Sob o Signo de Noé – Michel Lacroix

Michel Lacroix
O Princípio de Noé ou a Ética da Salvaguarda
Lisboa, Instituto Piaget, 1999

Excertos adaptados

Preâmbulo

Sob o Signo de Noé

Os mitos são necessários às sociedades. Desde o século XVIII que o mito de Prometeu, condensado de filosofia do progresso, de sonho de poder e de humanismo triunfante, tem sido o emblema da aventura humana. À semelhança de Prometeu, que roubou o fogo aos deuses do Olimpo, o homem moderno, em dois séculos de história torrencial, tornou-se mestre das leis da energia e da informação para poder organizar o mundo consoante a sua conveniência.

Mas os mitos são como os seres vivos: nascem, crescem e morrem. Assistimos agora ao declínio do mito de Prometeu, pois este já não corresponde às aspirações dos homens. Se a sociedade continua a produzir mudanças a um ritmo estonteante, é devido à velocidade adquirida e não em virtude de um desejo autêntico. A alma já não se encontra envolvida nestas mutações. A desconstrução do mundo edificado no pós-guerra, a desertificação do campo, as convulsões económicas, industriais e sociais, a mundialização, a ditadura financeira, não são «projectos». São processos que acontecem contra a nossa vontade, processos vazios de significado.

Segundo a hipótese deste livro, após dois séculos marcados pela mudança, pela novidade e pela transformação radical, entramos num período que se encontra sob o signo de Noé. O mito de Noé fornecerá a energia moral necessária à sociedade vindoura. A era da salvaguarda sucede à era do progresso.

A Bíblia conta que Noé meteu as riquezas do mundo numa grande arca, para as transmitir aos seus descendentes, porque, «durante quarenta dias, teve lugar na Terra o dilúvio» (Génesis, VII, 17). Nos nossos dias, um número crescente de indivíduos sente-se atraído por um dever semelhante. Para nós, é urgente proteger aquilo que a nossa civilização tem de melhor: as belezas da arte, as paisagens, os monumentos, as grandes obras, os costumes, a língua, o ensino, as instituições políticas e sociais, as regras da sociabilidade e da civilidade, as cidades antes que estas se degradem completamente… O surgimento de uma era pós prometeica é talvez, doravante, a única hipótese de salvaguardar a dignidade humana.

Por um lado, procurámos, objectivamente, dar conta desta ética da salvaguarda e da sua oposição à ética da modernização. Mais do que a divisão direita/esquerda ou os conflitos de interesses entre os grupos sociais, pareceu-nos que a alternativa entre duas escolhas éticas, simbolizadas respectivamente por Noé e Prometeu, era a chave para compreender o mundo actual. Por outro lado, não dissimulámos a nossa preferência pela ética da salvaguarda. Este livro, simultaneamente sociológico e filosófico, é o de uma testemunha que conta factos e de um «advogado» que defende uma causa. Ao analisar as manifestações do mito de Noé, o nosso propósito era contribuir para o desenvolvimento deste último, dar-lhe uma forma coerente e desenhar o horizonte filosófico que lhe confere a sua legitimidade.

Durante a sua redacção, esta obra destinava-se a um companheiro de estrada imaginário e poderia ter tido como título: «Carta aberta a um jovem para o consolar pelo facto de viver numa sociedade desprovida de ideal», pois, hoje em dia, a juventude está privada de herança, isto é, literalmente «deserdada». Os alunos de colégios e de liceus oriundos de meios favorecidos, os jovens dos subúrbios, os filhos da imigração, são todos, em graus diferentes, vítimas do mesmo mal. Nasceram num mundo que, arrastado numa vertiginosa fuga para a frente, corre o risco de ver desmoronar-se uma parte da memória. Neste mundo em que «o sol dos vivos já não aquece os mortos» (Lamartine, L’Isolement, 1918 ) encontram-se indefesos perante a crescente maré de incultura, de vulgaridade, de materialismo, de fealdade visual e sonora, da incivilidade crescente, do declínio da sociabilidade, da doença que corrói os valores morais, das falsas religiões e das seitas, da precaridade e da exclusão, que são a desonra das sociedades ditas «avançadas», e do pesado tributo exigido diariamente pelas leis implacáveis da rentabilidade financeira, as únicas coisas imutáveis neste mundo em convulsão. Esta maré de não-civilização é justamente o dilúvio. E Noé não pode perder mais tempo.

Segue

  • O dilúvio
  • A fragilidade do mundo
  • A ciência e a fragilidade
  • A responsabilidade perante a fraqueza 
  • A cultura do eu e as suas armadilhas
  • A pomba de Noé 
  • Advertisements