Uma mensagem de paz para o mundo actual – L. Boff

Leonardo Boff
A ORAÇÃO DE S. FRANCISCO
Uma Mensagem de Paz para o Mundo Actual

Cascais, Pergaminho, 2007

A nova ordem económica mundial: ordem natural?

Hoje vigora uma ordem mundial que também se apresenta como natural, ligada à vontade do Criador. É a visão neoliberal com o seu modo de produção capitalista e com o seu mercado globalizado. A ela, assim pensam os seus ideólogos, não há e não pode haver alternativas. Todos se devem integrar porque fora dela não há salvação.

Vivemos, portanto, sob o pensamento único e sob o monoteísmo da ordem do capital na sua fase mundial. Os que se opõem são logo qualificados como retrógrados, inimigos do progresso e obstáculos à realização da etapa mais avançada da história.

Entretanto, são as vítimas dessa ordem que desmascaram a sua natureza perversa, negando-lhe o carácter natural e inevitável. Como pode ela ser natural se funciona apenas para mil e seiscentos milhões de pessoas? Não é antinatural que os restantes quatro mil milhões vivam excluídos, amargando fome e doenças desnecessárias, por serem perfeitamente curáveis? É natural que a voracidade produtiva dessa ordem esteja a agredir sistematicamente a Natureza, exterminando a cada dia dez espécies de animais e cinquenta de vegetais?

Essa ordem só se pode manter com a utilização maciça de violência sob todas as formas, aplicada contra os que resistem e se negam a submeter-se.
Continua portanto de pé a questão: Qual é a ordem cuja tranquilidade gera a paz?

Somos responsáveis pela orden-a[c]ção social

Hoje, mais do que noutros tempos, temos perfeita consciência de que somos seres históricos, e por isso dentro de um processo evolutivo. O que caracteriza esse processo não é a permanência, mas a mudança. As ordens são feitas pelos seres humanos. No processo de construção do sentido das suas vidas, eles relacionam-se entre si, com a Natureza e com as tradições do passado e criam ordens abertas, dinâmicas, cambiantes, para poderem viver com um mínimo de convivência, justiça e paz.

Todos são chamados a colaborar na criação de uma ordem que inclua o maior número possível de seres humanos e que promova a permanente busca de um equilíbrio de interesses para que estes não destruam a paz social. Trata-se de uma paz como tranquilidade da orden-a[c]ção e não simplesmente da ordem fechada sobre si mesma e ilusoriamente estável.

A orden-a[c]ção significa, como a própria palavra sugere, a acção que cria permanentemente a ordem humana, sempre frágil e por isso sempre sujeita a um aperfeiçoamento.

Esta orden-a[c]ção, se feita na boa vontade colectiva, sob inspiração de uma ética do cuidado e aberta à dimensão espiritual do ser humano, pode acercar-se da ordem desejada por Deus

Cuidar sempre dessa ordem aberta, dinâmica e perfectível pode produzir um mínimo da paz e da tranquilidade tão almejadas pelos filhos e filhas da Terra.

Paz: consequência da justiça

Há uma terceira compreensão, de grande ressonância na história, que também provém de Santo Agostinho: a paz é obra da justiça.

Esta definição considera que não se pode procurar a paz por si mesma, prescindindo da realização prévia da justiça. Há muitas teorias contemporâneas acerca da justiça: não iremos entrar aqui nessa discussão. Vamos ater-nos à mais tradicional, assumida pelos principais pensadores cristãos e que remonta a Platão.

Justiça é dar a cada um o que lhe compete.

Justiça é ter uma relação adequada à natureza de cada coisa.

Justiça é, portanto, uma relação e uma atitude correctas, exigidas por cada situação. Nesse sentido, importa conhecer minimamente as coisas com as quais nos relacionamos e as situações com as quais nos confrontamos para podermos ter atitudes e relações adequadas e justas.

Justiça é tratar um ser humano como convém a um ser humano: com aceitação, simpatia e respeito pela sua alteridade.

Justiça é tratar as crianças como convém às crianças: cuidando para que tenham um lar, zelando pela sua inocência e organizando a saúde e a educação infantil.

Justiça é realizar a politica como deve ser, isto é, com cuidado para com a coisa pública.

Justiça é tratar um animal como lhe compete; respeitando a sua existência, proporcionando condições que lhe permitam viver e reproduzir-se, garantindo o seu lugar na comunidade dos seres vivos como companheiro do homem na aventura da vida.

Justiça é tratar o cálice sagrado como convém às coisas sagradas, guardando-o num lugar especial e separado, em sinal de reverência ao seu carácter simbólico.

Justiça é tratar a vassoura com lhe convém, colocando-a não no centro da sala mas num lugar próprio, cuidando que realize a sua natureza de limpar. E assim poderíamos exemplificar outras realizações da justiça.

A justiça social representa hoje um dos mais graves desafios para a consciência mundial. O fosso entre aqueles que estão dentro da “ordem” mundial e os que estão excluídos aumenta de dia para dia. A utilização das tecnologias de ponta permite uma acumulação fantástica, mas perversa, porque se encontra injustamente distribuída. Vinte por cento da humanidade controla oitenta por cento de todos os meios de vida. Tal facto cria um desequilíbrio perigoso no movimento da história.

Se paz é equilíbrio do movimento, vivemos tempos de graves desequilíbrios, de verdadeira guerra declarada contra a terra, contra os ecossistemas, que são depredados, contra os povos, que são deixados à margem porque já não interessa ao capital mundial explorá-los, contra classes inteiras de trabalhadores, que são tornados descartáveis e excluídas. Uma guerra contra os dois terços da humanidade cuja vida não tem sustentabilidade suficiente para ser vivida em paz. O movimento político mundial não revela nenhum equilíbrio.

Pelo contrário, o desequilíbrio em todos os campos mostra-se ameaçador para o futuro comum da humanidade e da Terra.

Quando uma sociedade se organiza ao redor daquilo que é conveniente em cada dimensão, então pode florescer a paz, fruto da justiça.

Segue Onde houver desespero, que eu leve a esperança – L. Boff

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