Ao encontro da sombra

Jeremiah Abrams (org)
O Reencontro da Criança Interior
S. Paulo, Cultrix, 1999

Excertos adaptados

Anterior: O lado sombra do quotidiano

Ao encontro da sombra

Apesar de não podermos contemplá-la directamente, a sombra manifesta-se no quotidiano. Por exemplo, encontramo-la no humor, ou seja, nas anedotas obscenas ou na comédia grosseira, que expressam as nossas emoções escondidas, inferiores e temidas. Quando observamos atentamente aquilo que para nós tem comicidade – como, por exemplo, alguém a escorregar numa casca de banana, ou a referência a partes tabus do corpo – descobrimos que a sombra está activa.
A psicanalista inglesa Molly Tuby sugere seis outras formas segundo as quais a sombra se manifesta inconscientemente todos os dias:

  • nos nossos sentimentos exagerados em relação aos outros (“ Nunca imaginei que ele pudesse fazer tal coisa!”, “Não sei como ela é capaz de andar com aquela roupa!”);
  • nas reacções negativas daqueles que nos servem de espelho (“É a terceira vez que chegas atrasado sem me avisar.”);
  • naquelas interacções em que exercemos continuamente o mesmo efeito perturbador em diferentes pessoas (“O Sam e eu achamos que não foste honesto connosco.”);
  • nos nossos actos impulsivos e inadvertidos (“Bem… não era isto que eu queria dizer.”);
  • em situações nas quais nos sentimos humilhados (“Sinto-me tão mal com a forma como ele me trata!”);
  • na nossa raiva exagerada relativamente aos erros dos outros (“Parece que ela nunca consegue fazer o trabalho a horas”, “Francamente, ele deixou que o seu peso se descontrolasse completamente.”).

É nos momentos em que somos invadidos por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou achamos que o nosso comportamento está a ultrapassar os limites, que a sombra irrompe inesperadamente. Normalmente também regride com a mesma rapidez, porque o encontro com a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a nossa auto-imagem.
Por este motivo, podemos rapidamente enveredar pela negação, tendo dificuldade de nos apercebermos das fantasias criminosas, dos pensamentos suicidas ou das invejas embaraçosas que poderão revelar um pouco do nosso lado oculto. O já falecido psiquiatra R. D. Laing descreveu poeticamente a atitude de negação da mente:

O alcance daquilo que pensamos e fazemos
está limitado por aquilo que deixamos de notar.
E porque não notamos
que não notamos
é pouco o que podemos fazer para mudar
até que notamos como o deixar de notar
molda os nossos pensamentos e actos.

Se a negação persistir, podemos não notar que deixamos de notar, como refere Laing.
A depressão pode também ser um confronto paralisante com o lado oculto. A exigência interna no sentido de uma descida ao mundo subterrâneo pode ser anulada por preocupações externas, tais como a necessidade de trabalhar horas extras, as diversões ou os medicamentos anti-depressivos que abafam os nossos sentimentos de desespero. Neste caso, não chegamos a compreender o propósito da nossa melancolia.
Encontrarmos a sombra requer que abrandemos o ritmo de vida, que prestemos atenção aos indícios que o corpo nos fornece, e nos permitamos estar sozinhos, de forma a assimilarmos as mensagens enigmáticas do mundo interior.

A sombra colectiva

Confrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana todas as vezes que abrimos um jornal ou ouvimos um noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na espantosa mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida para toda a nossa moderna aldeia global electrónica. O mundo tornou-se palco da sombra colectiva.
A sombra colectiva – a maldade humana – depara-se-nos praticamente em toda a parte: salta dos títulos dos jornais; vagueia pelas nossas ruas e dorme sem abrigo no vão das portas; esconde-se nas lojas pornográficas; desvia dinheiro das nossas poupanças locais e dos nossos empréstimos bancários; corrompe políticos ávidos de poder e perverte o sistema judiciário; conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos; vende armas a líderes enlouquecidos e entrega os lucros obtidos a rebeldes reaccionários; despeja, por canos ocultos, a poluição nos nossos rios e oceanos e envenena, com pesticidas invisíveis, os nossos alimentos.
Enquanto a maior parte dos indivíduos e dos grupos vive de forma socialmente aceitável, outros parecem querer viver uma forma de vida que a sociedade repudia. Quando eles se tornam objecto de projecções negativas por parte dos grupos, a sombra colectiva exprime-se na busca de bodes expiatórios, no racismo ou na criação de inimigos. Para os americanos anticomunistas, o império do mal era a U.R.S.S. Para os muçulmanos, os E.U.A. são o grande Satã. Para os nazis, os judeus eram vermes bolcheviques. Para os ascéticos monges cristãos, as bruxas têm um pacto com o Diabo. Para os defensores sul-africanos do apartheid, ou para os membros americanos do Ku Klux Klan, os negros são sub-humanos, indignos dos direitos e dos privilégios dos brancos.
O poder hipnótico e a natureza contagiante destas emoções fortes são evidentes na disseminação da perseguição racial universal, dos conflitos religiosos e das tácticas de busca de bodes expiatórios. Desta forma, seres humanos tendem a desumanizar outros como forma de assegurar que são os únicos detentores da verdade – e que matar o inimigo não significa que estejam a matar seres humanos como eles próprios.
Ao longo da história, a sombra foi surgindo através da imaginação humana, sob a forma de monstros, dragões, de figuras como Frankenstein, de baleias brancas, extraterrestres ou homens tão vis que não poderíamos identificar-nos com eles. Mas revelar o lado oculto da natureza humana é um dos propósitos principais da arte e da literatura.
Ao utilizar a arte e os media, incluindo para a propaganda política, podemos tentar ganhar poder sobre algo que vemos como demoníaco, para assim quebrarmos o seu feitiço. Este facto pode ajudar-nos a explicar como nos deixamos fascinar com as histórias violentas que nos são contadas pelos media, sobre fanáticos religiosos ou agitadores que incitam à guerra. Repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do nosso mundo, transformamos, nas nossas mentes, determinadas pessoas ou grupos em detentores do mal e inimigos da civilização.
O lado oculto não é uma aparição evolutiva recente, nem um resultado da civilização e da educação. Ele encontra as suas raízes numa sombra biológica que se encontra nas nossas próprias células. Os nossos antepassados animais, apesar de tudo, sobreviveram lutando encarniçadamente. O monstro em cada um de nós está bem vivo – só que aprisionado a maior parte das vezes.

Continua: O lado sombra do quotidiano II

De: A Sombra – o lado escuro de cada um de nós

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