Evolução – Bernard Weber

Evolução

E já o terceiro adversário se aproxima.

É cúbico, titânico, frio.

Está munido de cadeias que esmagam tudo.

É o sistema social em que estás inserido.

À volta dele reconheces várias cabeças.

São as dos teus professores,

dos teus chefes hierárquicos,

dos polícias,

dos militares,

dos padres,

dos políticos,

dos funcionários,

dos médicos,

que se encarregam de te dizer sempre se agiste

bem ou mal.

E o comportamento que deverás ter

para te manteres

dentro do pelotão.

É o Sistema.

Contra ele a tua espada é impotente.

Quando lhe tocas, o sistema bombardeia-te

com folhas:

cadernos de apontamentos,

circulares,

formulários da Segurança Social

para preencheres,

se quiseres ser reembolsado,

folhas de impostos sobrecarregadas

devido a atrasos nos pagamentos,

formulários para licenças,

declarações do fim do direito ao subsídio

de desemprego,

contratos de arrendamento, impostos locais,

electricidade, telefone, editais, ameaças do Banco,

convocatórias para esclarecer a situação familiar,

reclamações sobre a ficha do estado civil

de há menos de dois meses…

O Sistema é demasiado grande, pesado, obsoleto,

complexo.

Atrás dele, todos os que estão sujeitos ao sistema

avançam,

acorrentados.

Preenchem formulários.

Alguns estão em pânico,

pois já passou o prazo limite.

Outros porque lhes falta um documento oficial.

Outros tentam, quando as coisas se tornam

mais desconfortáveis,

descontrair um pouco o pescoço.

O Sistema aproxima-se.

Estende-te um colar de ferro que te vai ligar

à corrente

de todos os que já são seus prisioneiros.

Avança, sabendo que tudo se vai passar

automaticamente

e que não tens qualquer escolha nem hipótese

de evitar nada.

Perguntas-me o que hás-de fazer.

Respondo-te que, contra o Sistema,

é preciso fazer a revolução.

A quê?

A revolução.

Prendes então uma fita vermelha à cabeça,

agarras na primeira bandeira que vês e ergue-la,

gritando:

Morte ao Sistema!

Receio que te estejas a enganar.

Agindo assim, não só perdes qualquer hipótese

de ganhar como ainda reforças o Sistema.

Repara, ele aperta ainda mais as correntes

pretextando que é para se defender

contra a «tua» revolução.

Os acorrentados não te agradecem.

Antes, ainda tinham alguma esperança

de conseguir

alargar as correntes.

Por tua causa, isso é agora mais difícil.

Ainda por cima, agora não só tens o Sistema

contra ti como também os acorrentados.

E essa bandeira que ergues, é verdadeiramente

a tua bandeira?

Desculpa, mas tinha de te avisar.

O Sistema alimenta-se da energia

dos seus adversários.

Por vezes, é ele quem lhes arranja as bandeiras.

Deixaste-te apanhar!

Não te inquietes, não és o primeiro.

Então, que fazer, submeter-te?

Não.

Estás aqui para aprenderes a vencer

e não a resignar-te.

Contra o Sistema   vais precisar de inventar

uma outra forma de revolução.

Proponho-te que coloques uma letra

entre parênteses.

Em vez de fazeres a revolução dos outros,

faz a tua (r)evolução pessoal.

Em vez de pretenderes que os outros sejam

perfeitos, evolui tu.

Procura, explora, inventa. Os inventores,

esses são os verdadeiros rebeldes.

O teu cérebro é o único território a conquistar.

Pousa a tua espada.

Renuncia a qualquer espírito de violência,

de vingança ou de inveja.

Em vez de destruíres esse colosso ambulante

sobre o qual toda a gente

já partiu os dentes,

agarra num pouco de terra e constrói

o teu edifício num cantinho qualquer.

Inventa. Cria. Propõe outra coisa.

Mesmo que a princípio só pareça

um castelo de areia, é a melhor forma de atacares

este adversário.

Sê ambicioso.

Tenta que o teu sistema seja melhor

do que o sistema vigente.

Automaticamente, o sistema antigo

ficará ultrapassado.

É porque ninguém propõe nada mais

interessante que o Sistema esmaga as pessoas.

Nos nossos dias há, por um lado,

as forças do imobilismo

que pretendem a continuidade,

e por outro, as forças da reacção

que, por nostalgia do passado, te propõem lutar

contra o imobilismo, regressando

a sistemas arcaicos.

Desconfia destas duas posições.

Existe forçosamente uma terceira via, que consiste

em andar para a frente.

Inventa-a.

Não ataques o Sistema.

Ultrapassa-o!

Vamos, constrói rapidamente.

Chama o teu símbolo e introdu-lo no teu castelo

de areia.

Mete lá tudo aquilo que és: as cores, as músicas,

as imagens   dos teus sonhos.

Olha.

Não só o Sistema começa a abrir brechas,

como também vem observar o teu trabalho.

O Sistema encoraja-te a continuar.

É isso que é inacreditável.

O Sistema não é «mau», está é ultrapassado.

O Sistema está consciente do seu próprio atraso.

Há muito que esperava que alguém como tu

tivesse a coragem de propor outra coisa.

Os acorrentados começam a discutir

uns com os outros.

Dizem que conseguem fazer o mesmo.

Sustém-nos.

Quanto mais criações originais houver,

mais o Sistema antigo renunciará

às suas prerrogativas .

Bernard Weber, O Livro da Viagem , 1998 (excerto)

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