Os catorze preceitos da Ordem da Interexistência

Thich Nhat Hanh
Harmonia a cada passo
Pergaminho, Cascais, 2005 

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  • Tal como as folhas, possuímos muitos pés
  • Reconciliação
  • Chamamos-lhes os catorze preceitos da Ordem da Interexistência

    1. Não idolatre nem esteja amarrado a qualquer doutrina, teoria ou ideologia. Todos os sistemas de pensamento são meios de orientação e não a verdade absoluta.

    2. Não pense que o conhecimento que agora detém é a verdade imutável e absoluta. Evite a tacanhez de espírito e ficar preso aos pontos de vista actuais. Aprenda e pratique o desapego relativamente a pontos de vista, de modo a estar disponível para aceitar o ponto de vista dos outros. A verdade encontra-se na vida e não no mero conhecimento conceptual. Esteja pronto a aprender durante a sua vida inteira e a observar a sua realidade e a do mundo em todas as circunstâncias.

    3. Não force os outros, inclusivamente as crianças, seja de que forma for, a adoptar os seus pontos de vista, seja através do exercício da autoridade, da ameaça, do dinheiro, da propaganda ou da educação. Ajude-os, porém, a renunciar ao fanatismo e à tacanhez de espírito através do diálogo compassivo.

    4. Não evite entrar em contacto com o sofrimento nem feche os olhos a ele. Não perca a consciência da existência de sofrimento na vida mundial. Arranje formas de ser solidário com aqueles que estão a sofrer, recorrendo a todo o tipo de meios, inclusivamente o contacto pessoal e as visitas, imagens e sons. Através destes meios, acorde e desperte os outros para a realidade do sofrimento existente no mundo.

    5. Não acumule riquezas enquanto milhões de pessoas passam fome. Não tome como objectivos da sua vida a fama, a riqueza ou os prazeres mundanos. Viva de uma forma simples e partilhe tempo, energia e recursos materiais com aqueles que precisam.

    6. Não alimente a raiva ou o ódio. Aprenda a penetrar neles e a transformá-los enquanto ainda não passam de sementes na sua consciência. Assim que a raiva ou o ódio surgirem, foque a sua atenção na sua respiração de forma a ver e a compreender a natureza da sua raiva ou do seu ódio e a natureza das pessoas que originaram a sua raiva ou o seu ódio.

    7. Não se disperse e não se desconcentre daquilo que o rodeia. Pratique a respiração conscienciosa de forma a virar-se para aquilo que está a acontecer no momento presente. Sintonize-se com tudo o que seja maravilhoso, refrescante e benéfico, tanto dentro de si como à sua volta. Cultive em si as sementes da alegria, da paz e da compreensão, de modo a facilitar o trabalho de transformação a fazer nas profundezas da sua consciência.

    8. Não profira palavras que possam gerar discórdias e fazer com que a comunidade se divida. Reúna todos os esforços no sentido da reconciliação e da resolução de todos os conflitos, por menores que sejam.

    9. Não diga mentiras por razões pessoais ou para impressionar as pessoas. Não profira palavras que causem divisões e ódio. Não espalhe notícias de que não tem a certeza. Não critique ou condene algo sobre o qual não está seguro. Diga sempre a verdade e de forma construtiva. Tenha a coragem de denunciar situações de injustiça, ainda que aquilo que vai dizer possa ameaçar a sua própria segurança.

    10. Não se sirva da comunidade religiosa para obter ganhos ou lucros pessoais, nem transforme a comunidade num partido político. No entanto, uma comunidade religiosa deve ter uma posição inequívoca contra a opressão e a injustiça e deve lutar para mudar a situação sem se envolver em conflitos partidários.

    11. Não alimente uma vocação que é prejudicial à humanidade e à Natureza. Não invista em empresas que privam os outros da sua oportunidade de viver. Escolha uma vocação que o ajude a concretizar o seu ideal de compaixão.

    12. Não mate. Não deixe que os outros matem. Descubra todos os meios possíveis de proteger a vida e de evitar a guerra.

    13. Nada possua que deva pertencer aos outros. Respeite a propriedade alheia, mas impeça que os outros enriqueçam à custa do sofrimento humano ou do sofrimento de outros seres.

    14. Não maltrate o seu corpo. Aprenda a tratá-lo com respeito. Não veja o seu corpo apenas como um instrumento. Preserve as energias vitais para a concretização do Caminho. A expressão sexual não deve ocorrer sem que haja amor e compromisso. Nas relações sexuais, tenha noção do sofrimento futuro que pode ser gerado. A fim de preservar a felicidade dos outros, respeite os direitos e os compromissos alheios. Tenha a perfeita consciência da responsabilidade de trazer novas vidas ao mundo. Medite sobre o mundo para o qual está a trazer novos seres.

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