Globalização da política – A globalização como ideologia

Pablo Gentili (org.)
Globalização Excludente
Petrópolis, Ed. Vozes, 1999

Excertos adaptados

José Maria Gómez

Globalização da política – Mitos, realidades e dilemas

1. A globalização como ideologia

Em rigor, as expressões “global”, “tecnoglobal” ou “globalização” surgem no início dos anos oitenta em prestigiadas escolas americanas de administração de empresas, tornam-se populares através das obras de conhecidos consultores de estratégia e marketing internacional, expandem-se através da imprensa económica e financeira e, rapidamente, passam a ser assimiladas pelo discurso de hegemonia neoliberal. 

As visões mais apologéticas da globalização – as que têm por destinatários as grandes multinacionais “triádicas” (originárias dos três centros do capitalismo mundial: Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão) – têm vindo a sublinhar a formidável possibilidade de lucro que se abre com a configuração definitiva duma economia mundial sem fronteiras, a oportunidade de multiplicar a capacidade de comunicação e controle em tempo real que a telemática permite e, consequentemente, a necessidade de que tais forças privadas económicas procedam à drástica reformulação das formas de gestão e da actuação estratégica à escala planetária.

A premissa da qual partem é a de que, com a criação e expansão incessante de uma economia global dominada pelas forças do mercado mundial (fundamentalmente, os mercados financeiros internacionais e as multinacionais, forças mais poderosas do que os mais poderosos Estados) se chegou ao “fim do Estado-nação” como organização territorial eficaz para a governabilidade das actividades económicas nacionais. 

Tendo em vista a extrema mobilidade dos capitais em busca de melhores vantagens, o carácter relativamente estático do trabalho e o carácter obsoleto tanto dos regimes extensivos de direitos sociais como das regulações económicas nacionais contrárias às expectativas dos mercados globais e das multinacionais, os estados nacionais tornam-se simples autoridades locais do sistema global, encarregadas da protecção, das infra-estruturas e dos bens públicos considerados essenciais pelo capital internacional. Desse modo, uma vez libertados das distorções das intervenções do Estado e dos constrangimentos da política, o livre comércio, as multinacionais e os mercados mundiais de capitais trarão consequências benéficas de prosperidade e bem-estar a todas as nações do planeta, através de investimentos, financiamento, comércio, inovação tecnológica e consumo de produtos baratos e de qualidade.

Compreende-se, assim, por que motivo essa apologia da globalização é assumida de imediato como baluarte do ultraliberalismo conservador. Hegemónico no campo político- ideológico nos países do norte industrializado, este já vinha a lançar, desde a década de setenta, uma ofensiva total contra o Estado de bem-estar, esse símbolo máximo do “capitalismo organizado” posterior à Segunda Guerra Mundial, caracterizado pela regulação económica nacional, pelo pleno emprego e crescimento sustentado, pela produção de massa estandardizada e pelo compromisso de classes através de mecanismos neocorporativistas entre empresários, sindicatos e Estado. 

Em função disto, no contexto histórico do fracasso evidente de estratégias de desenvolvimento económico centradas no intervencionismo estatal (reformismo social- democrata, desenvolvimentismo latino-americano e “socialismo real”), embora permaneçam sob silêncio, não por acaso, as estratégias bem sucedidas provenientes do Japão e de outros países asiáticos – o neoliberalismo passou a pregar, urbi et orbi, em nome da inevitabilidade dos sistemas e dos actores da globalização transnacional da economia, um conjunto de reformas económicas de “ajuste estrutural” (abertura das economias nacionais, desregulação dos mercados, flexibilização dos direitos laborais, privatização das empresas públicas, redução nos gastos sociais, controle do défice fiscal, etc.).

Em suma, uma linguagem e um projecto dominante de globalização económica que termina por se identificar com uma receita de alcance universal – ou melhor, uma política económica das relações internacionais ou um “novo constitucionalismo” – correspondente a um capitalismo globalizado, que tem por espaço natural o próprio mundo e que pretende auto- regular-se sem interferências políticas nacionais, regionais ou internacionais, com o fim de gerar benefícios para todas as nações que nele se inserem competitivamente (…)

Segue: Definindo a globalização

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