A Especificidade da Barbárie Moderna (a 2ª guerra dos 30 anos)

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A ESPECIFICIDADE DA BARBÁRIE MODERNA

Qualquer que seja a importância assumida pelo «homem de Nietzsche» ou pelas teorias saídas do darwinismo social nas representações do homem que vão dominar no século XX, não se poderia ver nelas, é evidente, a única causa do regresso à barbárie que caracterizará esse período. Sem a guerra, essas representações do homem baseadas no racismo e na exclusão nunca seriam actualizadas. Todavia, não terá a própria guerra sido, ela também, um produto dessas concepções claramente antimodernistas e reaccionárias? Como afirmava, apesar de tudo, Hegel na sua apologia do Estado, «esperar que a guerra seja para sempre banida do mundo é absurdo e profundamente imoral. Uma tal hipótese provocaria a atrofia de inúmeras forças essenciais e sublimes da alma humana». E a isso mesmo Nietzsche responderá, aliás como eco, em Assim falava Zaratustra: «Pretendem que uma boa causa santifique a própria guerra? Então eu lhes digo: é a boa guerra que santifica qualquer causa».

A guerra que marca os meados do século xx não é uma guerra como as outras. O genocídio que constitui o centro simbólico não é um acontecimento independente das condições ideológicas em que o conflito se desenrola. Essas condições foram preparadas pela desconstrução da moral comprometida desde há um século.

Como é que esse mecanismo moderno da barbárie entra em acção? Esse movimento vai resultar de uma economia muito particular: poder-se-á, com efeito, compreender a barbárie contemporânea se ignorarmos que cada movimento de afastamento, cada exclusão e mesmo cada crime foi vivido por aquele que o cometeu ou o ordenou como um «benefício»? O crime em tal contexto ideológico não é um reduto, mas sim um acréscimo e uma construção, uma pedra a mais na edificação de uma sociedade «melhor», porque «purificada». Uma das especificidades da barbárie moderna é, pois, a sua articulação com um projecto positivo trazido pela política.

E apenas isso explica o encarniçamento que, até ao esgotamento, subjaz aos grandes massacres colectivos que assinalam o século xx. A barbárie moderna sofreu uma curiosa inversão: vive a sua acção como uma contribuição para um progresso em que a barbárie «clássica» era um apelo o crime puro e gratuito, ao desencadear dos instintos mais selvagens. A temática anti-semita dos nazis é clara sobre esse aspecto, incluindo mesmo o frenesim para prosseguir no genocídio quando sabiam estar já a batalha perdida no plano militar. Freddy Raphael observa, a propósito do extermínio dos doentes mentais na Alemanha nos anos quarenta – aqueles que os nazis consideravam como «existências sem vida» – que os serviços «competentes» tinham sido incumbidos de elaborar uma estatística das economias em numerário e em víveres realizadas graças às «desinfecções».

Lembremos a este respeito que as categorias de doentes assim assassinadas compreendiam, para além dos que eram abrangidos pela legislação racista, os sujeitos «arianos» considerados como doentes mentais, incluindo as pessoas que haviam perdido a razão durante os bombardeamentos. Isso demonstra até que ponto a fronteira da Humanidade pode deslocar-se e, sobretudo, como o crime pode adquirir um valor positivo em tal sistema. A barbárie moderna tem a particularidade, ou se se quiser a originalidade, de ser entendida, mesmo por aqueles que a colocam em prática, como um meio destinado a introduzir uma mudança para uma sociedade melhor, «purificada». É isso, sem dúvida, que torna tão difícil a compreensão desse fenómeno.

O genocídio não releva da loucura dos homens, mas é a aplicação consciente de um plano cujas raízes se devem procurar na tentativa de retorno, sob diferentes formas, a representações pré-modernas do homem. A barbárie contemporânea tem mais do que uma especificidade. Longe de ser, como todos os fenómenos do passado que se lhe aparentavam – e nada tinham a invejar-lhe em termos de violência –, uma violência generalizada e pública, alimentando-se muitas vezes da sua própria publicidade, a barbárie contemporânea exerce-se no seio de ilhotas bem delimitadas, definidas por um ambiente que, no seu conjunto, permaneceu civilizado e organizado. O segredo que envolve e encobre, com um espesso manto de silêncio, essas ilhotas genocidiárias é, sem dúvida, um dado essencial para compreender os efeitos subterrâneos que provocará essa ruptura da ligação social com a sociedade do pós-guerra. Não mais se poderá compreender a atracção que o problema da transparência na comunicação terá depois, se se não recordar antes a importância da conivência que se estabelece entre o segredo e a barbárie moderna.

Segue:

  • O Crime em Segredo
  • A Degradação da Moral
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