Globalização da política – Definindo a globalização

Pablo Gentili (org.)
Globalização Excludente
Petrópolis, Ed. Vozes, 1999
Excertos adaptados

José Maria Gómez

  • Globalização da política – Mitos, realidades e dilemas
  • Globalização da política – A globalização como ideologia
  • 2. Definindo a globalização

    Ainda que a retórica apologista da globalização tenha um carácter abertamente ideológico e mistificador, não significa, entretanto, que se deva desconhecer que vários dos processos e transformações estruturais para os quais ela aponta são reais e que, como efeito desigual e combinado deles, o mundo actual se tornou cada vez mais interdependente. Afinal, um dos resultados imediatos do fim da Guerra Fria (que durante mais de quarenta anos influenciou o conjunto das relações internacionais através da pesada lógica estratégico-militar da bipolaridade entre as duas superpotências) foi pôr em evidência – e até acelerar – mudanças de diferente índole (económicas, políticas, estratégicas, tecnológicas, culturais, organizacionais, jurídicas, etc.), que se vinham sedimentando há várias décadas, no sentido duma intensificação e extensão nunca antes experimentada de interconexões entre estados e sociedades civis. O que significa um fluxo crescente de capitais, mercadorias, pessoas, ideias, valores, imagens, criminalidade, doenças, informações, conhecimentos. Ao mesmo tempo, tais desenvolvimentos de tendências centrípetas ou integradoras de alcance global tornam-se indissociáveis de outros desenvolvimentos não menos evidentes de signo contrário, como são as tendências para a fragmentação e a desintegração dentro e entre as nações. Isto é, nacionalismos étnicos, fundamentalismos religiosos, guerras civis, desigualdades crescentes entre países ricos e pobres, xenofobia e racismo, aumento da pobreza e exclusão social dos segmentos que não se inserem competitivamente no mercado global, regionalismos económicos proteccionistas, etc.

    Deste modo, pode dizer-se que globalização e fragmentação são duas faces de processos estreitamente dependentes entre si, que marcam com uma profunda incerteza o mundo do pós- Guerra Fria ao emitir sinais múltiplos, complexos e contraditórios. Por um lado, abrem-se pistas de cooperação internacional na direcção duma necessária “nova ordem global”, que, de maneira precipitada e interessada, foi até 1991 euforicamente celebrada pela comunidade internacional, em função da queda do muro de Berlim e das revoluções na Europa Central e Oriental, na expectativa de avanços do multilateralismo em matéria de segurança colectiva, comércio, desenvolvimento sustentável e promoção da democracia, direitos humanos, equidade e acção humanitária. Mas, por outro lado, tais factos causam a percepção inquietante de uma “fenomenal desordem”, sobretudo após as experiências da Guerra do Golfo, da fantástica desagregação do Leste Europeu, das atrocidades em nome da pureza étnica nos Balcãs, do genocídio no Ruanda, dos conflitos no Cáucaso, da inacção ou fracasso das Nações Unidas, do futuro enigmático duma China-potência em acelerado crescimento e transição para o capitalismo e da emergência da Bacia Ásia-Pacífico como novo epicentro da economia mundial, das sucessivas crises financeiras em vários países industrializados, da crise económica e política no México, etc..