Reflexões de um psiquiatra – Herbjorg Wassmo

As dádivas da vida

As violências, as situações negativas, as dificuldades encontradas ao longo da vida parecem deixar mais vestígios no nosso espírito, na nossa memória, no nosso corpo ou na nossa história do que os acontecimentos felizes que possamos ter vivido.

Depositam-se no fundo do ser, abrem fendas e revelam falhas. Inscrevem-se como feridas, como páginas amarrotadas ou rasgadas da nossa história que nos apressamos a contornar, a pôr de lado, a esquecer.

Tudo se passa como se o nosso plano de consciência ficasse cativo de uma percepção clivada e fundamentalmente dual da realidade: de um lado tudo o que é bom, tudo o que está conotado com o prazer, a gratificação e a segurança (todas as mensagens desta natureza são cultivadas, granjeadas, procuradas ou até endeusadas numa ideologia positivista); do outro lado tudo o que gera desprazer, confronto com o inaceitável, com a insegurança, tudo aquilo que será negado, repudiado, dividido a meio, e que, no entanto, permanece nos traços profundos que deixa em nós.

Tudo se passa como se não tivéssemos aprendido a descodificar as mensagens da vida contidas em cada acontecimento, para lá da sua conotação imediata de sofrimento, de obstáculo ou de dificuldade; como se não soubéssemos captar, e menos ainda, acolher os fenómenos gratificantes, os factos positivos, as oferendas da vida, escondidas, mas presentes… em tudo o que nos acontece.

Os Índios da costa oeste do Canadá afirmam que “qualquer acontecimento, qualquer encontro, esconde uma bênção”, desde que aceitemos descobri-lo como tal.

Uma tal disponibilidade de acolhimento, uma tal disposição supõe que possamos entrar num tipo de sintonia particular, numa harmonia, no sentido vibratório do termo, entre aquilo que nos chega da vida e a forma como o vamos captando, recebendo, integrando e assimilando.

Uma rapariga tinha ganho dois lugares gratuitos para um concerto de jazz oferecidos por um grande jornal diário suíço. Fora recebida no salão VIP, agraciada com muitos presentes: saco, disco, esferográfica… No intervalo, para ir beber um refresco, pousa o porta-moedas junto da cadeira, juntamente com o copo vazio, para ficar com as mãos livres e saborear uma barra de chocolate; depois, na confusão do momento, esquece-se do porta-moedas e do saco. Ao voltar para casa, dá-se conta das coisas perdidas: dinheiro, documentos, cartões de crédito. Fica desnorteada, imagina o pior e começa a recriminar-se, tanto pelo que tinha feito como por aquilo que deixara de fazer… Depois, caindo em si, imagina que alguém poderá ter encontrado o porta-moedas, e sobretudo os documentos, e então consegue passar o resto da manhã mais animada. Disse mais tarde: “Eu, que acabava de perder tanta coisa, sentia-me sintonizada com o dar.” No final da manhã, o telefone toca e ouve alguém anunciar-lhe que tudo fora encontrado intacto: porta-moedas, documentos, cartões de crédito e o dinheiro. Tratava-se de um jovem casal que, tendo assistido ao mesmo concerto, vira o porta-moedas e o saco esquecidos debaixo da cadeira. Acrescentou: “Dali em diante, tornámo-nos próximos. Senti uma corrente de afinidades muito forte entre mim e aquele casal. Foi assim que aqueles amigos entraram na minha vida.”

Quando deparamos com aborrecimentos, arrelias ou contrariedades, quando temos um acidente, quando a doença surge, quando um ser amado nos deixa, é-nos muito difícil, num momento inicial, perceber em que é que estes acontecimentos podem ser positivos, em que é que eles são portadores de uma dádiva! Os factos em si, a violência que os acompanha irritam-nos, revoltam-nos, violentam-nos e desestabilizam-nos. Provocam atitudes de reacção ou de defesa. Por vezes até nos ferem, martirizam-nos, podem atingir-nos no mais fundo e destruir uma parte essencial de nós mesmos. É necessário um regresso a nós próprios, um trabalho de interiorização e de tomada de consciência antes de se poder encontrar a chama viva da nossa frágil existência, a abertura possível e a mudança depois do período de insegurança, antes de descobrirmos o milagre que nos é oferecido naquilo que, num primeiro instante, só deixara antever a violência, o caos, a injustiça ou a confusão inaceitável.

“Quando o meu namorado me deixou, julguei que a minha vida tinha acabado. Achava que já não tinha qualquer valor nem utilidade à face da terra, que já não tinha nenhuma razão para viver. E quando uma amiga me propôs que fosse para junto dela, para o estrangeiro, fi-lo por ela, pelo menos assim o julgava. Seis meses depois, fazia-o por mim, ao começar um curso. Estou convicta de que não seria a mulher que hoje sou se não tivesse dado ouvidos aos sinais que me chamavam para fora de mim, para fora do meu país.”

“Esta doença foi uma verdadeira revelação. Mudei o meu modo de vida, a forma de me vestir, os meus passatempos transformaram-se numa festa. É certo que perdi alguns amigos, mas encontrei outros.”

Um acontecimento traumático pode vir a ser revelador de potencialidades inexploradas, de aspectos de nós mesmos ainda por descobrir.

Uma crise, um conflito agudo, podem ser catalisadores de energias dispersas, permitindo mobilizar riquezas desconhecidas, despertar potencialidades inesperadas.

A vida contém muitos presentes. O mecanismo parece ser o seguinte: os sinais positivos, quando são recebidos e tidos como tal, dão energia, e essa energia transforma-se de uma certa forma em sensação de bem-estar, em amor. Pelo contrário, os sinais negativos podem ser captados como violências que despertam feridas que, por sua vez, geram sofrimento. O sofrimento, o ressentimento desvitalizam, consomem energia.

Deveríamos, então, optar por uma aprendizagem das relações humanas que nos permitisse acolher, com gratidão, a vida contida em todo e qualquer acontecimento, em qualquer encontro, em toda a partilha. Pois é disso que de facto se trata. Estar vivo é acolher a vida. Nós não recebemos a vida só no momento da concepção ou do nascimento, como um capital adquirido e que só bastaria gerir ao longo da existência terrestre. Penso que podemos acolher, dinamizar a vida que vem ao nosso encontro sob todas as suas formas, tal como se nos apresenta no dia-a-dia de uma existência.

Em qualquer encontro, através de estímulos que nos chegam da natureza, dos seres, dos acontecimentos e das situações que interagem connosco, a vida está presente, presente em toda a parte, pedindo apenas para encontrar vida. Somos, de algum modo, receptores e passadores de vida.

Acolher a vida, valorizá-la, ampliá-la e espalhá-la à nossa volta, pode ser esse o sentido da nossa passagem sobre a Terra. Poderíamos, assim, renunciar a muitos engodos, a muitas mitologias à volta do amor. Ao aprendermos a amar-nos, poderíamos alargar as nossas relações em termos de “ecologia relacional”.

Se soubermos acolhê-las, é certo que receberemos dádivas da vida mas podemos também oferecê-las, espalhá-las, criá-las. Cada pessoa poderia interrogar-se à noite antes de adormecer:

Que presente de vida pude oferecer hoje? Que palavra, que olhar, que sorriso, que gesto, que aceitação, que confirmação ofereci, recebi, revelei?

Quem é que, todos os dias, é capaz de transmitir, àquele que encontra, o sentimento de fazer crescer a vida, de embelezar o seu olhar, de ter acesso à sua palavra, de se sentir mais amado, mais presente? Quem pode ter o propósito de se aceitar melhor, de ousar amar-se e de amar a tempo inteiro?

Tornar-se, assim, um semeador de Vida.

A vida é uma espécie de dádiva que dura um instante – apenas.

Herbjorg Wassmo