O Cantor do Vento
William Nicholson
Havia muitos e muitos anos que a voz do Cantor do Vento se calara. Aquela melodia que fazia feliz quem a ouvia nunca mais ecoou pelas ruas da cidade de Aramanth, onde reina agora uma ordem imposta que obriga todos os seus habitantes a prestar um juramento de obediência às leis do Imperador. Um dia, Kestrel, uma menina curiosa e de espírito rebelde e insubmisso, decide desafiar tudo e todos, ousa ir além das muralhas da cidade, e parte, na companhia de Bowman, o seu irmão gémeo, e do amigo Mumpo, numa viagem recheada de perigos e aventuras, desejosa de descobrir a origem do poder maléfico que domina Aramanth.
(excerto)
A Batalha do Vento
Era evidente que o plano de Kemba obtivera a aprovação de Raka, porque, quando Salimba voltou a entrar na cela, contou às crianças que o povo não falava de outra coisa.
— Nunca vimos uma batalha com mortes a sério — explicou, com os olhos muito brilhantes. — Pelo menos, desde que me lembro. Vou lá estar, a ver-vos, podem ter a certeza disso.
— Como sabem que seremos mortos? — perguntou Kestrel. — A corveta pode disparar pela planície sem bater em nada.
— Não, não, eles vão cuidar disso — replicou Salimba. — Vão esperar que toda a frota chaka esteja cá fora e então mandam-vos lá bem para o meio. Os cruzadores chaka são equipados com lâminas antigas, muito pesadas. Cortam-vos em tiras, não tenham dúvidas disso.
— Não se importa? — inquiriu Bowman, com um clarão no olhar.
Salimba olhou para ele, depois voltou o rosto, embaraçado.
— Bem, não será agradável para vocês — resmungou. — Reconheço isso. Mas… — animou-se de novo — será magnífico para nós!
Quando o guarda se retirou, os gémeos sentaram-se a discutir o problema.
— É estranho — comentou Bowman —, mas, apesar de toda esta conversa de matar e enforcar, tenho a sensação que esta gente não é má.
Foram interrompidos por um grito abrupto de Mumpo:
— Iu-úúú!
— Mumpo?
— Sim, Kess?
— Tens consciência do que está a acontecer?
— És minha amiga e eu gosto muito de ti.
Tinha os olhos turvos, mas a rapariga insistiu:
— Amanhã de manhã vão meter-nos num daqueles veleiros, para sermos atacados por uma quantidade de outros mostrengos do mesmo género.
— Isso é bom, Kess.
— Não, não é nada bom. Esses veleiros têm lâminas rotativas que vão cortar-nos às postas!
— Postas pequenas ou grandes? — Mumpo ria. — Ou assim muito, muito pequeninas?
Kestrel fitou-o com atenção:
— Mumpo! Mostra-me os dentes!
O rapaz abriu os lábios. Tinha os dentes amarelos.
— Estás a mascar tixa, não estás?
— Estou tão feliz, Kess!
— Onde está? Mostra.
Mumpo remexeu nos bolsos e exibiu um molho de folhas de tixa.
— Não prestas para nada, Mumpo!
— Sim, Kess, bem sei. Mas gosto muito de ti!
— Oh, cala-te!
Bowman tinha os olhos fitos nas folhas acinzentadas.
— Talvez consigamos.
— Fazer o quê?
— Quando nos abrigámos no veleiro destruído, estive a estudar a forma como as peças encaixavam. Acho que sei como aquilo funciona. Com o Mumpo no alto do mastro, como fez quando mergulhou na lama, talvez possamos escapar.