Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI – B. Cyrulnik

B. Cyrulnik – Os contos como pilar de resiliência – Introdução
B. Cyrulnik I -Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada/Como levar uma criança maltratada a repetir os maus-tratos
B. Cyrulnik II -Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI
B. Cyrulnik III – A narração não é o regresso do passado/O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo
B. Cyrulnik IV – A angústia do mergulhador
B. Cyrulnik V – Mesmo os mais fortes têm medo de se lançar

 

Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI

Agora que se começa a estudar cientificamente histórias de vida, descobre-se que em todas as épocas um grande número de pessoas tiveram de enfrentar semelhantes situações. Eram frequentes as feridas traumáticas há séculos atrás, e as histórias desses golpes permitem compreender como é que determinadas pessoas conseguiram escapar para levarem uma vida de seres humanos, apesar de tudo. Tomás Platter foi um aluno vagabundo no séc. XVI. Nasce perto de Zermatt, corre o risco de morrer por a mãe não o poder amamentar. Dão-lhe a mamar por um corno furado leite de vaca durante cinco anos. O pai morre quando Tomás é ainda bebé de leite. A mãe, falida, entrega-o à irmã quinteira, que faz dele um criado desde os sete anos de idade. Muito frágil, é agredido pelas cabras, sovado pelos criados, amachucado por frequentes acidentes, queimado uma vez com água a ferver, anda com os pés gelados por não ter tamancos para caminhar na neve, mas o seu maior sofrimento é a sede.

Ao interrogarmos crianças de rua, elas dizem-nos até que ponto a sede é uma preocupação constante, muitas vezes até uma tortura. Mas, anos mais tarde, quando lhes pedimos que contem os momentos difíceis, escolhem de entre as suas lembranças e contam só os acontecimentos plausíveis, esquecendo mesmo a sede que passaram. Não nos devemos admirar deste aspecto reconstrutivo da memória, que explica também o seu potencial terapêutico. Ao seleccionarem recordações lógicas, esquecendo os acontecimentos não significantes, dão coerência à imagem que têm do seu passado e sentem-se mais identificadas. A sede que as torturou durante grande parte dos seus dias não ocupa qualquer lugar nas suas recordações. Pelo contrário, a escola é um acontecimento grande da sua história, porque constitui o primeiro passo para a socialização.

Na época de Tomás Platter, os professores batiam terrivelmente nas crianças. Erguiam-nas pelas orelhas, gostavam sobretudo de bater nas pontas dos dedos onde a sensibilidade à dor é maior. Platter vai de dia à escola e de noite mendiga. “Muitas vezes passei muita fome e muito frio quando rondava até à meia-noite a cantar no escuro para conseguir pão.” Dão-lhe, com frequência, pão duro e com bolor. Come com satisfação, mas o prazer não é físico. Não é o pão que lhe causa gozo, mas o facto de ter a coragem de engolir um alimento bolorento que nele faz nascer a esperança de um pouco mais de vida. A significação do facto resulta do contexto: comer pão com bolor sozinho na rua dá um pouco de esperança, enquanto que, se Platter tivesse comido o mesmo pão no seio de uma família rica, teria sofrido com isso. Após alguns meses de escola, ainda vive na rua, onde descobre o valor protector do grupo. Estes “bandos” de 8 a 9 crianças de idades compreendidas entre os 10 a 15 anos percorriam a pé enormes distâncias. Tomás sai de Zurique, chega a Dresde, faz estadia em Munique e regressa a Dresde. Cresce, conhece o país, aprende os falares das regiões que atravessa, a ponto de já não o entenderem quando regressa à terra. Estas crianças são agredidas fisicamente, exploradas, desprezadas, insultadas regularmente. Quanto mais crescem, mais vergonha sentem de mendigar.

Perto do lago de Constança, Tomás experimenta uma verdadeira paixão à primeira vista ao deparar-se “em cima da ponte com alguns rapazinhos camponeses suíços com os seus bibes brancos. Ah, que feliz que me senti, julguei estar no paraíso.” Vai à escola aqui e acolá. Aos 18 anos não sabe ler, mas diz para si próprio: “Ou vais estudar ou morres.” Então aprende latim, grego, hebraico, com um frenesi de autodidacta, tudo e à pressa, de uma forma desorganizada. Faz-se cordoeiro, casa-se e perde a mulher, volta a casar, toma conta de numerosas crianças e continua os seus estudos. Chega a ser doutor e mestre, director de uma escola altamente prestigiada em Bale, reitor da escola da Catedral. E até um dos seus filhos, Félix Platter, virá a ser médico da corte de Henrique IV, amigo de Montaigne e escritor célebre.

Uma vida destas é frequente na Europa daquela época. Platter não transmitiu os maus tratos aos filhos. Será que lhes transmitiu a ânsia de aprender e a febre de vir a ser feliz? Este género de reconstrução, certamente, segue em paralelo com a angústia e o esgotamento, mas quem disse que a resiliência era um caminho fácil?

O que me espanta é o arrebatamento do pequeno Tomás ao ver os bibes brancos dos meninos bem-educados. Como um pára-raios, só recebeu o raio por ser um receptor privilegiado. Sensível a este tipo de imagens, captava-as melhor do que ninguém, parecia estar mesmo à espera delas. Sentiu-se no paraíso ao ver os bibes brancos, enquanto qualquer outra criança abandonada sentiria raiva ou inveja. Porque é que Tomás ansiava por bibes brancos e pela escola, ele que mendigava, dormia na rua e era analfabeto?

Provavelmente, porque uma parte da sua personalidade fora moldada por acontecimentos que, impregnados na sua memória, o tinham deixado sensível a este tipo de projecto de existência. O seu ideal do eu, as aspirações e provavelmente os seus devaneios revelavam o que ainda podia fazê-lo feliz, a ele que só conhecera uma sucessão incrível de infortúnios.

No nosso mundo moderno, as crianças de rua, cujo número aumenta consideravelmente, conhecem uma aventura igual à de Tomás Platter no séc. XVI. Antes de irem para a rua conheceram interacções prematuras que causaram uma primeira ligação difícil. E uma vez na rua, não terão elas sido ainda mais agredidas do que Tomás Platter?
Quem trabalhou com crianças de rua constatou as suas doenças físicas, as suas feridas “acidentais” frequentes, a dificuldade de se aproximar delas e estabelecer com elas uma ligação. E, no entanto, o que nos impressiona são as crianças que, apesar dos azares e do horror do quotidiano, conseguem resistir e mesmo encontrar uma saída. É por essas que temos de nos interessar, para compreendermos como tudo se processou nelas e no ambiente, a fim de melhor ajudarmos as que têm dificuldade de se reconstruir.

segue:  A narração não é o regresso do passado/O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo

Boris Cyrulnik
Le Murmure des fantômes
Paris, Éditions Odile Jacob, 2003
Excertos adaptados

A edição em língua portuguesa está editada no Brasil:
Boris Cyrulnik, O Murmúrio dos fantasmas, Editora Martins Fontes
ISBN: 8533621272

 

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