A Viragem de 1942 (a 2ª guerra dos 30 anos)

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A VIRAGEM DE 1942

O ano de 1942, aquele em que Wiener justamente começa a propor uma «alternativa», não apenas à ciência clássica, mas à organização tradicional das sociedades, representa uma grande viragem não só na história da Segunda Guerra Mundial ou mesmo do conflito mundial que dura desde 1914, mas igualmente na história mundial. A história e a moral vão nesse ano mergulhar juntas no horror. No plano histórico, 1942 é a verdadeira viragem da «Guerra dos Trinta Anos». Esse ano é o ponto de resolução de todas as tensões acumuladas desde o princípio do século, o momento preciso em que a barbárie organizada retornará em pleno ao centro da modernidade.

A partir do Inverno de 1941-1942, a guerra torna-se, plenamente e em todos os lados, uma guerra «ideológica». Para os nazis, trata-se de uma guerra de «cruzados» contra a «barbárie» ao mesmo tempo bolchevista, judaica e asiática, uma guerra que devia ser rapidamente ganha. A guerra a Leste marcará o começo de massacres alucinantes a partir do fim de 1941. O fracasso da operação Barba Ruiva – do nome do imperador germânico, chefe da terceira cruzada, que no século XII tinha também combatido nos territórios de Leste – vai originar, segundo Arno Mayer, para além do massacre, quase sistemático em certos casos, de prisioneiros de guerra soviéticos, a aplicação do genocídio organizado contra os judeus sobre quem recai o «furor ideológico» dos nazis.

No coração do século XX, o mais moderno e o mais civilizado que a Humanidade conheceu, vemos nascer por toda a parte uma concepção a que os bárbaros mais selvagens apenas recorriam com grande parcimónia: a destruição sistemática das populações civis. É evidente que houve sempre massacres de civis, sobretudo durante essa outra guerra ideológica que foi a primeira guerra dos Trinta Anos, que devastou a Europa no século XVII. Existe, porém, desse ponto de vista, uma diferença essencial: enquanto os massacres do passado haviam conduzido à criação progressiva de barreiras jurídicas e morais, a fim de os limitar e situar, afinal, à margem da lei, enquanto esses massacres eram sempre limitados no tempo, os assassinatos colectivos do século xx implicaram uma dissolução consciente e organizada dessas barreiras que nada poderia deter se a guerra não tivesse acabado.

O ano de 1942 marca uma mudança global das condições em que o conjunto dos protagonistas conduzem as operações militares. Arrastados no imenso turbilhão da violência desencadeada pelos nazis, os Aliados tomam nessa altura uma decisão «técnica» aparentemente sem interesse, mas que terá importantes repercussões no plano humano e no plano ético, mesmo ainda hoje: o uso da força aérea directamente contra as populações civis.

A brutalidade e a política mortífera dos nazis perante as populações civis não tinham nenhuma justificação técnica ou estratégica, tendo mesmo mobilizado certas forças e recursos que, do seu ponto de vista, teriam sido mais úteis ao combate, já que a estratégia dos nazis é dominada por uma exacerbada ideologia de exclusão. A brutalidade da utilização das forças aéreas dos países democráticos contra as populações civis da Alemanha e dos países ocupados ou dominados pelos nazis não tinha qualquer justificação técnica ou estratégica, mas testemunha, de facto, que os Aliados, sobretudo anglo-americanos, não estavam protegidos da tentação de pôr em prática um estratégia que visasse considerar deliberadamente o civil como um alvo de guerra legítimo. Essa estratégia conduzirá, juntamente com a utilização massiva da ciência, aos bombardeamentos da Hiroshima e de Nagasaki, que talvez nunca tivessem acontecido se não estivessem inseridos numa política de conjunto.

O furor ideológico que levou ao genocídio não é em nada comparável à política racional dos Aliados que decidem sobre o emprego de armas contra os civis por razões de «eficácia militar». Tudo isso, porém, intervém num contexto global em que a degradação das condições morais e sobretudo do valor do homem leva a legitimar todos os excessos. Como se chegou a isso, em meados do século XX? Como se pode verificar esse processo de afundamento de valores, sobretudo daqueles que desabrocharam no século das Luzes? Por que razões, como se interroga Steiner, «as tradições e os modelos de conduta humanistas não serviram de barreira à selvajaria política»?

Segue

  • O Afundamento de Valores
  • A Lutra contra a Moral
  • A Especificidade da Barbárie Moderna
  • O Crime em Segredo
  • A Degradação da Moral
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