Confissões de uma adolescente

In Notícias Magazine
27.Ago.2006

Quando as palavras dos próprios dizem tudo para que é que nós, os adultos, havemos de meter o bedelho. Eis o que uma jovem, que prefere ficar sem nome, pensa da droga.

É uma boa pergunta, saber porque é que nunca tomei drogas, nunca mesmo. É claro que já tive muitas oportunidades de experimentar, não que alguém me empurrasse para consumir droga mas, enfim, se eu quisesse já tinha tido mais do que acesso. Tenho algumas amigas que estão profundamente metidas nisso e uma ou outra, de vez em quando, lá vem com a mesma coisa: «Tens a certeza de que não queres uma passa?». Mas digo sempre que não, porque confesso que não me interessa nada. E elas não insistem. Conheço até uma pessoa, lá no Conservatório, que toma sempre cocaína antes de actuar. Sei lá, se calhar é uma maneira de controlar os nervos e ultrapassar o medo de subir ao palco e ter que dançar bem. Outras deve ser para evitar comerem que nem cavalos, embora algumas delas, inclusivamente, sejam já magras até dizer basta.

Acho que o que me pôs definitivamente arredada das drogas foi o caso do meu primo João que, no ano passado, teve uma overdose de heroína e morreu. Tinha começado por coisas simples, erva e pouco mais, e de repente apanhou-se num estado completamente fora de controlo. Acho que foi isso que me meteu medo. Do que ouvi dizer, o João tinha um embrulho de heroína no quarto e ouviu as sirenes de um carro da polícia. Pensou que estavam atrás dele e ainda por cima alguém bateu à porta dele (como se abrigada de narcóticos fosse alguma vez bater à porta do quarto!). Com receio de ser apanhado tomou tudo de uma vez. Afinal era um amigo dele que estava a bater à porta, a chamá-lo para ver um acidente que tinha havido no cruzamento e era por isso que o carro da polícia passou. Acreditam que alguém seja capaz de tamanha estupidez?

Levaram-no logo ao banco de urgência, mas embora tenha sido coisa de alguns minutos entre a overdose e o chegar ao hospital, já não puderam fazer nada por ele. A minha mãe contou-me o que se tinha passado e fez-me impressão pensar que a pessoa se pode deixar levar a um estado em que já nem sequer pensa racionalmente.

Pessoalmente, acho que uma pessoa deve ser responsável pelo que faz e assumir a porcaria que fizer se se deixar descarrilar. Todos nós já passámos por situações cm que, por exemplo, bebemos de mais e deixámos de ter o controlo dos acontecimentos, portanto não vale a pena dizer que não sabemos o que é. Com o álcool, de qualquer maneira, sente-se a evolução dos acontecimentos e se a pessoa não for burra trava a tempo, a menos que não queira, obviamente, mas aí já é uma opção pessoal. Quando se fuma erva ou se tomam outras drogas, o efeito está lá e não se pode fazer nada para o controlar. É isso que me assusta.

Não tenho dúvida que as pessoas da nossa idade precisam de escapatórias para as coisas do dia-a-dia mas acho que há saídas bastante mais interessantes. Pessoalmente gosto de meditar – não, não se riam. Porque não? Quando começo a pensar em alguma coisa interessante e em mim própria atinjo níveis de satisfação e de tranquilidade que, se calhar, são tão grandes como se tomasse uma droga qualquer. Só que mantenho o controlo dos acontecimentos, essa é que a diferença, para além de não ter efeitos que não sejam estar bem comigo própria. Concordo que a vida às vezes é tão chata e tão cheia de dificuldades que é preciso uma solução, agora a droga… por amor de Deus, é darmos cabo de nós dando muito a ganhar a outros. Que ingenuidade…

Quando penso em mim própria, descubro que também tenho as minhas dependências – o exercício físico. O Rodrigo por acaso discorda e acha que a minha dependência maior é fazer compras. Quanto ao trabalho, para mim não representa uma dependência porque não lhe dou assim tanta importância, pelo menos por agora. Do que eu gosto, verdadeiramente, é de cultivar relações: a família, os amigos, eu própria. Nunca me sinto chateada e estou sempre a imaginar coisas para fazer…

Anúncios

8 thoughts on “Confissões de uma adolescente

  1. Muito bom texto. Deveria ser lido por muitos jovens e adolescentes para servir de aconselhamento.

  2. Gostei muito deste depoimento: revela uma lucidez pouco comum nos jovens dos nossos dias. Só lamento que esta jovem se não tenha querido identificar. Há que tomar posições frontais contra um inimigo que é público. Tenho um blog e publicamos lá textos das mais variadas proveniências. Gostaria de vos convidar a visitá-lo e também a publicar lá este depoimento, caso achem conveniente.
    Deixo aqui o link do nosso blog: http://escritaevoluir.blogspot.pt/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s