Os contos como pilar de resiliência – B. Cyrulnik

B. Cyrulnik – Os contos como pilar de resiliência – Introdução
B. Cyrulnik I -Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada/Como levar uma criança maltratada a repetir os maus-tratos
B. Cyrulnik II -Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI
B. Cyrulnik III – A narração não é o regresso do passado/O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo
B. Cyrulnik IV – A angústia do mergulhador
B. Cyrulnik V – Mesmo os mais fortes têm medo de se lançar

 

Boris Cyrulnik
Le Murmure des fantômes
Paris, Éditions Odile Jacob, 2003
Excertos adaptados

 
Introdução


Ninguém poderia adivinhar que Marylin Monroe fosse um fantasma. Era demasiado bonita, demasiado meiga, brilhante. Uma aparição não tem calor, é um lençol frio, uma sombra inquietante. Mas Marylin deslumbrava-nos. Que poderes teria ela para nos encantar e prender daquela forma? Não compreendemos que há muito que ela morrera.

De facto, Marilyn Monroe não estava completamente morta. Com o seu encanto, fazia nascer em nós um sentimento delicioso e impedia-nos de compreender que não é preciso estar-se morto para não se viver. Começara a não estar viva desde que nascera. A mãe, profundamente infeliz, banida da sociedade por ter dado ao mundo uma menina ilegítima, ficara transtornada por tanto sofrimento. Um bebé só pode desenvolver-se num ambiente conforme às leis inventadas pelos homens, e a pequena Norma Jean Baker, ainda antes de nascer, já estava fora da lei. A mãe não teve força suficiente para lhe oferecer um regaço de segurança, tanta era a tristeza que dominava o seu mundo. A futura Marilyn foi metida em orfanatos frios e confiada a inúmeras famílias de acolhimento onde era difícil aprender a amar.

As crianças sem família têm menos valor do que as outras. O facto de alguém as explorar sexualmente ou socialmente não é um grande crime, porque estes seres abandonados não são verdadeiras crianças. Há quem pense assim.

Para sobreviver a tanta agressão, a pequena Marilyn teve de criar os seus fantasmas, de alimentar-se da própria dor, antes de afundar-se na melancolia e na loucura da mãe. Então, afirmou que Clark Gable era o seu pai verdadeiro e que ela pertencia a uma família real. Teve de o fazer! Criou assim uma vaga identidade, visto que, sem sonhos loucos, ela teria de viver num mundo de lama. Quando a realidade está morta, o delírio procura um lampejo de felicidade. Casou com um campeão de futebol, para o qual passa a cozinhar cenouras e ervilhas, cujas cores tanto lhe agradavam.

Em Manhattan, onde tirou cursos de teatro, foi a aluna preferida de Lee Strasberg, fascinado pela sua graça estranha. Ela já tinha morrido muitas vezes. Precisava de ser muito estimulada para não se deixar ir para a não-vida. Ficava parada, não saía da cama e deixava de se lavar. Quando um beijo a despertava, como o de Arthur Miller, por quem se fez judia, de John Kennedy ou de Yves Montand, reanimava-se, deslumbrante e calorosa, e ninguém se dava conta de estar a ser atraído por um fantasma. No entanto, ela dizia-o abertamente quando cantava I’m Through With Love, mas, já para o fim, brilhante de glória, sabia que só lhe restavam três anos de vida antes de dar a si própria um último presente: a morte.

Marilyn nunca esteve completamente viva, mas não podíamos sabê-lo, de tal modo o seu maravilhoso fantasma nos enfeitiçava.

A última biografia de Hans Christian Andersen começa por esta frase: A minha vida é um lindo conto de fadas rico e feliz. É preciso acreditar sempre no que os autores escrevem. Em todo o caso, a primeira linha de um livro é muitas vezes carregada de significação. Quando o pequeno Hans Christian veio ao mundo em 1805 na Dinamarca, a sua mãe tinha sido obrigada a prostituir-se pela própria mãe dela, que lhe batia e lhe impunha clientes. A filha fugira, grávida de Hans Christian e desposara M. Andersen. Esta mulher era capaz de tudo para que o filho não conhecesse a miséria. Tornou-se, então, lavadeira, e o pai, soldado de Napoleão. Alcoólica e iletrada, morreu numa crise de delirium tremens, enquanto o pai se suicidava na mais completa demência. O rapazinho teve de trabalhar numa lavandaria, depois, numa fábrica de tabaco onde muitas vezes as relações humanas eram violentas. Porém, Hans Christian, nascido na prostituição, loucura e morte dos pais, na violência e na miséria, nunca teve falta de afecto. “Muito feio, meigo e gentil como uma menina”, foi primeiro acarinhado no desejo da mãe, que ansiava torná-lo feliz, depois, no colo da avó paterna, onde foi ternamente educado com a ajuda de uma vizinha que lhe ensinou a ler. A aldeia de 5000 almas de Odense, na ilha verdejante de Fionie, era fortemente marcada pela presença dos contadores de histórias. (…)

O mundo do pequeno Andersen tinha de organizar-se a partir destas duas forças; precisava de sair da lama das origens para viver na luz da afectividade e da estranha beleza dos contos da sua cultura.

Estes mundos opostos estavam ligados pela arte que transforma a lama em poesia, o sofrimento em êxtase, o patinho feio em cisne. Este oxímoro que formava o universo em que o menino crescia foi rapidamente incorporado na sua memória íntima. A mãe, que o aquecia com a sua ternura, nadava no álcool e morrera numa das crises. Uma das suas avós incarnava a mulher-feiticeira, que não hesita em prostituir a filha, enquanto a outra personificava a mãe-fada, aquela que dá a vida e convida à felicidade. Foi assim que o pequeno Hans aprendeu muito cedo a representação de um mundo feminino clivado, que mais tarde fará dele um homem fortemente atraído pelas mulheres e aterrado por elas. A sua infância era recheada de permanentes humilhações e de sofrimentos reais, misturados, num mesmo impulso, com as delícias diárias dos encontros afectuosos e das maravilhas culturais. Ele conseguiu suportar o horror das suas origens, mas é talvez a prova terrível dos seus primeiros anos que irá acentuar a ternura das mulheres e a beleza dos contos. O oxímoro estruturante do seu mundo devia também tematizar a sua vida e reger as relações de adulto. Na história de uma vida, nunca se tem senão um problema a resolver, aquele que dá sentido à nossa existência e impõe um estilo às nossas relações. O patinho feio em desespero foi tocado de admiração pelos grandes cisnes brancos e animado pela esperança de nadar junto deles para vir a proteger outros meninos feios. (…)

Hans Christian Andersen nasceu na prostituição da mãe, na loucura dos pais, na morte, na orfandade precoce, na miséria doméstica, na violência social. Como não ficar morto quando se vive desta maneira? Duas brasas de resiliência (processo que permite o retomar de um dado desenvolvimento apesar de um traumatismo e em circunstâncias adversas) reavivaram a sua alma: a ligação a algumas mulheres recompôs a estima arruinada da criança, assim como um contexto cultural de narrativas estranhas em que a língua dos pântanos fez surgir da bruma gnomos, duendes, fadas, feiticeiras, elfos, guerreiros, deuses, armas, crânios, sereias, vendedeiras de fósforos e patinhos feios dedicados à mãe morta.

Marilyn Monroe nunca pôde encontrar a pertença e o sentido, as duas palavras capazes de permitir a resiliência. Sem ligações e sem história, como poderia alguém encontrar-se a si próprio? Quando a pequena Norma foi metida num orfanato, ninguém imaginava que, um dia, ela se tornaria uma Marilyn capaz de nos deixar boquiabertos. A carência afectiva fizera dela uma avezinha depenada, a tremer, encolhida, incapaz de se virar para o mundo e para as pessoas. As trocas constantes de família de acolhimento não permitiram que se organizasse à sua volta uma permanência afectiva que lhe teria permitido adquirir o sentimento de amar. De modo que, quando chegou à idade do sexo, deixava-se ir com quem a desejava.

Quando não se aproveitavam dela sexualmente, os homens exploravam-na financeiramente. Darryl Zanuck, produtor de cinema, tinha interesse em considerá-la uma leviana, para poder fazer fortuna, alugando-a a outros estúdios. E mesmo aqueles que sinceramente a amaram não souberam entrar no seu mundo psíquico para a ajudar a fazer um trabalho de historização que teria dado sentido à sua infância atormentada. Os seus amantes apaixonados deixaram-se voluptuosamente cair na armadilha da imagem magnífica da doce Marilyn. Cegos por tanta beleza, não soubemos ver o seu imenso desespero. Ficou sozinha na lama, para onde, de vez em quando, lhe lançávamos um diamante… até ao dia em que se deixou ir de vez.

O patinho feio do Hans encontrara, no decurso da sua infância aterradora, os dois principais factores de resiliência: mulheres que o tinham amado e homens que tinham organizado um ambiente cultural em que os contos permitiam metamorfosear os sapos em príncipes, a lama em ouro, o sofrimento em obra de arte.

A doce e linda Norma não foi mais agredida do que o pequeno Hans. Há muitas famílias de acolhimento que sabem aquecer o coração destas crianças. Mas a pequenita, demasiado ajuizada por causa da sua mágoa, não encontrara nem a estabilidade afectiva que a poderia ter estruturado, nem as histórias de que precisava para compreender como devia viver para sair da lama.

O pequeno Hans evadido do inferno voltou a ganhar gosto pela vida. Conviveu com os cisnes, escreveu contos e fez leis para proteger outros patinhos feios. (…)

A comovente Marilyn não encontrou a vida. Permaneceu morta. O que nós adorávamos era somente o seu fantasma. Ela não conseguiu a resiliência porque o seu meio nunca lhe ofereceu estabilidade afectiva e não a ajudou a dar um sentido à sua fragmentação. O pequeno Hans encontrou os dois pilares da resiliência que lhe permitiram construir uma vida apaixonante, apesar de tudo. A sua fuga do inferno custou-lhe a sexualidade, mas ninguém pretende fazer da resiliência uma receita de felicidade. É uma estratégia de luta contra a infelicidade, que permite conseguir o prazer de viver, apesar do murmurar dos fantasmas no fundo da sua memória.

 

Segue

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NOTA: a edição em língua portuguesa deste livro existe no Brasil:
Boris Cyrulnik, O Murmúrio dos fantasmas, Editora Martins Fontes
ISBN: 8533621272

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