A Degradação da Moral (a 2ª guerra dos 30 anos)

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A DEGRADAÇÃO GERAL DA MORAL

Enquanto genocídio cometido no maior segredo, o massacre dos judeus, acompanhado pelo das «pessoas em viagem», não tem nenhum antecedente histórico. Qualquer tentativa de comparação ou de explicação do genocídio através de «modelos» anteriores contribui para acentuar a sua singularidade. Sabemos que certos historiadores alemães, na sequência de Noite, viram no Gulag soviético um «precedente lógico e factual» do genocídio que seria, assim, «uma reacção, ela mesma fruto da angústia, suscitada pelos actos de extermínio cometidos pela Revolução Russa». Heidegger, por sua vez, defende que os campos de concentração e a bomba atómica derivam da mesma categoria de análise. Outros, enfim, justificam o genocídio pelos «crimes de guerra» cometidos pelos Aliados, sobretudo na altura dos bombardeamentos aéreos, de acordo, aliás, com o sistema de defesa dos nazis no processo de Nuremberga. A existência dessas tentativas suspeitas não deve, contudo, mascarar este facto irredutível: o movimento geral de degradação das condições morais e humanas nas quais o conflito evolui e que não é alheio à emergência e depois ao sucesso, no pós-guerra, de uma nova representação do homem. Este movimento geral implica certos actos bárbaros cometidos por colectivos humanos diferentes – os nazis, os comunistas soviéticos, os Aliados -, mas essas práticas não se explicam umas pelas outras (como tentaram dizer os nazis no processo de Nuremberga ou, actualmente, Noite) e o genocídio dos judeus tem o estatuto de uma singularidade absoluta.

O sobressalto de 1942, deste ponto de vista, foi preparado em profundidade pela mudança de natureza operada no conflito de 1914-1918, em que, em ruptura com as tradições que pretendiam que apenas se opusessem entre si escassas unidades de militares profissionais, algumas dezenas de milhões de civis, em uniforme, foram enviados para a frente para aí serem massacrados uns pelos outros. A mudança de estatuto do «civil» nos conflitos modernos, corresponde, sem dúvida, a uma mutação importante nas representações do homem. Os crimes cometidos durante a guerra civil russa, depois da revolução de 1917 e a seguir sob a ditadura estalinista, tinham alargado esse caminho. A atitude dos comunistas contra aqueles que eram «excluídos da História» viria a fazer milhões de vítimas, não por um genocídio cometido em segredo, mas através de uma repressão implacável, utilizada publicamente como meio de governar pelo terror.

Deste modo, 1942 corresponde a um acréscimo da brutalidade do conflito tal como tinha sido travado pelos Aliados. Uma verdadeira «revolução moral» intervém nessa época: todas as concepções de base humanista que haviam sido desenvolvidas, defendidas e apoiadas – mesmo ao nível dos governos – a propósito do comportamento a adoptar perante os civis que viviam nos países inimigos, vão afundar-se. A reviravolta moral que vai seguir-se representará um papel importante no empenhamento dos cientistas e dos engenheiros em favor de uma outra utilização do saber. O lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki – que precipita esse afundamento de determinados valores – é o prolongamento de uma lógica que começa com a aceitação da «teoria» do bombardeamento por zonas. Essa «teoria» constitui, sem dúvida, por meio de uma modificação insensível, uma verdadeira ruptura no comportamento moral daqueles que conduziram a guerra pelo lado dos Aliados, certamente mais importante do que a utilização do nuclear propriamente dito, que foi apenas uma consequência.

A prática do bombardeamento aéreo das cidades, com vista a atingir deliberadamente objectivos civis, é inaugurada durante a guerra civil espanhola, em Guernica, pela aviação fascista ao serviço de Franco. Essa prática é logo imediata e vigorosamente condenada pelas democracias. O presidente Roosevelt comparou-a, em 1939, a um acto «bárbaro», suplicando às duas partes que renunciassem a isso. Os nazis, em Roterdão e depois quando da batalha de Londres, voltaram a utilizar obstinadamente a aviação nos meios urbanos. Os bombardeamentos deliberados de civis são, pois, até aí, o exemplo típico da «barbárie fascista». Quando em 1941, depois de analisada a eficácia dos bombardeamentos ingleses sobre a Alemanha, ficou claro que a margem de erro dos pilotos em relação ao objectivo era de dez quilómetros, Churchill ordenou logo a suspensão dos raides sobre a Alemanha

Estes seriam, todavia, retomados em 14 de Fevereiro de 1942, sob o impulso do próprio conselheiro científico de Churchill, Frederick Lindermann, futuro instigador da política nuclear na Inglaterra. Os pilotos da RAF vêem-se, então, incumbidos de um novo objectivo sistemático: «minar o moral do inimigo» graças a bombardeamentos de zona e, depois, ao emprego de técnicas que permite incendiar rápida e sistematicamente bairros inteiros nos centros das cidades. A Us Air Force retomará, à sua maneira, essa estratégia, elevando-a a uma dimensão industrial inigualada, dado que o bombardeamento de algumas cidades alemãs e japonesas escolhidas para destruir o «moral do inimigo», fará, através de algumas ofensivas de bombardeiros, mais de meio milhão de vítimas civis.

Esta nova prática militar é o corolário da escalada em força de um novo ramo militar, a aviação, cujo papel foi progressivamente privilegiado em detrimento das outras armas. Todavia, para lá da querela entre os diferentes ramos, há evidentemente outros jogos. Os militares da aviação constituem uma elite técnica e científica que acalenta, no fim da guerra e a partir dos começos da guerra fria, a esperança, apoiada e largamente sustentada pela corrente isolacionista americana, de que de futuro as guerras se possam travar à distância. «A existência da civilização», declaram então, os chefes da Us Air Force, está, de futuro, submetida, «à vontade e ao bom-senso dos homens que controlam a utilização da força aérea».

Toda a estratégia nuclear que vai seguir-se, em particular com a criação, em 1948, do Strategic Air Command (a aviação nuclear), inspira-se nessas premissas. O preço desta «eficácia» militar política é, evidentemente, a continuação da ruptura ética que se produziu em 1942, dado que o número de vítimas civis inocentes passa a ser planificado e utilizado como elemento de uma estratégia militar. O primeiro plano de carácter estratégico, elaborado pelo estado-maior americano nos anos cinquenta, tinha realmente por objectivo o aniquilamento de 70 zonas urbanas soviéticas. Esse plano previa milhões de mortos e uma existência «extremamente complicada» (devido às radiações) para dezenas de milhões de sobreviventes.

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