Falar com um Século – J. J. Letria

Falar com um Século

 

Se não é fácil contar a história de uma pessoa desde o nascimento até à morte, há-de ser mais difícil contar a história de um século, ainda por cima do mais extraordinário e mais trágico da história da Humanidade.

Já deves ter percebido que estou a falar-te do século XX, em cuja fase final tu nasceste e do qual ainda viste alguns acontecimentos inesquecíveis.

Se te disse que foi o século mais extraordinário da história da Humanidade, foi porque, durante esses anos, a ciência e a técnica avançaram até níveis nunca antes alcançados ou sequer imaginados. Basta lembrar-te que é o século do cinema e da televisão, da aviação, da ida do Homem para o espaço, da chegada à Lua, da terrível invenção da bomba atómica, da clonagem e da Internet.

Mas o século XX foi também o mais trágico, por ter sido aquele em que mais pessoas morreram em duas guerras mundiais, para não falar de outras como a do Vietname, do Afeganistão, do Ruanda, da Coreia, das ex-Colónias portuguesas ou a Guerra Civil de Espanha. Foi também o século em que a guerra passou a ser feita com meios aéreos e com o recurso a meios químicos e bacteriológicos, que são a vergonha da espécie humana.

Mas, para não falarmos somente de aspectos negativos, deverei lembrar-te que este foi o século em que a Humanidade mais avançou em matéria de direitos e garantias para os cidadãos. Neste aspecto, pode dizer-se que foi o século do triunfo da democracia, dos direitos humanos e da entrada plena e definitiva da mulher na vida sindical, na vida política e no mundo do trabalho, em pé de igualdade com o homem, embora haja ainda, sobretudo em continentes como a África e a Ásia, passos de gigante a dar nesse domínio.

É de tudo isto que este livro irá falar ou, pelo menos, tentar falar. Mas como? Ora aí está uma excelente pergunta.

Decidi utilizar a forma de entrevista, ou de conversa, dando voz ao próprio século XX que, graças à imaginação de quem escreve, irá ser confrontado com as perguntas de um grupo de jovens do qual tu também podes, enquanto lês, supor que fazes parte. Aliás, proponho-te mesmo que o faças, para que possas sentir que as perguntas também te pertencem e que as respostas, de facto, te satisfazem. Quero que entres neste diálogo aberto, com a curiosidade que caracteriza os jovens e a sua relação com a vida e com o mundo.

Para poderes compreender os tempos que estão para chegar e nos quais tu e milhões de jovens da tua idade irão ser os protagonistas e tomar as decisões fundamentais, é indispensável que compreendas o que foi e o que representou o século XX. Sem se perceber o passado, é impossível ter-se uma visão acertada do que pode e deve ser o futuro.

O final do século XX foi marcado, sobretudo, pelo aumento da importância da imagem em relação à palavra. Se te digo isto é porque acredito que o livro e a palavra escrita irão continuar a desempenhar um papel fundamental na vida dos seres humanos e na defesa das suas identidades culturais.

No final desta entrevista ao século XX, que te irá surgir como um senhor idoso, sábio, experiente e, se calhar, um pouco desencantado, é natural que perguntes: “se tanta coisa avançou nos domínios da ciência, da técnica e do conhecimento em geral, por que razão continua o ser humano a cometer os mesmos erros de sempre, a ser agressivo e tantas vezes dominado pela inveja, pela cobiça e pela sede de poder? Se todos percebemos que é urgente proteger o ambiente e ser solidário, porque temos tanta dificuldade em praticar esses actos tão simples e tão essenciais?”

Imagino que este livro não tenha resposta para todas as tuas perguntas, mas tenho a certeza de que ficarás a saber um pouco mais do que sabias sobre o século em que nasceste.

De outra coisa estou certo: irás perceber que a qualidade de vida do século XXI dependerá em grande parte daquilo que, como cidadão, como mulher ou homem, fores capaz de fazer por ele, percebendo que se há direitos também há deveres e que falar de globalização ou de mundialização significa que nada do que acontece neste mundo nos deve ser indiferente. Mais do que nunca, nós fazemos parte deste mundo e temos o dever de o tornar melhor, para que não haja ricos cada mais ricos, pobres cada vez mais pobres e milhões de pessoas a morrerem diariamente de fome e com doenças que há muito deveriam estar afastadas da lista das nossas preocupações.

Imagina agora que o século XX vai responder às perguntas de uma turma igual à tua e que cada uma delas é feita por um jovem diferente, não importando os nomes nem a ordem por que vão falar. O que conta são as perguntas e a capacidade que as respostas terão de esclarecer e informar.

Se quiseres, forma um grupo com os teus amigos e distribuam entre vós as perguntas, arranjando alguém mais velho que represente o papel do século XX. Talvez assim, com vozes e rostos bem identificados, este exercício de diálogo se torne mais aliciante e ganhe vida, mesmo fora do livro para o qual foi escrito. O importante é que, sempre que se falar do século XX, percebas que é um assunto que também te diz respeito e que não há memória que possa viver sem os factos e as datas que preencheram estes cem anos da vida da Humanidade.

UM MUNDO DE COMUNICAÇÃO

P. – Basta olhar um pouco para trás no tempo para se perceber que até foi um século de grande agitação, de grande inovação e grande mudança. É também dessa opinião?

R. – Não podia estar mais de acordo convosco, e há vários domínios em que esses aspectos são muito visíveis.

P. –Pode dizer-nos quais são?

R. – Vou tentar, e digo que vou tentar porque, esta memória, velha de 100 anos, já não é o que era. Eu acho, por exemplo, que fui o século da comunicação e das comunicações. Durante os anos que tive de vida tudo se transformou, primeiro graças à rádio, depois, a partir dos anos 50, à televisão, ao vídeo, à técnica posta ao serviço da imprensa escrita, aos telefones, de alguns anos para cá aos telemóveis, e também graças aos computadores e ao aparecimento da Internet. Tudo isto mudou a vida das pessoas, os seus hábitos, a sua capacidade de comunicarem com as outras, vencendo distâncias que há uns 30 ou 40 anos atrás pareciam intransponíveis.

P. – Isso quer dizer que a comunicação entre as pessoas melhorou muito no século XX?

R. – Em sentido técnico sim. O aparecimento do telefone, depois, do fax e do telemóvel e, mais recentemente, do correio electrónico, pôs a pessoas muito mais em contacto umas com as outras do que alguma vez se imaginou que seria possível. Por isso digo que, em sentido técnico, se conseguiu um enorme avanço. Já no aspecto humano não poderá dizer -se o mesmo.

P. – O que o leva a dizer isso?

R. – Vou tentar explicar-vos. A comunicação entre seres humano não depende apenas da tecnologia. Depende também e sobretudo do afecto. E aí acho que não avançámos nada. Nunca a solidão foi tão grande nas grandes cidades, nunca as pessoas estiveram tão sós e as mesmo tempo tão cercadas de meios que fazem chegar a sua voz e até a sua imagem onde muito bem querem.

P. – E, na sua opinião, o que é que isso significa?

R. – Significa que a máquina pode ajudar, pode e deve ser um complemento, mas na base deve estar sempre o ser humano, as suas emoções os seus sentimentos. Uma pessoa pode ter em casa telefone, fax, Internet, mas pode não ter amigos e parentes com quem possa ou queira comunicar. E esse problema não há máquina, por mais sofisticada que seja, que o possa resolver. E é bom que o Homem perceba isso de uma vez por todas.

P. – Mas houve muitas coisas em que a tecnologia facilitou a vida das pessoas nestes anos, não houve?

R. – Claro que houve. Uma cozinha moderna, por exemplo, nada tem a ver com uma do princípio do século. Hoje o micro-ondas permite que se cozinhem refeições muito rapidamente, as máquinas de lavar e secar roupa tornam a vida muito mais fácil aos homens e às mulheres. Por outro lado, há cada vez mais pessoas que têm televisão e rádio na cozinha, podendo, enquanto confeccionam os alimentos, estar a acompanhar o que se passa no mundo. E, no entanto, nunca a alimentação foi tão perigosa, pois quem a produz utiliza produtos químicos que provocam doenças ainda sem cura, como o cancro e outras que ainda estão, calhar, por diagnosticar.

P. – E isso acontece porquê?

R. – Ora, por várias razões, mas a principal talvez seja a sede de lucro, a vontade de se ganhar dinheiro muito depressa, sem se levar em conta a saúde dos consumidores.

P. – Mas estávamos a falar de comunicação e de comunicações…

R. – É verdade. Nesse domínio, os meus 100 anos de vida, o tempo de existência do vosso século XX, foi um século de revoluções quase permanentes. Este foi o século do automóvel, do avião, dos comboios rápidos e da grande mobilidade humana entre países e continentes.

P. – Mas tudo isso teve aspectos positivos e negativos ao mesmo tempo, não é verdade?

R. – Infelizmente é verdade. O carro, o automóvel, tornou-se uma conquista extraordinária. Hoje, é raro uma pessoa, pelo menos nos países mais avançados, chegar à idade adulta e não ter um automóvel. Mas o automóvel é, ao mesmo tempo, o principal poluidor das grandes cidades e a causa dos intermináveis engarrafamentos que transformam num inferno a vida de quem vai para o emprego e volta dele em viatura própria. Devido a esse problema, as pessoas ganharam qualidade de vida e acabaram por perdê-la, tendo cada vez menos tempo para ler, para estar em casa com a família e para descansar. O avião também foi e continua a ser um grande avanço e um extraordinário meio de comunicação; mas acontece que hoje, no momento em que estamos a falar, há mais de 50 mil aviões no ar em todo o mundo, o que significa que o espaço aéreo tende a ficar perigosamente saturado, pondo em risco a vida de milhares de pessoas. Por sua vez, falando agora dessa forma de comunicação extraordinária que é a Internet, ela permite contactar o banco, marcar as férias e encomendar a “pizza” sem sair de casa, mas é, também, um perigoso meio de comunicação, se pensarmos em quem vive da pornografia ou em quem quer fazer propaganda ao nazismo e a outras formas de destruição da liberdade e da vida democrática.

P. – Talvez possa dizer-se que todas estas formas de progresso são como as moedas: têm duas faces. Uma é boa e a outra é má.

R. – Acho que é uma excelente comparação.

P. – Falou na aviação, e essa é uma das grandes conquistas do Homem no século XX, não acha?

R. – Sem dúvida que é. Enquanto eu durei, o ser humano realizou o sonho que o animava há milénios: o de voar. E não só conseguiu voar, para mostrar que era capaz de o fazer, mesmo não tendo asas, como transformou a aviação num rápido e extraordinário meio de transporte. E conseguiu mais. Partiu para o espaço, pousou na Lua e agora tem sondas a estudarem as condições de vida em Marte, tem estações orbitais onde já se pode viver um ano ou mais, e prepara-se para criar condições para que comunidades humanas venham, num futuro próximo, a viver algures no espaço. E é como vocês dizem e bem: estamos sempre perante duas faces da mesma moeda. A mesma inteligência que dá origem ao grande progresso científico também produz a tecnologia que destrói, como foi o caso da bomba atómica.

P. – E sempre com todas as descobertas e conquistas a serem prontamente divulgadas pela comunicação social.

R. – Precisamente, esse é outro dos aspectos que melhor caracterizam o meu século. Este foi o século da comunicação da palavra e da imagem a chegarem cada vez com maior rapidez a todo o lado. Agora, até já as guerras são transmitidas cm directo pela televisão. Foi o que aconteceu com a Guerra do Golfo, no princípio dos anos noventa e, mais recentemente, com a intervenção na Sérvia, por causa da questão do Kosovo. Isto é: ninguém pode dizer que não sabe que as coisas acontecem. Resta é saber se forma a respeito delas a opinião certa.

O CINEMA, O ROCK E OS MITOS

F. – Em resposta a uma pergunta que lhe fizemos, o Século XX falou do cinema. Que importância lhe atribui?

R. – Atribuo-lhe uma importância muito grande. Ele contribuiu, juntamente com a televisão, a partir de um certo momento, para que o século XX fosse sobretudo um século da imagem, muito mais do que um século da palavra.

P. – E a que é que isso se deve?

R. – Deve-se, para já, ao facto de os Estados Unidos terem transformado o cinema numa das suas maiores e mais rendosas indústrias. Mas trata-se também de uma indústria que é também uma grande arte, talvez mesmo a mais completa e popular de todas, um pouco como aconteceu com a ópera nos séculos XVIII e XIX. E chamo-vos a atenção para o facto de os irmãos Lumière, dois industriais franceses que inventaram o cinema, nunca terem acreditado que ele teria futuro. Felizmente enganaram-se!

P. – Portanto, o cinema é ao mesmo tempo uma arte e uma indústria.

R. – É verdade, uma arte e uma indústria que são essencialmente americanas. Os Estados Unidos exportaram o seu cinema para todo o mundo, havendo só um país que tem uma indústria forte para consumo interno: a índia, que produz centenas de filmes por ano para o seu bilião de habitantes. E nem sequer os países da União Europeia, apesar dos esforços que têm feito, conseguem encontrar alternativas.

P. – Mas, a verdade é que as pessoas gostam muito do cinema norte-americano, porque tem acção, drama e emoção.

R. – Gostam, sobretudo porque é um grande espectáculo que é feito com todos os ingredientes de que as pessoas gostam, desde o sexo à violência.

P. – E isso é bom ou é mau?

R. – Não vos sei responder. É bom, se ajudar a pensar e a ter opinião sobre as coisas. É mau, se embrutecer e alienar as pessoas e se as tomar violentas e intolerantes. O mesmo problema se pode pôr em relação à televisão, que é um dos grandes fenómenos do meu século. Hoje a televisão está em toda a parte, fazendo informação, mostrando filmes e entretendo as pessoas com telenovelas, concursos e outros tipos de programas Isso é mau, se levar as pessoas a afastarem-se da vida colectiva, a não exercerem a sua cidadania. E é bom, se as ajudar a ter informação e opinião sobre o que se passa à sua volta. É bom, se as levar a participar como cidadãos na vida da sociedade, o que infelizmente não tem acontecido.

P. – Pensando bem, é capaz de ter razão.

R. – Ainda bem que pensam assim. Mas já que me pedem que faça um balanço da minha vida, quero dizer-vos que este ficará também na história como o século do “rock”e dos novos mitos.

P. – Ah! é verdade, a música “rock”…

R. – Depois da Segunda Guerra Mundial assiste-se ao aparecimento, por influência dos Estados Unidos da América, de uma cultura de massas, cuja expressão principal talvez seja a música “rock”.A propagação de gira-discos portáteis e de discos mais leves, com o apoio da rádio e depois da televisão, deu origem a um impressionante movimento musical que tem como principais protagonistas Elvis Presley, os “Beatles”; os “Rolling Stones”, os “Pink Floyd”e mais tarde Michael Jackson, Madona ou os “U2”. A música “rock”e os seus intérpretes, cantando sempre em inglês, formaram o gosto de várias gerações em todo o mundo. Por isso, quando me pedem para escolher um dos símbolos do meu século, eu falo sempre da guitarra eléctrica.

P. – Mas falou também nos mitos, não foi?

R. – É verdade, os mitos. Desde a origem dos tempos que o Homem precisa dos mitos como precisa dos deuses, porque eles são a síntese dos grandes dramas, das grandes emoções e dos grandes sentimentos. Há os mitos gregos, os egípcios e os orientais e há, sobretudo, os mitos do século XX.

P. – De que mitos está a falar?

R. – Basta pensarem um pouco para descobrirem. Os mitos do século XX são sobretudo pessoas que viveram muito intensamente, que eram belas, que morreram ainda jovens. E o caso dos mitos do cinema como James Dean ou Marilyn Monroe, dos mitos do “rock” como Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Jim Morrison,ou dos mitos da política como Che Guevara. O mito tem sempre atrás de si uma carga de tragédia. Tem que ser construído a partir de pessoas que viveram depressa, que tiveram sonhos e os deixaram por realizar devido a uma morte geralmente violenta e prematura. E também o caso recente de Diana de Gales.

P. – E como se construíram esses mitos?

R. – Construíram-se, principalmente, graças ao papel dos meios de comunicação e à existência de um mercado que gosta de os consumir em “posters”; em discos, em “t-shirts”; em filmes e até em medalhas, tatuagens ou porta-chaves. Os mitos contemporâneos são uma das principais fontes de receita do mercado mundial. Vejam o caso de Che Guevara, um argentino formado em Medicina, que ajudou a triunfar a Revolução Cubana e que era um inimigo declarado da sociedade de consumo. Uma vez transformado em mito, rapidamente, após a morte, se converteu numa fonte de negócio e de grande lucro para todos quantos trabalham com a sua imagem.

P. – Isso quer dizer que a sociedade de consumo é uma das grandes realidades do Século XX?

R. – Sem dúvida. Se precisarmos de um símbolo que ajude a definir o que foi o meu tempo de vida, podemos falar na sociedade de consumo, que resume o melhor e o pior desta época. E a sociedade de consumo é de tal maneira importante, por ter a ver com a natureza profunda do ser humano, que os regimes de Leste caíram por não lhe terem aberto as portas ou por não terem encontrado alternativas para ela. E o pior é que, para muita gente, a sociedade de consumo substituiu a crença e a espiritualidade. Hoje, muita gente vai para o hipermercado c para os centros comerciais fazer compras só para preencher o grande vazio espiritual que sente. E o pior é que cada vez se compra mais aquilo de que não se precisa, ficando-se endividado só porque o desejo de comprar se transformou num vício difícil de controlar. Os objectos e os padrões da sociedade de consumo, constantemente divulgados pela publicidade e por outras formas de “marketing”; ocupam o espaço dos valores e dos princípios. A própria moda transformou-se numa forma de ditadura. Quem não a segue, principalmente se for jovem, é marginalizado. Quem não usa roupas de marca é desvalorizado socialmente. Talvez isto explique o facto de o espectáculo da moda ocupar hoje um espaço regular nos telejornais, como se fosse um acontecimento socialmente muito importante e quase obrigatório. E é curioso notar que um dos grandes nomes do mundo da moda no século XX, a francesa Coco Chanel, disse que a moda é o que passa de moda. Tudo isto ajuda a fazer o diagnóstico de uma crise que tem de ser ultrapassada enquanto é tempo. E para isso o tempo é curto.

 

José Jorge Leiria

Conversa com o Século XX

Porto, Ambar, 2001

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