O lado sombra do quotidiano II

Jeremiah Abrams (org)
O Reencontro da Criança Interior
S. Paulo, Cultrix, 1999

Excertos adaptados

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Conhece-te a ti mesmo

No templo de Apolo, em Delfos, que foi construído na encosta do monte Parnaso pelos Gregos e que hoje já se encontra destruído, os sacerdotes gravaram na pedra duas famosas inscrições, dois preceitos que possuem ainda grande significado para nós. O primeiro, Conhece-te a ti mesmo, tem ampla aplicação na nossa vida: conhece tudo sobre ti mesmo, aconselhava o sacerdote do deus da luz, ou seja, conhece especialmente o lado oculto de ti mesmo.

Nada em excesso

Vivemos numa época de excessos críticos: crime a mais, exploração a mais, poluição a mais, armas nucleares a mais. Estes são excessos que podemos reconhecer e repudiar, apesar de nos sentirmos impotentes para fazer o que quer que seja contra eles.
Mas existirá, de facto, algo que possamos fazer? Para muitas pessoas, as qualidades inaceitáveis do excesso vão directamente para a sombra inconsciente, ou são expressas através de comportamentos sombrios. Em muitos casos, estes extremos assumem a forma de sintomas: sentimentos e acções intensamente negativos, sofrimentos neuróticos, doenças psicossomáticas, depressão e abuso de narcóticos.
O cenário pode ser descrito assim: quando sentimos um desejo excessivo, empurramo-lo para a sombra, e depois agimos sem a menor preocupação com os outros; quando sentimos uma fome excessiva, empurramo-la para a sombra, e depois comemos em demasia, vomitamos e prejudicamos, assim, o nosso corpo; quando sentimos um forte anseio pelo lado mais elevado da vida, empurramo-lo para a sombra, e depois tentamos satisfazê-lo através de uma gratificação urgente ou de uma actividade hedonística como o consumo de droga e de álcool. A lista continua.
Na nossa sociedade vemos o crescimento dos excessos da sombra em toda a parte:

  • numa incontrolável sede de conhecimento e de domínio da natureza (expressa na amoralidade das ciências e na parceria desajustada do mundo dos negócios e da tecnologia);

  • num local de trabalho tenso e desumano (expresso quer na apatia de uma força de trabalho alienada, quer no orgulho do sucesso);
  • na maximização do crescimento e progresso empresarial;
  • num hedonismo materialista (expresso no consumismo desenfreado, na publicidade exploradora, no desperdício e na poluição incontrolável);
  • num desejo de controlar (expresso na exploração e na manipulação dos outros, na violência doméstica e abuso infantil);
  • no nosso sempre presente medo da morte (expresso no culto do corpo, nas dietas, nas drogas e na busca da longevidade a qualquer preço).

Estes aspectos da sombra são omnipresentes na nossa sociedade. Contudo, as soluções experimentadas para acabar com os nossos excessos colectivo poderão ser ainda mais perigosas do que o próprio problema. Consideremos, por exemplo, o fascismo e o autoritarismo, os horrores que surgiram nas tentativas reaccionárias para controlar a desordem social, a decadência e a permissividade generalizadas na Europa. Mais recentemente, o fervor do fundamentalismo religioso e político ressurgiu como resposta às ideias progressistas.
Jung foi brando quando afirmou: Todos nós ingenuamente nos esquecemos de que, por debaixo do nosso mundo racional, outro permanece enterrado. Não sei que mais terá a humanidade de sofrer antes de se atrever a admitir esta verdade.

Se não agora, quando?

A história regista desde tempos imemoriais os tormentos causados pela maldade humana. Nações inteiras deixaram-se levar por histerias de vastas proporções destruidoras. Hoje, com o fim aparente da Guerra Fria, existem excepções esperançosas. Pela primeira vez, os países fizeram um esforço de consciencialização e tentaram inverter o rumo que estavam a tomar. Consideremos esta notícia de jornal, que fala por si só (citado por Jerome S. Bernstein no seu livro Power and Politics): o governo soviético anunciou que todos os exames de História seriam cancelados temporariamente no país. No Philadelphia Inquirer lia-se a 11 de Junho de 1988:

A União Soviética, alegando que os livros de História, durante gerações, ensinaram mentiras às suas crianças, o que levou ao envenenamento das suas “mentes e almas”, anunciou ontem o cancelamento dos exames finais de História para mais de 53 milhões de estudantes.
Referindo-se a este cancelamento, o jornal governamental Isvestia disse que esta extraordinária decisão tinha como objectivo acabar com a transmissão de mentiras de geração para geração, um processo que consolidou o sistema político e económico estalinista, e que o actual executivo quer ver terminado.
A culpa daqueles que enganaram uma geração atrás da outra é incomensurável, refere o jornal num comentário de primeira página. Hoje estamos a colher os frutos amargos da nossa própria falta de carácter. Estamos a pagar por termos sucumbido ao conformismo e dado assim aprovação silenciosa a tudo aquilo que hoje nos faz corar de vergonha e que não sabemos explicar honestamente aos nossos filhos.

Esta confissão surpreendente feita por uma nação inteira marcou o fim de uma era.
Hoje, o mundo move-se em duas direcções aparentemente opostas: alguns afastam-se do fanatismo, outros mergulham nele. Podemos sentir-nos impotentes face a tais forças. Ou, se realmente nos importarmos com esta situação, devemos certamente experimentar um sentimento de culpa perante a nossa cumplicidade inconsciente nesta difícil situação colectiva.
A referida situação foi expressa com precisão por Jung em meados do século XX: A voz interior traz à consciência tudo aquilo que martiriza o todo – sendo este todo a nação à qual pertencemos ou a humanidade da qual fazemos parte. Mas ela apresenta o mal de forma individual, para que, numa primeira análise, possamos pensar que ele constitui apenas um traço do carácter individual.
Para nos protegermos da maldade humana, que pode ser representada por esses movimentos de massa inconscientes, temos apenas uma arma: uma maior consciência individual. Se deixarmos de aprender ou de agir de acordo com o que aprendemos do espectáculo do comportamento humano, perderemos o nosso poder de nos auto-modificarmos e, assim, de salvarmos o mundo.
Uma grande mudança na nossa atitude psicológica está iminente, refere Jung em 1959. O único perigo real que existe é o próprio homem. Ele é o grande perigo e, infelizmente, não temos consciência disso. Nós somos a origem de toda a maldade vindoura.
O caricaturista Walt Kelly di-lo de forma clara na sua banda desenhada satírica Pogo: Já conhecemos o inimigo e ele está em nós. Hoje podemos dar um significado psicológico renovado à ideia de poder individual. Os limites para a acção no confronto com a sombra estão, como sempre estiveram, no indivíduo.

Dominando a sombra

O objectivo do encontro com a sombra é desenvolvermos uma relação contínua com ela, expandirmos o sentido do eu, de forma a equilibrarmos as nossas atitudes conscientes com as nossas profundezas inconscientes.
O romancista Tom Robbins refere: O propósito do encontro com a sombra é o de se estar no sítio certo da forma certa. Quando mantemos uma relação apropriada com a sombra, o inconsciente deixa de ser um monstro demoníaco, como Jung salienta: Apenas se transforma numa ameaça quando a nossa atenção consciente o encara de uma forma errada.
Uma relação correcta com a sombra oferece-nos um grande presente: leva-nos a recuperar os nossos potenciais ocultos. Através do trabalho com a sombra (expressão que criámos para descrevermos os esforços contínuos com vista a uma relação criativa com a sombra), podemos:

  • alcançar uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem somos;
  • acalmar as emoções negativas que brotam inesperadamente no nosso dia-a-dia;sentirmo-nos mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos sentimentos e acções negativas;
  • reconhecer as projecções que interferem nas nossas opiniões sobre os outros;
  • curar as nossas relações através de uma auto-análise e comunicação directa mais honestas;
  • usar a imaginação criativa através dos sonhos, desenhos, escrita e rituais para reaver o eu negado.

Talvez… talvez assim também nós possamos, de certa forma, abster-nos de acrescentar a nossa sombra pessoal à densidade da sombra colectiva.

 Retirado de: A Sombra – o lado escuro de cada um de nós

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