A fragilidade do mundo – Michel Lacroix

Michel Lacroix
O Princípio de Noé ou a Ética da Salvaguarda
Lisboa, Instituto Piaget, 1999

Excertos adaptados

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  • Sob o signo de Noé
  • O dilúvio
  • A Fragilidade do Mundo

    Habitualmente, os decénios são caracterizados por um espírito particular: o espírito dos anos 30, dos anos 60, dos anos 80… Poderíamos definir o espírito dos anos 90 como a crescente tomada de consciência da fragilidade do mundo civilizado. O sentimento de alienação dá lugar à preocupação. A civilização perdeu a massividade tranquilizadora e granítica de antanho e sentimos que os ataques de que é alvo podem perfeitamente aniquilá-la. A urgência já não está em escapar ao seu domínio, mas em assegurar a continuidade da sua influência sobre os indivíduos, ou seja, preservar a sua capacidade de integração e de formação dos indivíduos.

    Imaginemos uma máquina capaz de medir a fragilidade da sociedade. Enquanto observadores privilegiados, orientá-la-íamos para todo o corpo social, visitando todas as esferas, examinando ao pormenor a psique colectiva. A agulha da nossa máquina registaria os sinais de uma doença geral. Mostraria que grande parte das instituições estão doentes.

    Os serviços públicos vivem um momento crítico; a segurança social está à beira da falência; a economia está desmembrada pela lei de bronze da concorrência; desaparecem sectores inteiros da indústria; devido à pressão da rentabilidade, algumas empresas em crescimento são obrigadas a fechar fábricas e a deslocarem-se. Por seu lado, os mecanismos tradicionais de integração social são bloqueados; não conseguem contrariar a formação de guetos e o aumento dos particularismos; o sentimento de pertencer a uma nação solidária enfraquece; o laço social dissolve-se; a pobreza e a exclusão são a recompensa de um número crescente de indivíduos; milhões de indivíduos vivem na pobreza ou numa constante incerteza relativamente ao futuro. As cidades transformam-se em zonas de caça para delinquentes, em lares de incivilidade e exclusão. A razão sente-se ameaçada pelo crescimento do irracional, das seitas e de movimentos como o New Age. Longe de ser um benefício definitivo, esta surge como uma película fina que cobre os comportamentos humanos. Não é uma fortaleza mas uma frágil conquista.

    A fragilidade da sociedade traduz-se igualmente pela influência crescente dos imprevistos nos destinos individuais. As trajectórias de vida são cada vez mais caóticas, abalroadas, cortadas por acontecimentos perturbadores: a migração, o desenraizamento, a ruptura familiar, a desclassificação profissional, a perda do emprego, a experiência da precaridade, a pobreza, a solidão. Daí resulta uma vulnerabilidade psíquica que revela números esclarecedores: o consumo de produtos psicofarmacológicos, a depressão, a droga. Por detrás da pobreza estatística destes dados, adivinha-se o número de decepções e frustrações que assolam a nossa sociedade. O nosso scanner mostra-nos igualmente a imagem pungente das uniões conjugais que vivem sob a espada de Dâmocles da ruptura ou em busca de recomposição, bem como jovens cada vez mais expostos ao sofrimento psicológico. A falta de afecto e a inexistência de alegria de viver são o destino de inúmeras crianças e adolescentes, testemunhas impotentes da vida que levam alguns pais deprimidos, desunidos, cansados do trabalho e perturbados pelo desemprego.

    Da Lua à Terra

    A fragilidade atinge não só a sociedade e o indivíduo, mas igualmente o ambiente natural em geral. Mais uma vez, assistimos ao desmoronar da alma mater. Outrora, os homens concebiam a Terra como uma divindade tutelar e protectora, e a história das mitologias e das religiões confirma a permanência de uma terra-mãe. Os gregos colocaram Gê no seu panteão. Há pouco mais de cinquenta anos, esta imagem tranquilizadora estava intacta. Continuava a ver-se no habitat terrestre uma alma mater protectora, infinitamente rica, com uma resistência a toda a prova. Imaginava-se que se poderia armazenar impunemente meios ilimitados de destruição. Durante a guerra-fria, acumulou-se armamentos atómicos gigantescos; experimentou-se bombas na atmosfera sem se pensar nas consequências a nível da radioactividade; desenvolveu se forças extractivas e produtivas sem precedentes. Pensava-se que a Terra poderia suportar tudo isto.

    Mas esta confiança desapareceu e, num determinado dia de Julho de 1969, deu-se uma mudança. O homem chegou à Lua. Daí, olhou para o astro terrestre que acabara de deixar. Centenas de milhões de fotografias da Terra vista da Lua foram espalhadas pelo mundo. Que choque! As consequências morais e filosóficas foram incalculáveis. Estas fotografias desvendaram a beleza do habitat terrestre, poeticamente baptizado «pérola azul», mas evidenciaram sobretudo a sua precaridade: o nosso astro não passa de uma bolinha frágil perigosamente lançada para o espaço.

    Esta revelação provocará sem dúvida uma viragem capital na história psíquica da humanidade. Nunca mais voltaremos a sentir a confiança, a despreocupação, a segurança que, tal como crianças, conhecíamos até há bem pouco tempo sob a protecção da terra-mãe. A partir de agora, o homem sabe que mora numa nave espacial onde já não existe segurança e, por isso mesmo, a sua angústia é alimentada por cenários catastróficos. O espectro da morte planetária tem diversos rostos: a morte num vasto incêndio nuclear, a morte por entropia termodinâmica, a sobrecarga demográfica explosiva acompanhada por uma penúria a nível de recursos, a morte por deterioração ecológica.

    Eis o resultado paradoxal da aventura espacial. Esta proporcionou-nos o conhecimento do espaço, mas revelou-nos sobretudo a verdade acerca da condição do homem. Sabemos agora que o nosso destino depende de um astro cuja viabilidade não está assegurada. Após a Primeira Guerra Mundial, Paul Valéry escrevia que as «civilizações sabem que são mortais». Mas o século XX termina em apoteose devido a uma constatação também ela trágica: sabemos que a humanidade inteira pode desaparecer. Vista do espaço, a biosfera não é senão uma película muito fina que envolve debilmente o globo, uma película delicada que o efeito de estufa ou a diminuição da camada de ozono depressa destruíram. Esta biosfera assemelha-se ao frágil embrião abrigado no ventre materno, uma outra alma mater onde também nem sempre se está seguro. O homem já não é protegido por uma terra-mãe robusta que o defendia constantemente, consertando os estragos por ele provocados. Pela primeira vez na história do pensamento humano, o globo terrestre é inserido na categoria do que é deteriorável e, desde os mais pequenos ecossistemas até à imensidão das terras imersas e dos oceanos, a precaridade apodera-se do mundo.

    A perpetuidade e a fecundidade da vida, que eram expressas há cerca de quarenta anos em Phénomène Humain de Pierre Teilhard de Chardin, desapareceram. Teilhard de Chardin considerava que a vida era um feixe de criações cada vez mais ricas, como que um movimento ascendendo a uma complexidade crescente associada a estados psíquicos cada vez mais elaborados. Depois de ter suscitado o fenómeno humano, esta evolução teria de transpor uma última etapa, chegando assim ao ultra-humano: «à nossa frente encontra-se doravante o ultra-humano». Quanta confiança no Ímpeto vital! Mas o optimismo evolucionista do célebre jesuíta e paleontologista torna-se uma posição insustentável a partir do momento em que a vida é ameaçada na sua globalidade. O homem do final do século XX toma consciência de que o grande ciclo da vida poderia acabar, que a própria pulsação do nascimento, do desenvolvimento e da morte poderia ser interrompida definitivamente. Deste modo, pôr-se-ia fim ao perpétuo recomeço da esperança e da perda, do êxtase perante o que nasce e da tristeza relativamente ao que se extingue. A vida seria abolida e, com ela, a morte que a segue na qualidade de companheira familiar. Se a biosfera desaparecesse, ambas se evaporariam no vazio do extermínio total, no silêncio de uma «sobremorte», de uma morte com o poder de duas. Assim, cabia ao final do século XX dar uma acuidade insuportável ao sentimento de vulnerabilidade. Vislumbra-se uma eventualidade perante a qual qualquer pensamento se inclina: a morte da morte.

    Segue

  • A ciência e a fragilidade
  • A responsabilidade perante a fraqueza
  • A cultura do eu e as suas armadilhas
  • A pomba de Noé
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