A angústia do mergulhador de alto voo – B. Cyrulnik

B. Cyrulnik – Os contos como pilar de resiliência – Introdução
B. Cyrulnik I -Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada/Como levar uma criança maltratada a repetir os maus-tratos
B. Cyrulnik II -Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI
B. Cyrulnik III – A narração não é o regresso do passado/O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo
B. Cyrulnik IV – A angústia do mergulhador
B. Cyrulnik V – Mesmo os mais fortes têm medo de se lançar

A angústia do mergulhador de alto voo

No Ocidente, a adolescência é cada vez mais precoce e cada vez mais longa. A melhoria das condições educativas permite ao jovem de 12 ou 13 anos ver-se na situação do mergulhador que se questiona de que altura vai ter de saltar. Há água lá em baixo? O corpo aguentará o choque? E a alma dar-lhe-á coragem para se lançar no vazio? Esta metáfora do mergulhador permite ilustrar a atitude de um número crescente de adolescentes para quem o desejo de se lançar na vida é tão grande como o medo de saltar. Daqui resulta uma espécie de inércia fervilhante em que o refugiar-se na cama nunca está longe da explosão brutal. Os adolescentes abrandam o passo, arrastam-se na escola, sonham fazer um mergulho maravilhoso, criticam a sociedade por não ter posto água suficiente na piscina e os pais por não os terem preparado para mergulhar. Sentem-se mal, a julgar pela forma como se aborrecem nesta rigidez febril. A passagem ao acto é como uma libertação. Sentem o alívio após uma explosão, depois, ao fazerem disso a sua história, melhoram a construção da sua identidade: “Vivi um acontecimento extraordinário”, “Sou aquele que foi capaz de vencer uma terrível prova”.

Todos os nossos progressos sociais concorrem para desenvolver este sofrimento. Os progressos da compreensão da primeira infância, a tolerância familiar, a incitação a prosseguir estudos, o aperfeiçoamento das técnicas cuja aprendizagem retarda a integração dos jovens, tudo pronto para facilitar a sua inércia fervilhante sem ter em conta a enorme componente afectiva, que, doravante, tem de encontrar um novo modo de expressão: “Aprendi a amar de uma maneira serena”, poderia pensar quem nos primeiros anos de vida adquiriu um sentimento de pertença forte: “Como sou amável, sei que vão amar-me. Vou preparar-me para isso e encontrar aquele ou aquela que há-de saber amar-me. Havemos de nos respeitar e ajudar.” Esses jovens passam uma adolescência cheia de emoção e ultrapassam as dificuldades. Não é o caso de um em cada três que, tendo tido uma afiliação insegura, fica mais angustiado ainda quando o desejo sexual aparece.

O domínio da linguagem, no terceiro ano de vida, fora um momento extraordinário, a descoberta de um mundo novo que é possível criar movendo apenas a língua. Este jogo fabuloso melhorava a relação com os seres de pertença e enriquecia o mundo capaz de ser partilhado com eles, desde que se conseguisse fazê-lo viver com as nossas palavras. Mas, na puberdade, quando o fogo do desejo sexual aparece, vai provocar uma outra viragem mais difícil de negociar, porque agora tem de ser apoiada em bases afectivas apreendidas durante os primeiros anos, para adquirir uma outra maneira de amar. Trata-se de manter a ligação às figuras parentais e descobrir que o objecto dos nossos desejos exige outros comportamentos. A ligação aos pais era muito sexuada (uma mãe, não é de maneira nenhuma um pai), mas completamente desprovida de apetência sexual. Se a imagem de uma possibilidade sexual tivesse surgido, a angústia, o horror ou o ódio ter-nos-iam conduzido a uma violenta autonomia. Normalmente, quando tudo corre bem, depois da crise, o adolescente continua ligado aos pais. Terá depois de aprender a amar o cônjuge de uma outra maneira, já que este terá de realizar uma dupla tarefa: ser o objecto do desejo do seu parceiro e ser também o objecto da sua ligação afectiva.

Esta viragem é difícil de negociar por exigir a coordenação de pulsões heterogéneas: “Comprometo-me com a marca do passado, com a ideia que tenho de mim, com o sonho do meu futuro”, “tenho de me libertar daqueles a quem ainda estou ligado. Tenho de me ultrapassar se quero continuar o meu desenvolvimento afectivo, sexual e social”.

O adolescente tem de integrar forças de natureza diferentes, muitas vezes opostas até. A pulsão hormonal desempenha um papel deflagrador no aparecimento da apetência sexual. A testosterona incendeia os rapazes e acende as raparigas: o trabalho consiste em polir essa pulsão. Como exprimi-la? Como fazê-lo? Para se dar a essa força jorrante uma forma aceitável, é preciso comprometer-se com o nosso modo de amar dentro dos circuitos afectivos propostos pelo objecto de amor e pela nossa cultura.

Mesmo quando tudo corre bem, não é fácil. Tem-se de admitir, então, que quando um dos dois parceiros teve dificuldades de desenvolvimento afectivo ou quando a cultura não propõe nenhum modelo de comportamentos amorosos, será ainda mais difícil. Quando um défice relacional precoce não foi corrigido pelo clima familiar nas interacções diárias, a perturbação afectiva explode na adolescência.

Muito paradoxalmente, quando as perturbações são visíveis, é fácil enfrentá-las. Pode-se ajudar uma criança a alterar a sua ligação, ensiná-la a amar de forma mais agradável. Isto explica provavelmente porque é que quando acompanhamos durante muito tempo um grupo de crianças que adquiriram precocemente um estilo de ligação insegura (ambivalente, defensiva ou confusa) constata-se que um terço dessas crianças melhoram de uma forma surpreendente na adolescência e criam uma ligação segura.

Segue

NOTA: a edição em língua portuguesa deste livro existe no Brasil:
Boris Cyrulnik, O Murmúrio dos fantasmas, Editora Martins Fontes
ISBN: 8533621272

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