O Capuchinho Cinzento

O Capuchinho Cinzento

O que posso eu contar?

Passaritos de cristal, por que andam em volta da minha cabeça a contar uma história que eu não entendo?

A Lua a rodar na noite e a minha cabeça entontecida a escutar, a escutar. A Lua tão redonda, grande, cheia de luz, vai descansar enquanto a noite for morrendo…

Passaritos de cristal, o que têm para me dizer?

E os passaritos de cristal, a voar, a cantar:

— É a história do Capuchinho Cinzento, que foi o capuchinho vermelho da menina que levava uma merendinha à avó e encontrou um lobo mau!

— Ó delicados cantores de cristal, digam-me, cantem-me, o que aconteceu ao Capuchinho Cinzento, agora, com tanta idade?

— Lembra-se do Capuchinho Vermelho a caminhar pelo bosque verde cheio de paz? Um bosque de folhas verdes molhadas de pérolas de orvalho? Um bosque perfumado com o aroma das folhas que dançavam com o vento? Que secavam com o lume de luz que tombava dos céus?

— Ó delicados cantores de cristal, ajudem-me, tragam-me à ideia um beijo de prata do frio das águas para eu desprender. Eu só vejo a Velha de Capuchinho Cinzento muito perto, muito perto de mim. E vejo um Lobo com botas de espinheiros a caminhar, a caminhar, a caminhar…

Ai, passaritos de cristal, para onde vai a Velha de Capuchinho Cinzento?

— Irá talvez à fonte ouvir o violino da água que corre, ou vai buscar uma cantarinha de água.

A água, quando fica presa dentro da cantarinha de barro, não pode cantar. Mas mata a sede!

— Passaritos de cristal, digam-me o que eu não sei contar. Cantem! Viram um dedal brilhante no dedo da Velha de Capuchinho Cinzento?

— Ela esqueceu-se de o tirar quando veio à fonte. Estava a coser nos calções e sainhas dos netos, aqueles buracos das roupas que só as crianças sabem fazer. Levantou-se num repente e começou a andar…

— Sabem, passaritos? Eu oiço a Velha de Capuchinho Cinzento cantar! Com uma voz trémula, já um poucochinho rouca, mas entoada e doce como quando tinha o capuchinho vermelho. E ia tão contente, pelo bosque, levar a merendinha à avó. Ah! Mas agora eu continuo a ver o Lobo a caminhar, a caminhar… em direcção à Velha de Capuchinho Cinzento.

— Ela nem dá por ele, assim a cantar e já um pouco surda. E o Lobo vem devagar, manso, muito manso, para não a assustar.

— Passaritos de cristal, ajudem-me agora! Estou aflita a contar esta história. História que se passou. De verdade. E parece que quer continuar… Ó delicados passaritos de cristal, então por que é que a Velha de Capuchinho Cinzento vai à fonte? É noite ainda, e ela canta, canta e a Lua redonda dança no céu!

O Lobo avança em sua direcção. E a Velha não escuta os seus passos… Parece que o seu escutar só entende o violino da água da fonte que vai prender na cantarinha de barro. A Velha já vai ficando cansada, as pernas estão fracas, doridas de tanta idade. Então, vê uma pedra do bosque, quase escondida debaixo dos musgos que a cobrem. E ali se senta, com custo (ai, como dobrar os joelhos dói).

Senta-se, poisa a cantarinha sobre os joelhos doídos e, pouco a pouco, deixa-se adormecer.

É escuro ainda, mas quase de dia…

Bate em silêncio, o coração escondido do bosque. Só o dedal brilha no dedo do Capuchinho Cinzento, mágico e brilhante como a lágrima de uma estrela. O Lobo, devagar, devagarinho, vai chegando à pedra cheia de musgo onde a Velha descansa, adormecida. Nem uma rainha de outros tempos descansaria assim num tronco de veludos!

E o Lobo, devagar, devagarinho, chega-se mais à pedra – o Lobo, com botas de espinheiros, os olhos de luzeiros, uma bocarra enorme mostrando alguns dentes agudos, ameaçadores.

— Ai, passaritos de cristal, eu própria que estou a escrever aqui na minha mesa, dentro de casa, tenho medo. Ajudem-me. Vocês não podem espantar o Lobo, pois não?

São tão frágeis as aves, com as suas asas de penas. Aéreas… Eu sei que vocês também têm medo. Mas cantem! Não vamos deixar a Velhinha, pois não? Vejam, ela sonha e sorri, o rosto cheio de rugas debaixo do capuchinho cinzento. E segura a cantarinha entre as mãos, o dedal brilhando como uma lágrima de estrela. Dormem ainda as flores no bosque, fechadas as suas pétalas no aconchego do chão. Ergue-se lentamente o manto da madrugada.

— E o Lobo, passaritos?

— O Lobo vem, vem de manso até à Velha adormecida. E pára, deslumbrado. Os seus olhos são luzeiros de ternura! Lambe docemente as mãos que seguram a cantarinha, lambe o dedal, estrela do Sol.

A Velha de Capuchinho Cinzento estremece. Quase acorda ao sentir aquela língua áspera que lhe passa pelas mãos que seguram a cantarinha. E sorri.

Acorda devagar, olha o Lobo com os seus olhos cansados. Afaga-o, como se o Lobo fosse um cão.

O sol acaba de nascer e, em raios antigos bailando, celebra este reencontro. E beija o dedal, seu irmão de luz.

— Passaritos de cristal, digam-me se sou eu que estou a sonhar, ou se é o Capuchinho Cinzento que sonha. Delicados passaritos de cristal, são vocês que cantam a resposta a esta pergunta?

Ou é a Lua que dançou no céu?

Ou são os meninos de calções e sainhas rotas que a Avó ia coser?

Ou é a música da água dentro da cantarinha?

Ou são as flores que o Sol veio despertar?

Ou é a magia do dedal?

Cantem! Cantem! Não deixem de cantar, voar, para esta história, de claros segredos, nunca acabar…

Matilde Rosa Araújo
O Capuchinho Cinzento
Prior Velho, Paulinas Editora, 2005

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