Para um exercício de delicadeza

 

Para um exercício de delicadeza

Hoje o Carlo disse-me: «És mesmo estúpida!» Bem sei que foi uma expressão de irritação que lhe escapou: devia estar cansado do trabalho, ou qualquer coisa lhe correu mal. É verdade que eu não esperava que ele ficasse contente quando lhe disse que tinha riscado o carro ao entrar na garagem. No entanto, aquela palavra disparatada que lhe saiu da boca magoou-me muito.

Recordo-me de quando o Carlo estava apaixonado por mim – e ainda não foi há tantos anos como isso — quanta delicadeza, quantas atenções para me ver feliz; como ele era simpático. Não passava dia nenhum sem uma lembrança, uma palavra amável, a proposta de um daqueles momentos inesquecíveis em que estávamos juntos e com que depois sonhávamos durante vários dias. E que cuidado para evitar palavras grosseiras, que desvelo em pedir desculpa por cada mal-entendido, que prontidão em perdoar e em compreender todas as minhas distracções! Tenho saudades dessas delicadezas do Carlo apaixonado.

No entanto, interrogo-me: como é possível que, depois de tanta delicadeza, se possa chegar à grosseria que faz sofrer, sem sequer se dar por isso?

A grosseria é um estilo que se tem vindo a difundir e ao qual talvez nós não tenhamos oposto resistência suficiente. Se mal se liga a televisão nos despejam para dentro de casa um chorrilho de palavras vulgares, insultos ofensivos, cenas de maldade e de violência desconcertantes; se ao longo das ruas da cidade vemos sinais de degradação e de má educação… Basta um nada, a mínima falta de atenção, para desencadear num transeunte desconhecido uma explosão de susceptibilidade…

Tão assediados por coisas deste género, acabamos, muitas vezes, por nos render.

Insistíamos com as crianças para que não dissessem palavrões, e eis que o calão vulgar entrou também nos nossos discursos. Tínhamos cultivado um certo estilo de seriedade e de boa educação: e eis que, de há um tempo para cá, nos temos deixado levar por reacções de má educação.

Em suma, vemos como as pessoas se habituam a tudo e que aquilo que outrora nos escandalizava se tornou normal, deixando-nos indiferentes. Até o pequeno Stefano pensa às vezes ter graça com palavras que aprendeu sabe-se lá onde: e os seus irmãos mais velhos desatam a rir, como se fosse um grande feito!

Contudo, não quero resignar-me. A grosseria é uma forma de superficialidade, é um sintoma de rendição, revela um grau medíocre de inteligência e interioridade. Parece-me que um certo hábito de recolhimento, de silêncio e até de oração, provocará imediata aversão pela grosseria, tornando desejável a delicadeza.

Quem sabe se eu própria não conseguirei transmitir aos meus a importância da atenção e da delicadeza!

Mas o que fazer?

Gostaria de começar por escrever uma carta: há quanto tempo não escrevo ao Carlo? Parece que o hábito de vivermos juntos esgotou o que há para dizer. Durante o noivado, o tempo nunca chegava, as páginas das cartas nunca conseguiam dizer tudo aquilo que sentíamos. Agora custa-me encontrar palavras para o postal de parabéns e acho cómodo delegar na Laura essa função.

Mas há duas linhas que quero escrever-lhe, e é precisamente a propósito da delicadeza.

Atrever-me-ei ainda a propor uma oração. Quantas graças e alegrias temos recebido através da oração feita em conjunto! Momentos inesquecíveis da nossa vida em comum.

Eis o que faremos: colocaremos na mesa o belo ícone oferecido por Khalil, acenderemos uma vela e eu farei uma oração criada por mim.

Quem sabe se Carlo e os nossos filhos não apreenderão nestas palavras as minhas intuições e se aperceberão das minhas queixas?

 

Carlo Maria Martini
Uma bela família
Lisboa, Edições Paulinas, 1999
Texto adaptado

 

 

 

 

 

 

 

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