigadas a inscrever-se para trabalhar nos novos gaue, e, na Primavera de 1943, em certos locais, os trabalhos forçados foram alargados às de dez anos. Em alguns distritos, todas as crianças em idade escolar — que na Polónia do período anterior à guerra ia dos sete aos 14 anos — eram obrigadas a trabalhar seis horas por dia na limpeza das ruas e dos jardins. Independentemente da sua força, da roupa que vestiam e das condições atmosféricas, por vezes iam-nas buscar directamente à escola para irem trabalhar nas pedreiras ou nas obras das estradas.

Partia-se do princípio de que as crianças alemãs vindas do «velho Reich» teriam de ocupar os seus novos lugares no seio da «raça dominante» mantendo as devidas distâncias. Durante um breve período, crianças de famílias judias da classe média, como Sonia Games, que crescera numa comunidade de etnia mista na Silésia e que fora ensinada a venerar a cultura alemã, continuaram a poder viver perto das famílias alemãs. As suas companheiras de brincadeira incluíam Anna Weiner, filha de um funcionário alemão, chegando até a ir almoçar a sua casa. Porém, quando os judeus foram obrigados a usar uma estrela amarela na parte da frente e de trás das suas roupas, Sonia lembrava-se de que «a pequena Anna deixou de bater à minha porta». E quando crianças polacas e alemãs tiveram de partilhar a mesma escola, como aconteceu em Hohensalza, já em 1942, quer o espaço interior como exterior do edifício foi dividido para «proteger» as crianças alemãs do contacto social contaminante.

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