A morte, a televisão e as crianças

Notícias Magazine
25.FEV.2007

Sónia Morais Santos

Porque é que mataram o senhor, mamã?

Nos dias a seguir às imagens do enforcamento do ex-ditador iraquiano, que as televisões exibiram vezes sem conta, morreram sete crianças com a corda à volta do pescoço em distintos pontos do globo. De quem foi a culpa? Das televisões, que exibiram as imagens, esquecendo que à hora do jantar há crianças na sala? Dos pais, demasiado ocupados para serem «as legendas» do que os filhos vêem no pequeno ecrã? — A discussão está em aberto.

«Porque é que mataram o senhor, mamã? Meteram-lhe uma corda à volta do pescoço e depois ele estava morto, não estava? Ele era mau ou era bonzinho? Ele vai acordar ou vai ficar assim todo morto?» As perguntas, como rajadas, deixaram talheres a caminho da boca, naquela noite de Janeiro. Por uns momentos, o silêncio ocupou a sala. As luzes da árvore de Natal tremeluziam, dando corpo à brutalidade dos opostos: a paz do Natal recente a piscar na sala definitivamente não combinava com as imagens medievais de um enforcamento, verbalizadas por uma criança de cinco anos, incapaz de compreender.

Ana e Tiago, os pais, olharam-se, cada um à procura no olhar do outro de uma solução mágica – e sobretudo rápida – para o problema. O que dizer? Como dizer? Como se diz o indizível? Ana não sabia onde o filho António tinha visto as imagens da execução de Saddam Hussein, mas não teve dúvidas de que era a elas que se referia. «Onde viste isso?», perguntou, mais para ganhar tempo do que por genuíno interesse. «Em casa da avó enquanto ela fazia o jantar.» Ana e Tiago respiraram fundo, e foi Ana quem começou a explicação possível.

Ana Mendonça assustou-se nessa noite fria de Janeiro. Pelas notícias já tinha tido conhecimento de crianças enforcadas pelo mundo fora. Numa outra noite já havia comentado com o marido que coisa terrível, essa, de meninos e meninas a morrerem por simpatia para com o destino de um ditador. Mas nessa noite era o seu menino que perguntava. E, sobretudo, perguntava vários dias depois do sucedido, o que podia querer dizer que o assunto tinha tomado, dentro dele, proporções preocupantes. «O facto de não ter dito nada no dia a seguir, ou nos dias imediatamente depois, afligiu-me. Tinham passado duas semanas desde a exibição do enforcamento. E tinha ficado com aquele assunto mal resolvido na cabeça.»

Imitar a morte

Como lida uma criança de cinco anos com a morte? Como gere, dentro de si, o visionamento de uma morte violenta? Em todos os casos de crianças que se enforcaram, imitando a morte do ex-ditador iraquiano, nenhuma tinha a idade do António. O mais novo tinha nove anos, o mais velho quinze. Segundo o pediatra Mário Cordeiro, nestas idades, em princípio, já se sabe distinguir o bem do mal, a vida da morte: «A ideia da irreversibilidade da morte surge por voltados seis anos. Pode é ter havido algum caso em que a solidariedade com Saddam tenha sido tal (instigada eventualmente pelo seu martírio) que levasse alguns apensar que já não valia a pena viver e que o imitariam, com todo o simbolismo que isso traria.»

É justamente de empatia e de proximidade que o psiquiatra Álvaro Carvalho fala para encontrar uma justificação para esta morte por mimese: «A pré-adolescência costuma ser marcada pela adesão a grandes causas e afiguras relevantes. Nessa fase da vida, habitualmente faz-se um luto da infância e, paralelamente, uma tentativa de definir objectivos e ideais em relação ávida adulta. Ora, se estivermos a falar de adolescentes com famílias com grande carga ideológica, e se uma personagem marcante para eles é morta com este aparato, está pré-cozinhado um caldo que pode ser perigoso.» Com efeito, não será despiciendo recordar que quase todos os países onde estas mortes ocorreram são maioritariamente muçulmanos. A indiana Moon Moon, de 15 anos, poderá bem ser um desses casos. O pai, Manmohan Karmakar, contou aos jornalistas que a filha «não se alimentou durante dois dias, dizendo que estava em protesto pela morte de um patriota».

De qualquer modo, fica a ideia de que estas crianças ou pré-adolescentes tinham de estar envolvidas numa espécie de «caldo» emocional e cultural para que as imagens de um enforcamento lhes despertassem a vontade de morrer. O psicólogo Eduardo Sá não tem grandes dúvidas: «Estas crianças, regra geral, não são “normais”. Isto quer dizer que são crianças ora muito despedaçadas e melancólicas por dentro, ora no limiar de um abismo emocional que as faz mimetizar comportamentos por impulso, ou ainda crianças que têm com as situações arriscadas uma relação semelhante a uma roleta-russa, que muitas vezes serve de mata-borrão para toda a angústia que as persegue, vão elas para onde forem.»

Às vezes, poderão nem querer morrer. Podem querer apenas experimentar. Testar limites. O pediatra Mário Cordeiro consegue mesmo imaginar um miúdo «a querer ver como é aquilo, deve ser porreiro dar um salto assim, e eu depois consigo agarrar-me à corda, na boa, vai ser cool». Sem escamotear as mortes que poderão ter acontecido por acidente, Eduardo Sá explica que mesmo as outras, as que ocorreram por convicção, não têm bem a morte como objectivo: «Mesmo as crianças que pretendem morrer fazem-no mais para aniquilarem uma parte de si, condensada num sofrimento intolerável, do que propriamente para se matarem.»

Falta de pais

Nenhuma destas explicações, porém, seria suficiente para acalmar Ana e Tiago Mendonça, naquela noite em que as luzes do Natal perderam o sentido. Os pais de António tiveram medo. «Medo de que ele se pusesse a imitar o que tinha visto, medo de que aquilo o tivesse afectado, medo do que pudesse pensar.» Por isso, com muita prudência, como quem caminha numa loja de porcelanas, Ana encetou aquela que foi, até hoje, a conversa mais difícil que teve com o António. «Sabes, filho, aquele senhor era realmente muito mau. E fez coisas muito más a outras pessoas. Então…» Os silêncios e as reticências foram, como se imagina, abundantes. Como explicar a uma criança de cinco anos que «…e então uns senhores decidiram que para castigo o senhor muito mau tinha de morrer»? Mas foi isso, exactamente, que a mãe do António lhe contou. E como se não bastasse, às perguntas sobre o tema sobrevieram outras, e a prosa tornou-se muito mais filosófica do que Ana tinha imaginado que seria: «E quando se morre já não se acorda?»; «E depois de morrer para onde é que se vai?»; «E quando morrerem todas as pessoas de Portugal quem é que vem para cá? Os espanhóis?»

Não se sabe se os adolescentes que puseram uma corda à volta do pescoço atirando-se de seguida para a morte terão feito perguntas – mais ou menos filosóficas – aos pais, na sequência das imagens televisivas que os perturbaram. Não se pode saber que respostas poderão ter dado esses pais para os sossegar. Mas para Eduardo Sá fica claro que sempre que uma criança brinca com a morte «há, salvo nas situações muito acidentais, uma falta significativa de pais». Esse jogo de sedução com a morte é, segundo o psicólogo, «uma forma de dizer aos pais: “caso não repares de outra maneira, eu estou aqui”».

Imagens de choque com legendas

As razões para as mortes que se sucederam à exibição do enforcamento podem ser o patriotismo, a identificação, a depressão, o abandono. Mas há sempre quem se pergunte: e se as imagens não tivessem sido transmitidas? E se não tivéssemos visto, repetidas vezes, Saddam Hussein a caminhar tranquilamente para a morte, como um mártir? E se não nos tivessem mostrado a corda, o nervoso em redor, e depois o corpo inerte de um homem? Teriam estas mortes sido impedidas? Teriam ocorrido mais tarde, desencadeadas por outros motivos? Devemos culpar a televisão e o despudor com que nos exibe a violência?

Para Joana Cordeiro e Francisca G. a televisão tem muitas culpas e, por isso mesmo, perdeu o estatuto que deteve durante anos nas respectivas casas. A primeira é mãe de Pedro, hoje com nove anos. À segunda, já iremos.

Pedro Cordeiro passou um mau bocado com as imagens televisivas do 11 de Setembro. Tinha então quatro anos e ficou extasiado a ver corpos voarem em direcção ao chão. «Aquilo são pessoas, mãe? Pessoas? E estão a saltar das janelas? E vão cair?» Joana Cordeiro foi apanhada de surpresa. A torrente de imagens não cessava, em catadupa, e também ela não conseguia desligar o aparelho. «Estava perplexa com tudo aquilo. Ver aquele horror não fez bem a ninguém, mas a verdade é que não deve ter havido uma pessoa que não tenha ficado a ver, vezes sem conta, os aviões abater nas torres e as pessoas a atirarem-se das janelas.» Pedro também não escapou. Mas era demasiado cedo para o expor a tamanha brutalidade, que nem os adultos conseguiram digerir de imediato. A criança passou a ter pesadelos, gritava que ia cair, tinha medo de adormecer porque achava que vinha um avião contra a parede do quarto. «Cheguei a pensar levá-lo a um psicólogo. Mas o pediatra aconselhou-me atentar sossegá-lo, a deixar passar algum tempo. Foi o que fiz. Um mês depois já estava tudo a voltar ao normal, mas aprendi uma lição. Há coisas que os miúdos pura e simplesmente não podem ver. E o meu televisor passou a estar desligado à hora do jantar. Só vejo notícias quando eleja está a dormir.»

Rodrigo Guedes de Carvalho, pivot do Jornal da Noite da SIC, não tem o discurso apaziguador habitual de quem está «do outro lado». Pelo contrário: «Pela sua dimensão e alcance, a televisão tem deveres redobrados. Sou, nesse aspecto, cada vez mais uma excepção porque facilmente cortaria grande parte das imagens que transmitimos. Chamemos-lhe pudor, característica de que o jornalismo não me isentou.» Para o jornalista, «este é um dos mais incompletos e importantes debates para quem faz jornalismo televisivo». E sim, no caso da exibição da pena de morte de Saddam, Rodrigo Guedes de Carvalho crê que a televisão foi longe de mais. «Como foi longe de mais na transmissão daqueles aberrantes vídeos das decapitações de reféns por terroristas no Iraque, ou na repetição ad nausea de grandes planos dos corpos que se precipitavam do World Trade Center.»

Deverá, então, existir uma autocensura? As televisões deverão abster-se de divulgar imagens demasiado chocantes? E quem define a fronteira entre o que impressiona e o que é suportável? Não seriam as imagens de Saddam a própria notícia? Poder-se-ia deixar de transmitir as imagens das pessoas que se atiravam das janelas das torres gémeas em chamas? O jornalista defende que há mil formas diferentes de dar uma notícia: «Não se trata de esconder a morte: todos sabemos que o sexo existe e não vejo pornografia nos telejornais. Há um nível de choque que causa repulsa, e um nível de choque que, no limite, funciona como arma nojenta de sedução. Conhecedores do pior abismo da natureza humana, sabemos que as pessoas não desgrudarão o olhar. Veja-se os acidentes nas estradas.»

Para o psiquiatra Álvaro Carvalho, é certo que «houve um certo despudor» na exibição das imagens de Saddam. Mas, por outro lado, afirma que «os pais poderiam aproveitar para falar aos filhos da morte, da justiça, do bem e do mal». O problema, acrescenta, é que «regra geral não é isso que se passa» e, nos dias céleres de hoje, «avança-se por cima das coisas, faz-se de conta que não se vê, assobia-se para o ar como se nada fosse». Também Eduardo Sá alerta para os perigos de uma televisão omnipresente e, logo, omnipotente: «A televisão é uma janela para o conhecimento. Faz bem às crianças. O que não será razoável é que a televisão seja a baby sitter oficial de muitas famílias. Não me choca que, mesmo os programas de informação, tenham uma recomendação das idades das pessoas a quem são dedicados. Isto tudo sem nunca esquecer que os pais são as verdadeiras legendas dos programas de televisão, devendo descodificar algumas mensagens que a televisão torna acessíveis.» O psicólogo considera ainda que «mais violenta do que a imagem do enforcamento de Saddam terá sido a repetição compulsiva com que foi passada, acompanhada pela indiferença de muitos pais que comiam um belo bife ou saboreavam um gelado, enquanto uma pessoa era morta».

O efeito da violência nos media

Mas nem todos estão de acordo com esta ideia de que «a televisão faz bem às crianças». Francisca G., mãe do André, não pode concordar. No Carnaval do ano passado, o filho vestiu o fato do Super-Homem e atirou-se de uma janela. Tinha então três anos e, apesar das explicações da mãe sobre a incapacidade de os homens voarem, abriu a janela do primeiro andar da moradia onde vivem e saltou. «Sempre tive cuidado com o que ele via na televisão. Sempre lhe expliquei que os bonecos voavam porque eram bonecos, que morriam e voltavam a acordar porque eram ficção. Mas ele não me deu ouvidos. E naquele dia 19 de Fevereiro de 2006 atirou-se mesmo.» André não voou. Aterrou directamente no chão mas teve sorte. Não partiu nada nem se magoou a sério. Para Francisca fica a dúvida: «E se ele tivesse visto as imagens do enforcamento? Mesmo que eu lhe dissesse que aquilo era muito perigoso, que o senhor tinha morrido, que morrer é partir e nunca mais voltar, quem me garante que ele não se punha a brincar com uma corda?» Como prevenir que as crianças fantasiem sobre o que vêem, apesar dos alertas dos pais?

Vera Reimão Pinto, psicóloga do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, aconselharia provavelmente Francisca a procurar apoio psicológico para o André. Essa é, de resto, a sugestão feita aos pais sempre que uma criança aparece ferida nas urgências por ter imitado algo que viu num programa de televisão. Ao seu consultório chegam sobretudo pequenos «seguidores» do wrestling, um desporto americano de luta que tem vindo a colher seguidores em Portugal. «Aparecem algumas crianças que se magoam, até hoje sem gravidade, na imitação desse desporto. Imitar comportamentos é normal mas pode tornar-se perigoso. E a televisão em excesso, sem acompanhamento de adultos, pode ser mesmo nociva.» Sobre o perigo das imagens noticiosas, que relatam a vida como ela é e não a ficção, a psicóloga é peremptória: «A televisão abusa, sem dúvida, da violência das imagens. Não só neste caso. Mas já se tornou “normal” vermos corpos destroçados pela guerra, justamente à hora do jantar, quando as crianças estão na sala em frente ao televisor. Devia haver um maior rigor. E não só nas notícias. É chocante perceber que nos intervalos dos programas infantis se exibem promoções de outros programas, muito pouco próprios para crianças, com imagens que não são adequadas.»

O Comité de Educação Pública da Academia Americana de Pediatria tem vindo a estudar o efeito da violência nos media, e alguns resultados parecem mostrar uma relação mais elevada do que seria de esperar entre o visionamento e o comportamento. Nos Estados Unidos, qualquer criança antes de atingir os 18 anos já assistiu a cem mil actos de violência na televisão, tendo oito mil retratado a morte (National Institute on Media on the Family). O debate mantém-se em aberto. As dúvidas também. Mas, pelo sim pelo não, existe hoje uma barreira mais reforçada entre a televisão, o António, o Pedro e o André. Falta saber se os outros sete meninos e meninas estariam a salvo se as imagens do enforcamento de Saddam Hussein não tivessem passado, e tornado a passar, pelas suas (demasiado) breves vidas.

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