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Histórias em Português

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O Cantor do Vento – William Nicholson

11 por contadores.destorias

O Cantor do Vento
William Nicholson

Havia muitos e muitos anos que a voz do Cantor do Vento se calara. Aquela melodia que fazia feliz quem a ouvia nunca mais ecoou pelas ruas da cidade de Aramanth, onde reina agora uma ordem imposta que obriga todos os seus habitantes a prestar um juramento de obediência às leis do Imperador. Um dia, Kestrel, uma menina curiosa e de espírito rebelde e insubmisso, decide desafiar tudo e todos, ousa ir além das muralhas da cidade, e parte, na companhia de Bowman, o seu irmão gémeo, e do amigo Mumpo, numa viagem recheada de perigos e aventuras, desejosa de descobrir a origem do poder maléfico que domina Aramanth.

(excerto)

A Batalha do Vento

Era evidente que o plano de Kemba obtivera a aprovação de Raka, porque, quando Salimba voltou a entrar na cela, contou às crianças que o povo não falava de outra coisa.

— Nunca vimos uma batalha com mortes a sério — explicou, com os olhos muito brilhantes. — Pelo menos, desde que me lembro. Vou lá estar, a ver-vos, podem ter a certeza disso.

— Como sabem que seremos mortos? — perguntou Kestrel. — A corveta pode disparar pela planície sem bater em nada.

— Não, não, eles vão cuidar disso — replicou Salimba. — Vão esperar que toda a frota chaka esteja cá fora e então mandam-vos lá bem para o meio. Os cruzadores chaka são equipados com lâminas antigas, muito pesadas. Cortam-vos em tiras, não tenham dúvidas disso.

— Não se importa? — inquiriu Bowman, com um clarão no olhar.

Salimba olhou para ele, depois voltou o rosto, embaraçado.

— Bem, não será agradável para vocês — resmungou. — Reconheço isso. Mas… — animou-se de novo — será magnífico para nós!

Quando o guarda se retirou, os gémeos sentaram-se a discutir o problema.

— É estranho — comentou Bowman —, mas, apesar de toda esta conversa de matar e enforcar, tenho a sensação que esta gente não é má.

Foram interrompidos por um grito abrupto de Mumpo:

— Iu-úúú!

— Mumpo?

— Sim, Kess?

— Tens consciência do que está a acontecer?

— És minha amiga e eu gosto muito de ti.

Tinha os olhos turvos, mas a rapariga insistiu:

— Amanhã de manhã vão meter-nos num daqueles veleiros, para sermos atacados por uma quantidade de outros mostrengos do mesmo género.

— Isso é bom, Kess.

— Não, não é nada bom. Esses veleiros têm lâminas rotativas que vão cortar-nos às postas!

— Postas pequenas ou grandes? — Mumpo ria. — Ou assim muito, muito pequeninas?

Kestrel fitou-o com atenção:

— Mumpo! Mostra-me os dentes!

O rapaz abriu os lábios. Tinha os dentes amarelos.

— Estás a mascar tixa, não estás?

— Estou tão feliz, Kess!

— Onde está? Mostra.

Mumpo remexeu nos bolsos e exibiu um molho de folhas de tixa.

— Não prestas para nada, Mumpo!

— Sim, Kess, bem sei. Mas gosto muito de ti!

— Oh, cala-te!

Bowman tinha os olhos fitos nas folhas acinzentadas.

— Talvez consigamos.

— Fazer o quê?

— Quando nos abrigámos no veleiro destruído, estive a estudar a forma como as peças encaixavam. Acho que sei como aquilo funciona. Com o Mumpo no alto do mastro, como fez quando mergulhou na lama, talvez possamos escapar.

Publicado em adolescentes, esperança, leituras, pedagogia, sugestões de leitura | Sem comentários ainda

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