A narração não é o regresso do passado / O contar… – B. Cyrulnik

B. Cyrulnik – Os contos como pilar de resiliência – Introdução
B. Cyrulnik I -Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada/Como levar uma criança maltratada a repetir os maus-tratos
B. Cyrulnik II -Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI
B. Cyrulnik III – A narração não é o regresso do passado/O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo
B. Cyrulnik IV – A angústia do mergulhador
B. Cyrulnik V – Mesmo os mais fortes têm medo de se lançar

A narração não é o regresso do passado

O caminho mais saudável e menos custoso é formado pela narratividade. Esta competência da história de si é necessária para a formação da imagem da própria personalidade. Este trabalho causa um estranho prazer. Compreende-se facilmente o deleite provocado pela lembrança de momentos felizes, como acontece quando estamos em grupo e o evocar momentos alegres faz voltar essa felicidade. Assim se tece a afeição entre os que partilham uma mesma recordação. Mas recordar permanentemente um episódio doloroso, fazer voltar as imagens tristes, repetir os diálogos conflitivos e imaginar outros, provoca uma emoção embaraçosa e desgosto. E é provavelmente esta estranheza que permite compreender a função da narrativa interior: tornar a ter em mãos a emoção provocada pelo passado e voltar a manuseá-la para fazer dela uma representação de si intimamente aceitável.

Este trabalho da história tem um duplo efeito. Primeiro, na função da identidade: “Eu sou aquele que fugiu de uma casa de correcção, mandou o pai para a prisão para proteger as irmãs…” Depois, uma função de tratamento das emoções: “Agora, já consigo suportar a lembrança do exército chileno a expulsar a minha mãe com os filhos pequenos. Sinto mesmo, vinte e cinco anos depois, uma vaga vaidade ao evocar esta recordação dolorosa a partir de Espanha, país que me acolheu, e me deu responsabilidades importantes.” O facto de contar permite constituir-se em sujeito íntimo e a narração convida-o a ocupar o seu lugar no mundo, partilhando a sua história. O que é intimamente aceitável liga-se ao socialmente partilhável. Após este trabalho, o ferido pode olhar-se de frente e integrar-se na sociedade.

Não se trata de regressar ao passado, o que é impossível. Quando conto a minha visita ao palácio do rei Miguel na Roménia, não é a viagem de quatro horas para Constanza que vem ao de cima. Lembro apenas a densidade da floresta, o tempo pesado e a lentidão da viagem. Condenso algumas imagens significativas: o isolamento do castelo, a mudança barroca do estilo em cada divisão e semantizo aqueles desenhos para que eles me permitam, num só flash, recordar aquela viagem à Roménia.

No tocante à verdade das recordações, são tão verdadeiras como as quimeras. Tudo é verdadeiro em tal monstro: o corpo é o de um leão, o peito, de uma cabra, e as asas, essas, são de águia. No entanto, o animal mítico não existe na realidade. Existe sim numa representação que o falante faz do real e que partilha com os seus companheiros de cultura.

O resultado deste duplo efeito é que as histórias íntimas ou culturais podem criar, no mundo psíquico, um equivalente sentimento de pertença segura quando os laços precoces o construiram deficiente. A ligação precoce fica gravada no temperamento infantil sem os pais se aperceberem, mas a narração discursiva, essa sim, pode ser urdida intencionalmente pelo trabalho de psicoterapia, de criatividade artística, ou por um debate sociocultural. Todos estamos obrigados a seguir este caminho, a fim de construirmos a nossa identidade e ocuparmos um lugar no grupo. Os feridos da alma têm de o fazer com o trauma na sua memória e a narração que dele fazem aos outros, o que não quer forçosamente dizer que se torne pública uma ferida íntima.

O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo

Certas crianças gravemente feridas, ou que vivem num mau ambiente, demitem-se e tornam-se embotadas, confusas, escravas do passado, ruminando o golpe sempre a sangrar. Enquanto outras conseguem criar uma história interior necessária à sobrevivência psíquica. O contar põe em cena factos reais, cuja significação depende de quem deles falar. Georges Perec nunca viu desaparecer ninguém, até que um dia é o seu desaparecimento que ele vê. Durante a 2ª Guerra Mundial raramente se viu desaparecer judeus, mas, uma vez, demo-nos conta de que tinham desaparecido. Georges lembra-se de que o pai estava lá, de uniforme de soldado francês da Legião Estrangeira. E um dia… já não estava lá. Recorda-se da mãe o acompanhar à gare do Norte, e depois… já não estava lá. O seu mundo esvazia-se sem traumatismo aparente. O golpe é enorme, invisível, e a criança não compreende nada, porque não pode ver uma coisa que já não está lá. Então, durante os quatro anos de encontros com o psicanalista, esboroa a carapaça dos seus refúgios raciocinadores e depara-se com recordações que, para si, passam a ser factos reparadores da sua imensa ferida: “gostaria de ter ajudado a minha mãe a levantar a mesa da cozinha.” Estão a ver que para se gostar duma tal recordação é preciso não se ter tido mãe. Um acontecimento não é o que se pode ver nele ou aquilo que se sabe dele, é aquilo que dele fazemos na necessidade que temos dele para virmos a ser alguém. A mais simples banalidade traz em si a semente de um grande acontecimento interior, se dermos à pessoa atingida um lugar e um meio de poder mergulhar à procura das recordações perdidas. O acontecimento é o que fazemos daquilo que nos sucede: um desespero ou uma glória.

segue:  A angústia do mergulhador

Boris Cyrulnik
Le Murmure des fantômes
Paris, Éditions Odile Jacob, 2003
Excertos adaptados

A edição em língua portuguesa está editada no Brasil:
Boris Cyrulnik, O Murmúrio dos fantasmas, Editora Martins Fontes
ISBN: 8533621272

Anúncios