A roupa é quem a veste

A roupa é quem a veste

Um homem de poucas posses, mas estimado e respeitado na aldeia, foi convidado para jantar em casa de pessoas ricas que queriam dá-lo como exemplo de trabalho esforçado e de humildade, mas também da sua tolerância para com os desfavorecidos.

Apresentou-se o homem na casa dos anfitriões com as roupas que costumava usar todos os dias, pobres e esfiapadas, verificando que todos evitavam cumprimentá-lo, por serem tão visíveis os sinais das suas parcas posses.

Tomou então uma decisão. Foi a casa e vestiu a única peça de roupa de qualidade que possuía e que mantinha guardada para uma ocasião especial.

Deu-se então conta, ao regressar a casa dos ricos anfitriões, de que o tratamento que lhe estava reservado mudara radicalmente. Agora, desde os criados aos senhores da casa, todos se lhe dirigiam com deferência e respeito.

Quando o jantar foi servido, despiu a túnica que levava vestida sobre as roupas andrajosas e atirou-a para cima da mesa.

Encolerizado, o anfitrião perguntou-lhe na presença dos outros convidados:

— Por que ages desse modo?

— Porque percebi que a minha roupa é que recebeu as vossas atenções e cumprimentos e não eu.

Dizendo isto, dirigiu-se à porta e saiu, deixando os convivas num embaraçado silêncio.

J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002

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