A Lutra contra a Moral (a 2ª guerra dos 30 anos)

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A LUTA CONTRA A MORAL

A desconstrução da moral que se anuncia no século XX é, com efeito, preparada, no plano teórico e filosófico, por duas ideias que têm grande sucesso no século anterior: o darwinismo social e a nova representação do homem construída por Nietzsche. O darwinismo social fornece durante muito tempo um quadro fundamental para pensar as relações sociais. Como na Natureza em que, graças a um processo de selecção, apenas sobrevivem as espécies mais fortes e as mais adaptadas, a sociedade seria, também ela, um lugar de selecção das «espécies» mais adaptadas.

O eugenismo e a sua preocupação com a perfectibilidade do homem vai articular-se particularmente bem com essa teoria. O darwinismo fascina ao mesmo tempo os ideólogos do liberalismo, que nele encontram os propósitos de Hobbes, os conservadores mais arreigados aos valores feudais e os próprios revolucionários (Marx e Engels não escondiam a sua admiração por essa interpretação da História).

O sucesso do darwinismo social deve-se, em parte, ao seu sincretismo que é um dos pontos de aproximação com as ideologias de exclusão. Ele é também, como observa Arno Mayer, ao mesmo tempo «uma ciência e uma crença», constituindo igualmente um ponto em que se procura fundir a cultura na Natureza, confusão que comporta sempre alguns perigos. É talvez por causa dessa síntese que o darwinismo social contribui de forma mais significativa para uma visão do mundo em que a moral pode ser facilmente excluída, porque não conforme às leis naturais.

Um outro ataque directo contra a moral provém de Nietzsche, no século XIX. A visão do mundo que ele nos propõe, como se sabe, divide irremediavelmente a Humanidade em dois planos: de um lado, os fortes, os senhores e, do outro lado, os fracos, os escravos. O sentido da História, para ele, é evidente: houve, num dado momento, uma mudança de perspectiva e os fracos tomaram o poder. Um dos seus instrumentos privilegiados, sobretudo graças à religião, é ao mesmo tempo a «moral», que não é mais do que a apologia dos pobres, dos fracos, dos miseráveis, e a «cultura», cujo objectivo é «extrair do homem-fera um animal domesticado e civilizado.»

O mundo de Nietzsche é, pois, claramente dicotómico e o seu apelo à destruição da moral – «perigosa por excelência» – faz-se em referência a um passado histórico que nos descreve assim: «Os Celtas eram uma raça absolutamente loira; quanto a essas zonas de população com cabelos essencialmente escuros, que se observa nas cartas etnográficas da Alemanha, feitas com algum cuidado, tem-lhes sido erradamente atribuída uma origem céltica e uma mistura de sangue celta (…), sendo antes uma população pré-ariana da Alemanha que se espalhou por essas regiões. A mesma observação se aplica a toda a Europa: de facto, a raça submetida acabou por retomar a sua preponderância, com a sua cor, a forma reduzida do seu crânio e talvez até os instintos intelectuais e sociais». Nietzsche contribui, pois, claramente para definir um novo mapa da Humanidade, excluindo das fronteiras do humano aqueles que dela não merecem fazer parte. Com a leitura destas linhas, compreendemos melhor, sem nenhuma ambiguidade, a atracção de Hitler pelo filósofo do «super-homem», Hitler que censurava aos judeus, percebemos agora melhor porquê, terem «inventado a consciência».

Segue:

  • A Especificidade da Barbárie Moderna
  • O Crime em Segredo
  • A Degradação da Moral
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