Quando as violências nos atingem

Maryse Vaillant; Christine Laounénan
Quand les violences vous touchent
Paris, Éditions de la Martinière SA, 2004
Texto traduzido e adaptado

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 Índice: 

  • Quando as violências nos atingem
  • A fuga ou a luta
  • A violência das palavras: os insultos
  • Violência familiar – violência psicológica
  • Violência física
  • Violências sexuais
  • O que fazer quando sou vítima de uma violação?
  • A repetição das violências sofridas não é uma fatalidade
  • Violência escolar: violências das palavras e dos golpes
  • Outras formas de perseguição / Conclusão
  • Quando as violências nos atingem

    A violência faz recuar o pensamento. Fecha os olhos e os espíritos, bloqueia as iniciativas, entrava a nossa liberdade. Antes de explodir e de semear o medo abertamente, cresce e corrompe na sombra. Faz parte da nossa vida íntima, dos lugares mais recônditos da nossa alma, e acompanha-nos ao longo de toda a nossa vida.

    Na adolescência, as violências quotidianas são frequentes e vulgares. Tornar-se adolescente é uma aventura simultaneamente excitante e penosa, que transforma a nossa relação com os outros, e que abala seriamente a relação do adolescente com o seu corpo e com a sua alma. Muitos adolescentes vivem situações de tormento, que ocultam, e experimentam violências íntimas, das quais não conseguem falar. Para muitos deles, o caminho que medeia entre os problemas da puberdade e a maturidade está semeado de decepções amorosas, vexames escolares, separações parentais, solidão familiar e exclusão social.

    A violência na primeira pessoa

    Naquele dia, apressei-me, porque tinha marcado encontro com os meus amigos, a fim de passearmos pela floresta junto de nossas casas. Mal tive tempo para enfiar a mota no átrio do prédio, apareceram logo dois meliantes do meu bairro. Bateram-me com violência na cabeça e fugiram com a minha mochila.

    De repente, vi-me no chão, completamente atordoado. Estava de tal forma em choque que nem pensei em gritar, pedir socorro, ou correr atrás dos meus agressores. Senti lágrimas nos olhos, irreprimíveis. Sentia-me tão impotente face àquela violência súbita e imprevisível! Uma vez a estupefacção e o medo passados, senti a raiva invadir-me. Quem me dera poder esmagá-los ali mesmo…

    Guilherme, 15 anos

    Este acto de violência ocorreu com tal brutalidade que Guilherme foi apanhado desprevenido. Esta agressão, semelhante a um relâmpago num céu sereno, abalou-o tanto que o desestabilizou. Subjugado pelo medo, Guilherme tinha-se submetido aos seus agressores, deixando que levassem a sua mochila. Como poderia ele ter resistido, se se encontrava sozinho face a dois agressores?

    Uma vez os ladrões fugidos, Guilherme pôde sentir a repercussão física do roubo por esticão: o coração palpitante, a respiração acelerada, o estômago contraído, as pernas sem forças. Sentiu uma necessidade súbita de voltar para casa, para o seu aconchego, de chorar. Estava em estado de choque, tinha sido vítima de uma situação stressante, sentia as consequências físicas e psíquicas da agressão de que acabava de ser alvo. Esta reacção foi tão mais violenta quanto a sua resposta ao ataque foi nula. Aliás, como poderia ele ter reagido? Todas as vítimas de agressões se perguntam mais tarde se não teriam podido fazer isto ou aquilo. Uma vez a estupefacção passada, a mente reage, fazendo um inventário de todas as reacções possíveis. Mas também pode acontecer que a vítima de uma agressão se encontre incapacitada de pensar, devido à violência do choque.

    Se Guilherme tivesse respondido com violência, ter-se-ia desencadeado um luta. Com um pouco de sorte, tudo acabaria num nariz a sangrar, nalgumas roupas rasgadas. Este é o cenário preferido da pessoa que foi vítima de um ataque: lembrar-se dos golpes que poderia ter aplicado, para que o conflito ficasse resolvido ali mesmo, sem que ela fosse humilhada.

    Muitos adultos estão em desacordo com esta hipótese de resposta, porque acham que uma luta põe raramente fim a um conflito. Depois de uma primeira rixa, os vencidos podem provocar uma outra, como represália, que conduzirá a uma nova agressão, e gera-se assim uma espiral de violência.

    Mas o nosso cenário é outro: Guilherme está por terra, com o coração cheio de raiva contra os agressores, e está furioso consigo mesmo por não ter ripostado. A uma violência exterior junta-se uma interior. Guilherme acha-se um cobarde, um incapaz… Em suma, Guilherme sente-se culpado por ter sido vítima.

    O stress do agredido

    O termo “stress” foi criado nos anos 50 do século XX por um investigador canadiano, de origem húngara, chamado Hans Seyle. Seyle explicou pormenorizadamente as reacções das vítimas de agressões, que variam segundo a pessoa e a duração do stress: suores frios, fadiga, mal-estar, tensão muscular, palpitações cardíacas, problemas digestivos ou cutâneos, insónias, ansiedade, depressão.

    Estas manifestações do organismo escapam ao nosso controlo e são comandadas a partir do cérebro, através de uma glândula que se chama hipotálamo, e que funciona com um verdadeiro computador, do qual parte a ordem de reacção ao stress. O organismo responde com um aumento da produção de certas hormonas, tais como o cortisol e a adrenalina, que permitem adaptarmo-nos à agressão e reagir em conformidade. Graças a estas hormonas, podemos preparar-nos fisicamente para ultrapassar um obstáculo. Se atravessarmos a rua no momento em que um carro está a passar, as hormonas do stress despertam em nós mecanismos reflexos, como se um reclamo luminoso assinalasse o perigo. Recuamos, saltamos para o passeio para evitar o acidente, e tentamos recuperar a respiração. Sentimos calor.

    O stress, ou síndrome geral de adaptação, constitui um mecanismo de defesa. Estas reacções podem ser respostas positivas ou negativas aos acontecimentos da vida. O sucesso num exame ou o nascimento de uma irmãzinha podem ser factores de stress, tal como o são uma agressão, um insulto, ou o receio de chegar tarde a um encontro. A resposta biológica do organismo é a mesma e permite-nos reagir adequadamente ao acontecimento.

    Contudo, estas respostas dependem de cada indivíduo. Com efeito, não é a acontecimento em si que é importante, mas a maneira com o vivemos e reagimos a ele. Quando estamos mais frágeis, temos uma menor capacidade de reacção à agressão, o mesmo acontecendo em relação a uma decepção, um desgosto, ou uma angústia. As mudanças são vividas de forma diferente: não vivemos da mesma maneira uma mudança imposta, uma mudança aceite, ou uma mudança desejada. Se os nossos pais decidem mudar de casa, temos de mudar de escola. A ideia de deixar os amigos e um ambiente que nos é familiar pode constituir um factor de stress. Em contrapartida, se desejarmos muito deixar a nossa escola e fazer amigos noutra cidade, a mudança de casa não nos contrariará de todo.

    Quando se produz uma agressão, os sofrimentos do corpo e da mente variam de acordo com as pessoas. Algumas sentir-se-ão subjugadas pelo medo, enquanto que outras, mais combativas ou menos emotivas, defender-se-ão com unhas e dentes. Enquanto uns fogem e tentam esconder-se, outros atacam frontalmente ou esperam pela hora de se vingarem. O leque de reacções é vastíssimo.

    segue: A fuga ou a luta

    Retirado de: Diálogo de Gerações

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